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Brasil: A Copa da discórdia

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Brasil: A Copa da discórdia

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O governo sempre negou, mas há muito que a população estava descontente com os gastos do Mundial. Pouco antes de começar a Taça das Confederações, impulsionados pelo aumento das tarifas dos transportes públicos, os brasileiros saíram às ruas e questionaram como é que um país tem 11 mil milhões de euros para pagar o mundial e não tem dinheiro melhorar os serviços públicos.

“Eu quero os corruptos fora do meu país. Eu sou do Ministério Público, eu defendo o meu órgão e quero que o meu órgão continue investigando a corrupção deste país”, diz um manifestante.

A Rocinha também saiu às ruas e a euronews ouviu a população da maior favela do Brasil, com 70 mil habitantes.

“Os principais problemas são a corrupção e a falta de cidadania. Muitas pessoas ficaram sem casa com as chuvas e eles pensam só na Copa, não querem saber das pessoas “, diz uma habitante do bairro. Acrescenta outra habitante: “A nossa saúde pública é muito precária e as escolas também. O Brasil não está preparado para a Copa, falta muita coisa. Os transportes estão cada vez piores. Agora eles querem encobrir tudo e fingir que tudo está bem”.

Os jogadores têm também uma opinião. Para Hulk, internacional do Brasil que já foi do FC Porto e está agora ao serviço do Zenit de São Petersburgo, “muita gente critica o Brasil, a criminalidade, a violência e veem só o lado negativo. Mas é preciso ver o lado positivo. Se o Brasil não tivesse tudo isso, seria um país perfeito”.

Para Neymar, a atual estrela do plantel brasileiro, “se todos fizerem o seu trabalho corretamente, não vai haver problemas durante a Copa”.

Os investimentos para o Mundial são o principal alvo das críticas. Depois do Campeonato do Mundo, os 12 novos estádios construídos com dinheiro público vão ser administrados por clubes ou empresas privadas. Muitas obras de infraestruturas e mobilidade urbana ainda não foram concluídas e a população não vê melhorias.

A euronews ouviu a opinião do ex-jogador e atual deputado Romário: “A nossa saúde pública, a nossa educação, ainda está longe de atingir o nível da economia do país. Quando o governo anunciou a Copa do Mundo foi bem claro ao informar que 90% dos gastos seriam sustentados pelos privados e apenas 10% dos gastos viriam do dinheiro público. Infelizmente, hoje o que nós vemos é 100% de dinheiro público”.

Desde o primeiro dia, a FIFA deixou bem claro no Brasil quem é que manda no Mundial. A população e muitos políticos não gostaram do tom, mas o governo obedeceu. Para receber o Mundial, o governo concedeu à FIFA a isenção de 194 milhões de euros em impostos durante cinco anos. Um desconto que daria para comprar o novo estádio de Fortaleza.

Diz Romário: “Para a FIFA e para o futebol, tinha de ser uma honra organizar um mundial no Brasil. Infelizmente, muitos políticos brasileiros colocaram a FIFA num pedestal, entendem que é um favor que o Brasil está fazendo. A FIFA vem ao nosso país sem gastar um real e vai sair daqui com pelo menos três mil milhões de reais (mil milhões de euros)”.

Ricardo Trade foi o homem nomeado para liderar o Comité Organizador do Campeonato do Mundo e é quem recebe diretamente as ordens da FIFA. Hoje, é um dos homens mais odiados do Brasil, mas o dirigente garante que os brasileiros vão ser os principais beneficiados com o mundial: “Se você pensar que obras que poderiam vir daqui 20 anos estão sendo aceleradas para a Copa do Mundo, essas obras de infraestrutura vão de certeza refletir-se na vida quotidiana dos brasileiros e, mais do que isso, na imagem do Brasil, na promoção do Brasil. Atualmente, o Brasil recebe, como país, menos turistas do que Paris por exemplo. Se provarmos que sabemos receber bem com qualidade no aeroporto, transportes públicos, na hotelaria, as pessoas vão querer voltar com familiares. Esse foi um mérito da África do Sul, muita gente hoje já pensa em ir à África do Sul fazer turismo por causa do Mundial, uma cosia que nem sempre imaginamos. Isso vai mexer com a economia do país, porque nós somos muitos em serviços. O mundial vai trazer mais empregos, mas estruturas e recursos para o Brasil”.