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Poder económico da 'Ndrangheta põe em risco a democracia e liberdade de imprensa

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Poder económico da 'Ndrangheta põe em risco a democracia e liberdade de imprensa

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A Mafia é uma ameaça para toda a Europa, e não só para alguns países. A votação de quarta-feira, no Parlamento Europeu, em Estrasburgo, estabelece a necessidade de contraste, como exigido no relatório da Comissão Europeia antimafia.
A ‘Ndrangheta é uma das mafias mais poderosas do mundo e a sua riqueza é, neste momento, uma grave ameaça para a democracia. Depois de uma breve análise, falamos com o maior especialista nesta área, o procurador-adjunto Nicola Gratteri, em Reggio Calabria.

Os assassinatos de Duisburgo, na Alemanha, a 15 de agosto de 2007, não só evidenciaram a violência da ‘Ndrangheta, como também deixaram a descoberto a implantação do crime organizado calabrês fora das fronteiras italianas.

Perto de uma pizzaria desta cidade alemã, seis italianos foram abatidos num ajuste de contas entre clãs de San Luca, os Pelle-Votari e os Nirta-Strangio.

Para gerir a investigação, criou-se uma unidade especial italo-alemã, que conseguiu prender, em San Luca, os assassinos e os cúmplices.

Subestimada e considerada, durante muito tempo, uma organização rural, muito menos importante do que a Mafia siciliana, a ‘Ndrangheta ou “Onorata Società” fortaleceu-se e passou a ser uma ameaça global.

Da Calabria original, no sul de Itália, conseguiu estender os tentáculos a outros países, aproveitando-se das comunidades de italianos emigrantes para criar bases no estrangeiro.

Atualmente, a ‘Ndrangheta opera na Europa, na Alemanha, na Espanha, na Holanda, na França, na Bélgica e na Suíça. Também chegou ao Canadá, aos Estados Unidos e à Colômbia, tendo ainda ramificações na Austrália.

Numa das operações anti-droga descobriu-se o seu alcance e potencial. Realizada simultaneamente, em setembro de 2008, na Itália, nos Estados Unidos e na América Latina, saldou-se em 200 detenções e a apreensão de 57 milhões de dólares e mais de 16 toneladas de cocaína.

O narcotráfico é o seu principal negócio. Especialmente o de cocaína.

Dos 44 mil milhões de euros que a ‘Ndrangheta encaixa anualmente, 62% é produto da venda de cocaína.

Mas a ‘Ndrangheta também acedeu à economia legal. Um dos setores em que está presente é o da gestão de resíduos, que oferece importantes lucros com baixo risco. A organização tem uma enorme capacidade para corromper e beneficiar de fundos públicos.

Também investe no setor imobiliário, útil para a lavagem de dinheiro. No entanto, a este nível as autoridades podem recorrer à confiscação de bens, o que se está a tornar menos atraente.

Nicola Gratteri, procurador-adjunto em Reggio di Calabria, e o maior especialista em ‘Ndrangheta, alerta para o perigo que representa esta organiza4ão para a democracia em geral.

Michela Monti – O senhor vive na Calábria sob escolta, desde 1989, e dedicou a vida a esta luta, porquê? Nicola Gratteri – Quando eu era pequeno, quando andava na escola e apanhava boleia, várias vezes vi mortos caídos por terra, havia cenas de muita violência em frente da escola. Eu respirei aquele odor pestilento e a tristesa dos mafiosos da ‘Ndrangheta.

euronews – Como se pode explicar o que é a quem ignora?

NG – Atualmente é muito mais difícil lutar contra o crime organizado, porque os mafiosos lograram chegar aos altos cargos públicos, ao mundo dos negócios, a toda a economia. Quando os meus colegas dizem que estamos a derrotar a Mafia, que a Mafia está com problemas, eu peço-lhes para se calarem, para o feitiço não se virar contra o feiticeiro.

euronews – A ‘Ndrangheta controla o tráfico de cocaína na Europa. Pode quantificar-se o seu poder económico?

NG – Hoje, adquire-se cocaína com uma pureza de 98% na Colômbia ou na Bolívia, a 1000 euros o quilo, e depois corta-se até obter uns quatro quilos e meio, para se venderem nas ruas de Europa a 50 euros por grama. Não há nenhuma atividade, lícita ou ilícita, que seja mais rentável.

Depois, todo esse dinheiro é investido desde Roma até à zona mais rica da Europa, na Alemanha, na Bélgica, na Holanda, especialmente no setor imobiliário.

Quando, em qualquer rua de Europa, a ‘Ndrangheta compra um hotel, um restaurante, uma pizzaria, a organização zela para não acontecer nada nessa rua, por duas razões: para não suscitar a curiosidade da polícia e, porque se algo ocorrer, o bem pode desvalorizar.

Por isso a opinião pública não sabe nada, vê apenas que é uma rua ou uma cidade tranquila e que tudo corre bem, mas não é verdade.

euronews – Porque acha que a lavagem de dinheiro é uma ameaça para a democracia?

NG – E se essa gente, que já está a comprar no setor imobiliário e a investir no setor serviços, começa também a comprar, ou já tem, jornais e canais de televisão?

É óbvio que esses meios de comunicação podem influir no modo de pensar, na cultura ou na ideologia das pessoas. Pode haver manipulação mafiosa sem que o público se dê conta.

Por exemplo, sobre a especulação imobiliária, podem bombardear a população com mensagens que sirvam os seus interesses, mesmo através de uma televisão local ou um jornal. Este é o tipo de manipulação da informação que a Mafia faz.