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G20: Crónica de um confronto anunciado

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G20: Crónica de um confronto anunciado

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Cinco anos depois da criação do G20, na sequência da crise financeira de 2008, São Petersburgo recebe uma cimeira com uma agenda carregada de temas económicos mas marcada pela crise na Síria. Um conflito que aprofundou o fosso que separa os Estados Unidos e a Rússia, que se mantém fiel à aliança com Bashar al-Assad e a faz sentir no Conselho de Segurança da ONU graças ao seu direito de veto. O caso Snowden veio agravar a tensão entre Moscovo e Washington. Barack Obama anulou a cimeira bilateral que tinha agendada com Vladimir Putin em Moscovo, antes da reunião do G20.

Esta quarta-feira, o presidente russo disse que o cancelamento do encontro com o homólogo americano não era uma catástrofe e negou ter uma má relação pessoal com Barack Obama:

“O presidente Obama não foi eleito pelo povo americano com o propósito de ser agradável com a Rússia. E este vosso humilde servidor não foi eleito pelo povo da Rússia para ser agradável com quem quer que seja. Nós trabalhamos, nós discutimos alguns assuntos, somos humanos e por vezes um de nós é vexado. Mas, gostaria de o repetir mais uma vez, os interesses globais mútuos formam uma boa base de trabalho para tomarmos decisões em conjunto.”

A Síria já tinha estragado o ambiente da última reunião do G8, em junho, na Irlanda do Norte. O apoio do Hezbollah ao regime sírio levou Washington a anunciar o auxílio aos rebeldes. Depois de duas horas de reunião, a tensão entre Obama e Putin era palpável quando surgiram diante dos jornalistas, aos quais não esconderam o seu desentendimento.

Um desentendimento que afinal data do primeiro mandato de Barack Obama. A então secretária de Estado, Hillary Clinton, ofereceu um botão vermelho ao homólogo, Sergei Lavrov, que deveria simbolizar o relançar das relações entre os dois países. Nele deveria estar escrito, em russo, a palavra “Reset”. Mas faltava uma sílaba pelo que a palavra escrita era… “Sobrecarga”!

Andrei Belkevich, euronews:

A reunião do G20 em São Petersburgo deveria ser precedida por uma cimeira russo-americana em Moscovo. Esperávamos que Barack Obama se deslocasse à capital russa para discutir com Vladimir Putin os problemas de segurança mundial, a crise no Médio Oriente e outras questões sensíveis entre Moscovo e Washington. Mas o presidente americano anulou a visita a Moscovo depois da Rússia ter aceite o pedido de asilo de Edward Snowden, o antigo colaborador dos serviços de espionagem americanos. O nosso convidado é Fiodor Lukianov, redator-chefe da revista “A Rússia na Política Global”.

A maioria dos analistas é da opinião que o caso Snowden não é a razão do cancelamento da visita de Obama a Moscovo, mas sim um pretexto. Qual é a verdadeira razão?

Fiodor Lukianov:

Se o caso Snowden não existisse Obama teria vindo a Moscovo, mas o verdadeiro problema ter-se-ia tornado visível: é que Putin e Obama não têm nenhum assunto para debater com seriedade. É claro que existem problemas para resolver, crises, e em particular a crise atual no Médio Oriente. Mas trata-se de rotina política apesar dessas crises serem intensas e graves. Contudo, se olharmos para as questões que estiveram sempre no fundamento das relações bilaterais, temas estratégicos como a redução de armas ofensivas, estas questões já não estão em cima da mesa porque a Rússia não quer falar delas, uma vez que está satisfeita com a situação atual. As conversas em torno da democracia, dos direitos humanos, que estiveram sempre na ordem do dia mesmo na época soviética, não fazem sentido porque ambos têm posições radicalmente diferentes. E se se olhar para o conjunto do programa comum, ele está praticamente esgotado.

Andrei Belkevich , euronews

O senhor afirma que já não existe um programa comum entre a Rússia e os Estados Unidos. Provavelmente a situação não vai mudar num futuro próximo, mas será isso assim tão mau? Agora será possível construir uma relação sem demasiados dramas, de forma desapaixonada, sem ofensas, passo a passo de forma a resolver os problemas rotineiros?

Fiodor Lukianov:

Seria possível agir dessa forma se o mundo inteiro estivesse calmo, fosse previsível e controlável. Assim seria possível fazer uma pausa para abordar serenamente as questões técnicas e esperar o bom momento para uma nova conversa sobre os problemas de fundo. Mas nós vivemos num planeta em que todos os dias acontece alguma coisa que transforma a nossa conceção do mundo. O que ontem parecia evidente, hoje parece-nos incorreto. Numa situação destas uma pausa tranquila entre Moscovo e Washington, infelizmente, não será possível. E isto, por exemplo, vemo-lo agora, claramente, no Médio Oriente.

Andrei Belkevich, euronews:

Na próxima cimeira do G20 será possível recuar um pouco para fazer baixar o tom das acusações entre Moscovo e Washington ou, pelo contrário, a situação irá piorar?

Fiodor Lukianov:

Penso que o principal problema das relações russo-americanas não será atenuado de forma alguma em São Petersburgo. Este problema não tem nada a ver com o tom das acusações. Neste momento testemunhamos uma alienação progressiva e muito estável entre a Rússia e os Estados Unidos. Temos dois adversários nos cantos opostos de um ringue de boxe, mas eles não querem combater e nem sequer pensam que o combate, nem o debate, sejam necessários. Eu receio que isso não vá mudar em São Petersburgo, nem num futuro próximo. Na Rússia, cada vez mais, se ouve dizer que os Estados Unidos são um país que transforma os problemas menores, os problemas locais que se podem tratar a um nível regional, em problemas mundiais, como se fosse a única forma dos americanos chamarem a atenção do mundo para os ter em consideração.