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Croácia quer transformar "fuga de cérebros" em "circulação de cérebros"

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Croácia quer transformar "fuga de cérebros" em "circulação de cérebros"

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Por ano, na Croácia, cerca de 10 mil jovens decidem abandonar o país à procura de um melhor futuro no estrangeiro. O fenómeno de fuga de cérebros preocupa as autoridades de Zagreb que desenvolveram uma série de medidas para inverterem a tendência, através de incentivos para que os estudantes regressem a casa depois de viverem experiências enriquecedoras no estrangeiro.

Estamos na periferia de Zagreb. Em 1996, quando esta fábrica fechou, um ano depois do fim da guerra da independência da Croácia, Matija Zesko, tinha seis anos e iniciava o seu primeiro ano escolar.

17 anos depois, mais precisamente dentro de algumas semanas, vai defender uma tese de física. Depois, pretende continuar o trabalho de investigador no estrangeiro.

“Vou deixar a Croácia porque quero trabalhar num projeto que não existe cá. O meu projeto é sobre antimatéria e as suas propriedades, mas como ninguém trabalha num projeto destes na Croácia tenho que procurar outro sítio.”

Matija não é o único. Os mais brilhantes estão a abandonar o país. De acordo com algumas estimativas, são cerca de 10 mil por ano.

“Tenho muitos amigos que estão a deixar o país, muitos deles por razões diferentes das minhas. Vão para o estrangeiro porque não têm bolsas, têm que encontrar trabalho noutros países porque não há dinheiro na Croácia para financiar as suas pesquisas aqui.”

Em pensamento, Matija já está a preparar as bagagens. Em outubro, vai trabalhar para um laboratório na Alemanha.

Consciente dos riscos decorrentes desta situação, o governo está a tomar medidas para transformar a fuga de cérebros em circulação de cérebros, estimulando a mobilidade de jovens e brilhantes investigadores, mas também incentivando-os a regressar ao país.

Entre as medidas adotadas, há uma chamada Newfelpro, um programa de sete milhões de euros distribuídos durante quatro anos, financiado em 60 por cento pelo governo croata e em 40 por cento pela União Europeia, através da Fundação Marie Curie.

A notícia foi muito bem recebida pelo Departamento de Química da Faculdade de Ciências.

“Esta iniciativa do governo tem alguns aspetos muito positivos. É muito bom para os jovens pesquisadores, estudantes, cientistas, ir para o estrangeiro e trazer novos conhecimentos para a Croácia, trazer estudantes com doutoramento ou pós graduados para a Croácia de outros países”, afirma Nikola Bregovic.

Nikola está a trabalhar como investigador no Departamento de Química. Para ele é a realização de um sonho.

“Basicamente, depois de ter conseguido o meu diploma consegui arranjar trabalho aqui. Vou ficar por mais dois anos e depois, provavelmente, mais quatro. Depois disso, não posso fazer projetos sobre o que vai acontecer e para onde quero seguir com a minha carreira.”

O Newfelpro é um passo na direção certa, mas é insuficiente. Marijan Herak, é professor universitário de geofísica. Há 30 anos que ensina geofísica na Faculdade de Ciências, da Universidade de Zagreb.

“Se quisermos falar sobre como acabar com a fuga de cérebros, ou melhor, como iniciar a circulação de cérebros, porque é disso que precisamos, precisamos que as pessoas circulem por vários países, instituições. Estou, obviamente, a falar de cientistas. Depois, temos de criar atrativos para que regressem ao país e a única maneira de o fazer é investindo mais na pesquisa e no desenvolvimento.”

Matija e Nikola sabem que as suas paixões pela pesquisa são sinónimo de dedicação, sacrifício, mas também podem ser sinónimo de êxitos. Ambos têm um sonho.

Para Matija é “fazer da ciência algo que seja benéfico para a humanidade.”

“O objetivo principal na minha carreira, no meu trabalho, no trabalho de todos os dias é saber algo que mais ninguém sabe. Por isso, descobrir é talvez a grande força que me move”, diz Nikola.

Enquanto esperam pela “terceira via” da ciência na Croácia, as vidas de Matija e Nikola vão ter dois rumos bem diferentes.