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Um passeio pela última fronteira do planeta Terra
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O Christer Fuglesang confessa que se sentia “poderoso” quando tinha a oportunidade de olhar para o planeta Terra a 350 quilómetros de altitude. O sueco é um dos astronautas da Agência Espacial Europeia que mais horas tem de “space walk”, a expressão inglesa para as chamadas atividades extra veiculares conhecidas pela sigla EVA. Fuglesang, hoje com 56 anos, soma mais de 30 horas em passeio pelo espaço cósmico. “É, sem dúvida, uma sensação especial”, sublinha o sueco, descrevendo a experiência de estar no espaço a olhar para o planeta “como se estivesse a montar um enorme cavalo em órbita da Terra.”

A cerca de dois anos da celebração do meio século sobre o primeiro passeio de um ser humano pelo espaço – um feito que pertence ao russo Alexey Leonov, de 79 anos, registado a 18 de março de 1965 – a euronews apresenta-lhe em Space um exclusivo no interior dos laboratórios de flutuabilidade neutra da empresa russa Zvedza – expressão que significa “estrela” e que tornou o local mundialmente conhecido como Star City. É ali que a Agência Espacial Europeia (EEI) prepara os astronautas para as missões na Estação Espacial Internacional (ISS).

Porque precisamos de ir para o espaço? Quais são os perigos que se colocam ao ser humano no cosmos? O que lucramos com tudo isto? São as perguntas que se colocam. As respostas, mostramos-lhe nesta edição, pela voz de antigos e novos astronautas europeus. Dois deles, Fuglesang e Leonov, já verdadeiras estrelas do cosmos.

Fomos ao encontro da italiana Samantha Cristoforetti, de 36 anos, e do alemão Alexander Gerst, de 37. Eles são dois astronautas da Agência Espacial Europeia escalados para participar em missões na órbita da Terra, em 2014, a bordo da ISS. Os dois estão neste momento em treinos. Encontramo-los a realizar simulações, no laboratório de flutuabilidade neutra, as quais “têm uma precisão de 95 por cento”, segundo Valery Nesmeyanov, um dos instrutores do Centro Gagarin, de Investigação, Treinos e Testes de Cosmonautas,

Samantha e Alexander preparam-se para um mergulho. Recebem um pequeno briefing, cumprem um rápido check up médico e verificam os fatos muito similares àqueles que irão usar no próximo ano quando concretizarem as missões espaciais para que estão escalados. “É um bom fato. Mantém-me viva e em segurança debaixo de água. Quem sabe, se não o fará também, um dia, no espaço”, diz-nos a italiana, que, à partida, será um dos seis astronautas a participar na Expedição 42 à ISS, em novembro do próximo ano.

Alexander mostra-nos o conector que estará ligado a um sensor junto à orelha que vai registar toda a informação biométrica. “É assim que as pessoas em terra podem acompanhar o meu ritmo cardíaco, a minha respiração e a temperatura do meu corpo”, explica-nos o alemão, um dos seis que deverão rumar à ISS em maio.

A abertura da escotilha e a saída da câmara hermética para o espaço, transportando carga, é o menu do dia, no treino dos dois astronautas. Pelo meio, irão ainda simular os procedimentos de resgate de um companheiro de missão que tenha ficado incapacitado.

Mas porque é que é importante este domínio do espaço e a possibilidade de se passear no cosmos? “São muitas as razões que justificam as EVA”, esclarece-nos Christer Fuglesang: “A mais óbvia é quando surgem avarias e temos de ir lá fora reparar algo”. É, normalmente, “nessas situações que acontecem as saídas de urgência não planeadas”. “Quando se constrói uma estação especial”, salienta, porém, o sueco, “são necessárias muitas saídas” e isso, acrescenta, significa “centenas de horas de EVA.”

O quase octogenário Alexey Leonov, o primeiro homem a passear-se pelo espaço sem recurso a qualquer propulsão artificial, destaca a importância do treino na preparação dos astronautas. “Se levarmos um barco para o mar aberto, é bom que se saiba nadar. Agora, se a nossa nave vai para o espaço e se estivermos a construir uma estação especial, como estamos, então é melhor se saiba nadar em gravidade zero. Mas não só nadar. É preciso saber montar e desmontar coisas lá em cima”, alerta o famoso russo, de 79 anos.

Do tempo de Leonov para a atualidade, muita coisa mudou. Em especial os fatos, hoje bem mais maleáveis e com melhores recursos tecnológicos. “Todo o sistema de suporte de vida estava numa pequena mochila separada, que o astronauta transportava às costas e ligava ao fato através de tubos”, recorda Sergey Pozdnyakov, diretor geral e designer principal da R&D PE Zvedza, acrescentando que o fato usado por Leonov “era mais flexível” que os atuais, que apresentam um torso sólido metálico.

O modelo mais recente, cujo novo protótipo está ainda em testes, integra, por exemplo, um sistema que pode regular a temperatura interna do fato de forma automática. “É como uma concha que envolve a pessoa e que lhe permite viver”, explica-nos Sergey Pozdnyakov, acrescentando que este novo fato “permite, a quem o usa, mover-se no espaço”: “Em resumo, é uma nave espacial em miniatura com braços e pernas, e no qual temos liberdade de movimentos.”

Entre os perigos inerentes aos EVA está a própria gravidade zero, que dificulta a maneabilidade humana e, além disso, “rouba” muitas vezes aos astronautas as ferramentas de serviço. E existem ainda os micro meteoritos e os detritos que vagueiam pelo espaço, que, caso atinjam os fatos espaciais, podem provocar danos e obrigar mesmo a abortar as missões e ao regresso imediato ao interior da cápsula.

O espaço. Um mundo silencioso. Todo um universo por descobrir. A última fronteira está 350 quilómetros acima do planeta Terra. Para já, o Homem “caminha” sobre ela, ou melhor, flutua. Apenas por uma vez a ultrapassámos, um homem caminhou sobre a superfície da Lua e voltou para contar. Foi o norte-americano Neil Armstrong, a 20 julho de 1969. A EEI continua em busca das condições para repetir o feito. Por enquanto, vai formando astronautas para uma e outra vez voltarem a pisar a última fronteira.

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