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"London Is Not Calling"

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"London Is Not Calling"

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No Reino Unido, chove constantemente, há pedintes nas ruas e filas insuportáveis por todo o lado. Para quê vir trabalhar para um país assim, sobretudo se vier da Roménia ou da Bulgária? São argumentos que, muitos dizem, fazem parte de uma suposta campanha do governo britânico para dissuadir potenciais imigrantes. Mas o tiro pode sair pela culatra.

Londres é uma das cidades mais cosmopolitas do mundo. A convivência entre pessoas oriundas de diferentes culturas tornou-se numa característica dominante da capital britânica ao longo do século 20. Mas agora fala-se num imperativo nacional que é reduzir o fluxo de estrangeiros. Aliás, há quem afirme mesmo que é preciso fechar a torneira, sob a justificação de que os sistemas de saúde e de assistência social ameaçam colapsar.

David Cameron anunciou que pretende reverter os números da imigração que foram propulsionados durante os últimos governos trabalhistas. O timing pode ser complicado.No próximo mês de janeiro, terminam as restrições impostas à entrada de trabalhadores da Bulgária e da Roménia. O governo britânico não pode bloquear um direito fundamental europeu, a livre circulação.

Os media britânicos têm satirizado sobre a preparação de uma eventual campanha naqueles países para dissuadir potenciais interessados, com argumentos como a chuva constante ou a ameaça de recessão. Isto acontece depois de um membro do executivo ter declarado que é preciso passar a ideia “de que as ruas, aqui, não são ladrilhadas a ouro”. Mas a verdade, é que, segundo as sondagens, 70% dos britânicos quer mesmo restringir a entrada de imigrantes. Alp Mehmet, da Migration Watch, afirma: “não estamos a dizer: ‘não, não venham’. O que queremos é que o governo e as autoridades tenham uma ideia dos números em questão, e que se preparem para isso. Para não acontecer como em 2004, quando nos disseram que iam entrar 13 mil pessoas por ano, vindas dos oito países que tinham aderido à União Europeia. O que aconteceu foi que vieram cerca de um milhão e isso tem consequências. E as escolas? E o alojamento? E os transportes?”

É na frustração em relação aos partidos tradicionais que aposta o UKIP, o partido cuja razão de ser é tirar o Reino Unido da União Europeia. A controvérsia é comum para Nigel Farage, o homem que tornou o movimento no terceiro partido mais votado nas últimas eleições municipais e que tem enfrentado protestos e acusações de “fascismo”. Segundo Farage, “é claro que há pessoas que vieram da Polónia, que trabalham muito, que pagam os impostos, que respeitam a lei. Isso é ótimo. Mas, em Londres, estamos a assistir a uma vaga de crimes cometidos por romenos. Há demasiados jovens desempregados. Em muitos casos, a média salarial caiu para o nível do salário mínimo. Porque é que haveríamos de querer mais 100 mil pessoas? Ou 200, 300 mil? Meio milhão? A questão é esta. Não conseguimos controlar a quantidade de pessoas que podem entrar.”

Cameron afirma que pretende recuperar parte da autonomia britânica antes de organizar um referendo sobre a continuação na União Europeia, previsto para 2017. Mas tem margem de manobra para o fazer?

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