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Acordo de comércio livre UE-EUA: Primeira ronda de negociações arranca em clima de tensão

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Acordo de comércio livre UE-EUA: Primeira ronda de negociações arranca em clima de tensão

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As negociações entre os Estados Unidos e a União Europeia para a criação de um acordo de comércio livre começaram esta segunda-feira em Washington.
Mas esta primeira ronda fica marcada pelo clima de tensão provocada pelas revelações sobre a espionagem norte-americana e pela exigência francesa de exceção cultural.
No primeiro encontro estiveram, como representante para o Comércio Externo norte-americano, Michael Froman, e do lado europeu Ignacio Garcia Bercero.

Quando estiver concluído, este acordo deve criar a maior zona de comércio livre do mundo, com quase 820 milhões de pessoas.

A euronews entrevistou o professor Stuart Diamond, que ensina técnicas de negociação na Wharton Business School e é autor do livro “Getting More”, para tentar perceber como os últimos acontecimentos podem afetar a criação deste acordo.

James Franey, euronews:
“Tem havido alguma crispação entre os Estados Unidos e a União Europeia após as revelações de Edward Snowden. Devemos seguir o conselho de alguns eurodeputados e adiar as conversações?”

Professor Stuart Diamond, Wharton Business School:
“Isso não faria sentido. A controvérsia de Snowden não tem nada a ver com as negociações comerciais. Estariamos a desviar-nos do objetivo inicial se deixarmos o caso de Snowden afetar as negociações comerciais. O objetivo das negociações comerciais é a geração de centenas de milhões de dólares em novas receitas para os Estados Unidos e para a União Europeia. Por isso seria pouco eficaz adiar as negociações apenas por causa de algum outro assunto que nada tem a ver com as negociações comerciais.

James Franey, euronews:
“Mas não houve uma quebra de confiança…”

Professor Stuart Diamond, Wharton Business School:
“Bem, vejamos, o acordo entre os EUA e a China. Os acordos entre EUA e a União Soviética. Os acordos da OPEP com os importadores de petróleo. A confiança é importante, mas não é necessária. Podem construir a confiança à medida que avançam.”

James Franey, euronews:
“E com os negociadores sentados à mesma mesa, qual será o primeiro passo?”

Professor Stuart Diamond, Wharton Business School: “Olá, como está? Como tem passado? Quais são os nossos objetivos? Devemos criar riqueza aqui para os nossos países? Como o vamos fazer? Que preocupações devemos ter? Quais são as nossas necessidades? Vamos resolvê-las uma por uma. Agradável e simples. Uma negociação eficaz deve ser pouco mais que uma conversa. Não é um jogo de poder, não é emocional, mas se for encarada de uma forma calma e desapaixonada, vai ser capaz de satisfazer os objetivos mais rapidamente.”

James Franey, euronews:
“Em relação à questão emocional… Temos visto uma postura negocial muito difícil da França nas últimas semanas. Paris recentemente insistiu que o setor audiovisual fosse excluído, mesmo antes das negociações começarem. O que acha disso? A negociação pode realmente funcionar, mesmo quando queremos defender os nossos interesses?”

Professor Stuart Diamond, Wharton Business School:
“Bem, a primeira coisa a dizer é que, se a França quer excluir a cultura e a arte, então não deveriam chamá-las de negociações de livre comércio. Deviam chamá-las de negociações comerciais. Porque uma vez que se começa a excluir algo, deixa de ser livre comércio, certo? Essa é a primeira questão. Em segundo lugar, isso vai encorajar os Estados Unidos a começar a excluir coisas e assim não se vai a lado nenhum.”

James Franey, euronews:
“Isso é verdade, mas na realidade há grandes diferenças culturais de ambos os lados do Atlântico. Temos agora 28 países da União Europeia, assim que se chegar a um acordo entre os negociadores de Washington e negociadores da UE, terá de ser debatido aqui em Bruxelas.”

Professor Stuart Diamond, Wharton Business School:
“Bem, existem algumas questões. Em primero lugar, estudos recentes mostram que o sucesso das negociações está muito mais dependente da forma como as pessoas se relacionam entre si, individualmente, do que da cultura de onde veêm. Assim, mesmo que haja muitas culturas diferentes, não se está a negociar com milhares de pessoas na mesma sala, com uma média cultural. Negoceia-se com com os indivíduos para que os indivíduos possam estabelecer conexões pessoais. Em segundo lugar, estudos recentes mostram quanto maiores forem as diferença entre as partes, desde que essas diferenças sejam valorizadas, maior será o valor que se pode criar porque as diferenças promovem a criatividade, promovem valor. Assim, as partes devem dizer: “Nós estamos contentes por discordar, vamos usar isso de uma maneira colaborativa para criar mais valor.”. As negociações são muito sensíveis à atitude que se tem para a outra parte. Se você tentar colaborar, use as diferenças para criar valor e encontrar soluções significativas e nesse caso irá ganhar mais.

É muito mais eficaz que começar logo a exigir excepções.”