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Bruxelas afasta-se da austeridade no dia em conhece previsões negativas da OCDE

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Bruxelas afasta-se da austeridade no dia em conhece previsões negativas da OCDE

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A Europa continua mergulhada numa profunda recessão enquanto os principais rivais já estão no caminho do crescimento.
De acordo com dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico, a economia norte-americana deve crescer 1,9% este ano graças ao maior consumo e investimento privado, o que permite reduzir o desemprego.
A OCDE prevê também que o Japão cresça 1,6% este ano.

Já para a União Europeia as previsões são pouco animadoras. Só a Zona Euro deve registar um crescimento negativo de 0,6% este ano, com o desemprego a aumentar. Em Portugal o cenário é ainda mais recessivo: a OCDE acredita que a contração será de 2,7%.

Mas no dia em que são conhecidos estes dados tão negativos, Bruxelas enviou uma mensagem que se afasta da austeridade. Sem aliviar a pressão sobre a disciplina orçamental e a necessidade de implementar reformas estruturais, a Comissão Europeia decidiu dar mais tempo a sete países – Espanha, França, Holanda, Polónia, Portugal, Bélgica e Eslovénia -, para a redução dos défices abaixo de 3% do PIB.

De uma perspectiva europeia para uma perspectiva global, falamos com Pier Carlo Padoan, vice-secretário geral e economista chefe da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento económico.

Margherita Sforza, euronews:
“Os Estados Unidos parecem estar a sair do túnel. De acordo com as previsões da OCDE, este ano o crescimento norte-americano será de 1,9% enquanto a zona euro deve contrair 0,6%, a taxa de desemprego será de 7,5% nos Estados Unidos e na zona euro de 12% e deve continuar a crescer. O que está a funcionar nos Estados Unidos que não funciona na Europa?”

Pier Carlo Padoan, OCDE:
“Primeiro, nos Estados Unidos a crise financeira foi “atacada” imediatamente. Os bancos que não estavam a trabalhar bem receberam apoio. Nos Estados Unidos as famílias e o setor privado começaram a ajustar os próprios orçamentos antes dos outros, esse processo está agora completo, os preços das casas estão agora a aumentar, a riqueza das famílias tem crescido. Por outro lado, na Europa o sistema financeiro ainda não está a trabalhar bem e a dívida das famílias continua a crescer.”

Margherita Sforza, euronews:
“Quer dizer que a Europa reagiu muito tarde?”

Pier Carlo Padoan, OCDE:
“A Europa reagiu demasiado tarde e arrisca-se a continuar desta forma, lembremo-nos das hesitações em relação à União Bancária.”

Margherita Sforza, euronews:
“As previsões da OCDE para a Zona Euro são ainda piores que as da Comissão Europeia: prevê uma queda nas grandes economicas como a francesa ou italiana. De acordo com o comissário alemão Oettinger, Bruxelas substimou a situação e está a fazer face à crise com excessiva delicadeza. Partilha desta opinião?”

Pier Carlo Padoan, OCDE:
“Tenho duas coisas a dizer: a primeira, na maior parte da Zona Euro, os ajustes orçamentais são feitos para atingir um objetivo: para muitos países talvez no próximo ano, a dívida deve parar de crescer e até começar a decrescer. Em segundo lugar, que a Europa está a perder é a continuação do processo de reformas estruturais e a oportunidade de crescrimento da procura a um nível global.”

Margherita Sforza, euronews:
“O relatório denuncia um falta de firmeza na aplicação das reformas estruturais. Quais são os riscos para os Estados-membros da Zona Euro caso não apliquem as reformas necessárias?”

Pier Carlo Padoan, OCDE:
“O risco é de perder os resultados do ajustamento, que já está a ter efeitos negativos no emprego, em vez de se aproximar de um ponto de viragem. Há necessidade de diferentes progressos para os diferentes países. Por exemplo, na Grécia, há necessidade de maior competitividade a nível de produção, mais reformas do sistema bancário em Espanha, em Itália existe um problema antigo de fraco crescimento da produtividade. Há reformas a fazer nos vários países. Se forem feitas de forma simultânea haverá vantagens para cada país mas também para a Europa como um todo.”

Margherita Sforza, euronews:
“Mas muita austeridade mata o crescimento?”

Pier Carlo Padoan, OCDE:
“A austeridade tem um impacto negativo no crescimento, é óbvio mas o que estou a dizer é que a Europa evoluiu no ajustamento orçamental, por isso austeridade está quase a terminar.”

Margherita Sforza, euronews:
“Falemos de desemprego jovem, na Grécia e em Espanha, um em cada dois jovens com menos de 25 anos não tem trabalho. De acordo com o presidente do Banco Europeu de Investimento Werner Hoyer não existe uma solução rápida para este problema. Estamos perante uma geração desempregada?”

Pier Carlo Padoan, OCDE:
“Há um risco sério de perder esta geração. É verdade que não existe uma solução milagrosa mas existe uma receita possível que tem duas partes: primeiro criar estímulos para levar as empresas a contratar jovens, para eliminar barreiras à entrada de jovens no mercado de trabalho, com instrumentos fiscais que encoragem os estágios. A segunda parte é o dinheiro. Temos de encontrar formas de financiar esses estímulos, pelo menos a curto prazo.”

Margherita Sforza, euronews:
“Qual é a solução para fazer crescer a Zona Euro, precisamos de uma política mais agressiva?”

Pier Carlo Padoan, OCDE:
“A curto prazo, acreditamos que o Banco Central Europeu deve apoiar a procura, com instrumentos menos usuais, porque a taxa de inflação está a cair. Mas temos de avançar com a União Bancária porque sem uma união bancária a política monetária não funciona e o crédito e crescimento não podem recomeçar.”