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Pascal Boniface: "Repressão levará a uma regressão no Egipto"

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Pascal Boniface: "Repressão levará a uma regressão no Egipto"

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O futuro próximo no Egipto foi o tema da entrevista da Euronews com Pascale Boniface, director do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas, em Paris.

euronews: “Parece que não há margem de negociação para uma reconciliação. Um eventual regresso dos islamistas à clandestinidade poderá significar um novo período negro como o dos anos noventa?

Pascal Boniface: “É de facto um retrocesso. É expectável que uma parte, mesmo ínfima, da Irmandade Muçulmana regresse à clandestinidade. Estamos de facto a regressar à era Mubarak sem Mubarak. É claro que a Irmandade Muçulmana vai perder a possibilidade de se expressar politicamente. E cada vez que isso acontece, há uma fação que se radicaliza. Tudo isso acontece no momento em que ela começava a fazer parte do jogo político pelas urnas e em que podia ser combatida nas urnas. Ela estava a ser posta em causa e as pessoas começavam a ver as limitações do programa político dela porque é claro que a Irmandade Muçulmana falhou do ponto de vista social e económico… Penso que o golpe e a repressão, sobretudo a repressão sangrenta vão levar a uma regressão do Egipto”.

euronews: “Será que a comunidade internacional, os Estados Unidos e a Europa cometeram erros após o golpe de Estado de Julho?”

Pascal Boniface: “Não. A Europa podia ter feito uma operação diplomática excelente graças a uma mediação que quase funcionou. Houve, é claro, uma crispação da parte da Irmandade Muçulmana e uma recusa das Forças Armadas que optou pela força em vez de uma solução negociada. Mas a Europa esteve muito perto de conseguir algo e teria sido um grande sucesso para a diplomacia europeia… um sucesso há muito esperado…Por outro lado, face à dimensão dos massacres, pode dizer-se que as reações foram relativamente moderadas. Houve quem condenasse mas enfim….se tivesse havido uma repressão armada semelhante em Cuba, na Rússia ou na China, as reações tanto mediáticas como políticas do Ocidente teriam sido mais vigorosas. Revela-se aqui, mais uma vez, o conceito, talvez falso, de uma situação em que os interesses geopolíticos se sobrepõem aos princípios.”

euronews: “Há um conflito diplomático entre os vários atores regionais, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos por um lado, e o Qatar e a Turquia por outro. O Ocidente pode perder influência no Egipto?”

Pascal Boniface: “O Ocidente perderá influência se não respeitar os seus princípios. É preciso observar os acontecimentos no longo prazo. Qual será a credibilidade da Europa se a Europa mudar de opinião em função dos protagonistas? Há de facto uma luta entre o Qatar e a Turquia por um lado e os Emirados e a Rússia por outro. E há outros sítios no mundo onde há oposição entre forças contraditórias que tentam defender os seus interesses ou a concepção quem têm dos seus interesses. Mas nós, enquanto europeus, não temos de nos guiar por isso. Não podemos ao mesmo tempo defender a democracia e não protestar contra um golpe de Estado. Não podemos dizer que os direitos humanos são o epicentro da política europeia e ao mesmo tempo fingir que não se passou nada quando houve várias centenas de mortos”.