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Afinal, quem quer ver o Festival da Canção?

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Afinal, quem quer ver o Festival da Canção?

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Este ano, é a Suécia que acolhe o Festival Eurovisão da Canção. É o maior concurso do género do mundo: 39 países participantes, uma audiência estimada em 250 milhões de espetadores. Neste Reporter, vamos falar sobre a história, o kitsch e a extravagância de um evento que é muito mais do que musical.

O jogo de um grupo de amigos que vive em Estocolmo é simples: juntam-se todas as semanas para reviver uma noite do Festival Eurovisão da Canção, atribuindo votos às músicas como se fossem o júri internacional. Desta vez, regressaram ao ano de 1999, que assinalou uma das cinco vitórias que a Suécia conquistou neste concurso. É claro que, em vésperas de mais uma edição do festival, ainda por cima a decorrer no próprio país, em Malmö, a inspiração é particularmente profunda. “É muito interessante ver que tipo de expressão cada país assume de ano para ano. O que é que vão apresentar de melhor da sua cultura? Porque é o que a maior parte deles faz, é isso que querem mostrar à Europa”, afirma Helena Jönsson. Para Daniel Bergtsson, “tudo começou em 1974, com os ABBA. Fiquei muito orgulhoso. A Suécia não é um grande país, a população é pequena. Mesmo assim, somos o terceiro país do mundo em termos de produção de música pop.”

Em 1974 iniciava-se a ascensão meteórica do grupo sueco, ao vencer o festival com a canção “Waterloo”. Depois… só Elvis Presley, os Beatles e Michael Jackson se igualam na venda de discos. Mas primeiro, os ABBA deram um novo fôlego àquele que é um dos mais antigos programas na Europa ainda no ar. Segundo Bjorn Ulvaeus, um dos antigos membros do grupo, “hoje em dia, o festival tem menos impacto do que costumava ter. A importância também varia de país para país. Na Suécia, ainda tem muita importância. Há pouca gente a conseguir lançar a sua carreira na Eurovisão. Nós passámos por isso, lutámos por isso. É um bom programa de televisão. O que não significa que todas as músicas sejam boas. Mas é um bom programa. Gostava que fosse mais centrado nas músicas, como era dantes.”

A primeira edição realizou-se na Suíça em 1956. Num continente assolado pela guerra, a União Europeia de Radiodifusão tornou a música num elemento unificador. Os primeiros países a participar, para além da anfitriã, foram a França, a República Federal da Alemanha, a Itália, a Holanda, o Luxemburgo e a Bélgica. Portugal entrou em 1964, com um resultado desanimador: a “Oração”, de António Calvário, ficou em último lugar. Nas décadas seguintes, o número de participantes mais do que triplicou e o espetro geográfico alargou-se: de Israel a Marrocos, passando pelos países de leste. Mesmo os cantores como Celine Dion, uma canadiana a representar a Suíça, passaram a encarnar a diversidade.

Se muitas coisas mudaram, há uma tradição que se mantém. É o país vencedor que acolhe a edição do ano seguinte. Muitos criticam os elevados custos financeiros que acarreta organizar um evento destes. Annika Nyberg, da organização, considera que este é “um símbolo europeu. É quem nós somos, a União Europeia de Radiodifusão. É demasiado grande? O que é que isso significa? Na perspetiva de um espetador, é isso que é esperado. É o maior programa de entretenimento do mundo. O que não quer dizer que ele não possa ser produzido de uma forma sustentável.”

A edição do ano passado, no Azerbaijão, custou qualquer coisa como 150 milhões de euros. Países como Portugal e Polónia anunciaram que não vão participar no concurso deste ano por questões financeiras. Mas como é que se chegou a esta dimensão? David Goodman, apresentador de rádio, é considerado um especialista no assunto: “é tudo muito kitsch. Trata-se de uma competição e de um programa de televisão. Tendo em conta estes dois fatores, em apenas três minutos os cantores têm de seduzir um público enorme, de diversas culturas, de países diferentes. Mas, por detrás do concurso, estão os interesses geopolíticos. Cada um tem uma razão diferente para lá estar. Os países da Europa ocidental participam por uma questão de herança. Os países do leste, porque querem afirmar a sua identidade, querem mostrar-se a uma audiência europeia alargada. O festival é uma mistura disto tudo. Entre a geopolítica e o kitsch, temos o mais fantástico e único programa de televisão.”

Richard Herrey e os seus irmãos deram à Suécia mais uma vitória, em 1984. Depois assinaram quatro álbuns e foram a primeira banda sueca a fazer uma digressão pela União Soviética, em 1985. Ao contrário dos ABBA, cantavam na língua materna. Hoje, Richard afirma ter orgulho no papel dos compositores suecos na música pop mundial. Dois exemplos: estão na base do sucesso de vários artistas americanos e são autores de cerca de um terço das canções que participaram na última edição do festival, o que, segundo Richard, contraria um pouco o espírito do concurso. “Acho que a ideia é ter artistas e compositores de cada país. O conceito da Eurovisão é ter diferentes países a contribuir com a sua cultura, com os seus artistas, com os seus autores. Isso perde o sentido quando há suecos ou noruegueses a comporem canções para a Geórgia ou para a Macedónia. É um bocado estranho”, opina.

O que não parece estranhar são as estimativas de audiência para este ano: 250 milhões de espetadores. Caroline Noren cobre o evento desde 1999: “considero positivo o facto de a Suécia estar a tentar reduzir a dimensão do festival. Se um pais debilitado economicamente ganhar e depois não for capaz de o produzir, é um problema. É melhor tornar o evento mais pequeno, mais focado nas músicas, e não tanto na magnitude e nas grandes festas, como em Baku, no ano passado, onde construíram edifícios de propósito para a competição. É preciso cortar no show-off e dar um bom show.”

Bonus interview: Björn Ulvaeus, former ABBA member
Bonus interview: David Goodman, Eurovision Song Contest expert