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Palavra de honra do primeiro-ministro espanhol é posta em causa

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Palavra de honra do primeiro-ministro espanhol é posta em causa

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O Partido Popular espanhol está a ser acusado de ter sido ilegalmente financiado, entre 1990 e 2009. Alguns dirigentes também terão, alegadamente, recebido pagamentos irregulares.

O caso Bárcenas, ex-tesoureiro do partido, durante 20 anos, tornou-se conhecido a 31 de janeiro deste ano, através das páginas do El Pais, onde se podiam verificar transferências em dinheiro líquido para Rajoy de 25.200 euros anuais ao longo de 11 anos.

A reação oficial do PP espanhol foi negar em bloco. No princípo o ex-tesoureiro também negou. A comissão executiva do partido reuniu de urgência no dia 2 de fevereiro para responder aos “papéis de Barcenas” publicados no jornal – que teve apenas acesso a fotocópias.

O presidente do partido e primeiro-ministro, Mariano Rajoy, declarou: “É falso”.

“Não vou necessitar de mais de duas palavras: é falso! Nunca, repito, nunca recebi nem reparti dinheiro sujo ne, neste partido nem em qualquer outro lugar”.

Nos meses seguintes, o primeiro ministro esquivou-se às questões da imprensa, e não pronunciou sequer o nome de Bárcenas, recusando ainda ir ao Parlamento pronunciar-se sobre as acusações.
Só quando foi a Berlim, em fevereiro, repetiu a negação e nunca mais tocou no assunto:

“Os factos que me imputam são falsos, já o disse e reitero. Tal como já disse antes, nego com força, com coragem, com determinação, a mesma que tinha quando cheguei ao governo.”

O mês de julho trouxe novas revelações, desta vez na edição do dia 9 do El Mundo que, ao contrário do outro jornal, teve acesso às folhas originais da contabilidade do “saco azul” de Bárcenas que, entretanto, foi preso preventivamente.

De visita à fábrica Opel, dois dias depois, Mariano Rajoy deu provas de habilidade polítca no modo como falou:

“Às vezes temos uma certa tendência para falar de coisas menos boas quando temos tanto para dizer das coisas boas, e esta é que é verdade”.

Este domingo, a palavra de honra de Rajoy foi posta em causa através da transcrição de SMS’s entre ele e Bárcenas, com palavras de apoio enviadas pelo primeiro-ministro até 6 de março de 2013. No dia 25 de janeiro Rajoy tinha dito que não se lembrava quando tinha falado pela última vez com o antigo homem de confiança, Luis Bárcenas.

Para ficarmos com um conhecimento mais profundo sobre o alcance do escândalo que está a abalar o setor político em Espanha, o jornalista Vincenç Batalla falou com cronista político do jornal El País, Antoni Gutíerrez-Rubi, que acompanha este caso em Barcelona.

V.B: O presidente continua a negar as acusações de financiamento ilegal feitas pelo antigo tesoureiro do Partido Popular, Luis Bárcenas. Mariano Rajoy prefere manter-se em silêncio sobre o caso. Depois das últimas notícias e da exigência da oposição para que se demita, terá Rajoy condições para continuar a governar?

A.G.R: Não se sabe ainda. Mas o que é certo – porque o próprio presidente o disse na conferência de imprensa que deu esta segunda-feira ao lado do primeiro-ministro da Polónia – e em função do que se pode retirar das revelações que vieram a público, inclusive hoje mesmo em sede judicial, é que uma ameaça à estabilidade política não é desejável. Foi assim que se referiu ao tema o presidente Rajoy ao dizer que os dois únicos compromissos que tem, agora mesmo, são as reformas acordadas para a Espanha com os parceiros europeus e a estabilidade política, que ele espera que não se perca.”

Podemos esperar a demissão de Rajoy nos próximos dias ou semanas?
“Pelo que se viu na conferência de imprensa desta segunda-feira, e em toda a trajetória de Rajoy, ele acredita é que a resistência é a verdadeira força de um líder político. Mas aquilo que temos visto a cada dia é que estas revelações nos jornais e na Justiça se sobrepõem e enfraquecem e de alguma forma amortizam as poucas explicações que o presidente deu até agora. O que está a minar a confiança e a credibilidade do presidente é a sensação de que ele já não lidera nem consegue progredir.”

Qual seria a consequência de uma monção de censura da oposição ao governo, sabendo-se que o Partido Popular tem a maioria absoluta no Parlamento? Podem surgir fraturas internas no seio do partido no poder? O que poderá acontecer a Rajoy?
“A consequência imediata de uma moção de censura seria obrigar o presidente Rajoy a explicar-se perante o Parlamento. Algo que ele continua a recusar. Há uma vantagem na moção de censura, que é obrigar o presidente a explicar-se. Uma outra seria perceber qual seria a alternativa a Rajoy e essa alternativa pode surgir na oposição, embora seja improvável que eles consigam reunir os votos suficientes, ou pode surgir de dentro do próprio Partido Popular, que pode nomear um sucessor para Rajoy.”

De qualquer forma, a corrupção é já a segunda maior preocupação dos espanhóis, a seguir ao desemprego. Se continuarem as revelações sobre este escândalo, qual será o limite de tolerância da povo?
“A sociedade espanhola est’a repleta de histórias de corrupção. A tolerância do povo está no limite. Por isso, julgo que Rajoy está errado quando insiste que o tempo há de curar estas feridas e resolver os problemas. Ele está confiante de que tal como a onda polémica apareceu, ela há de ser levada pela maré. Mas ele ainda terá de se haver com a corrupção, os processos legais e as provas judiciais que o incriminam. Acima de tudo, a imagem pessoal de Rajoy foi manchada. O presidente tem o lugar de maior responsabilidade política em Espanha e tudo o que o afeta, afeta também o governo e afeta a imagem internacional de Espanha.”