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O "limbo" de Snowden é o purgatório das relações internacionais

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O "limbo" de Snowden é o purgatório das relações internacionais

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Um traidor para a maioria dos americanos e um herói para a maior parte dos russos.

Quatro meses após as primeiras revelações sobre o escândalo de espionagem dos serviços secretos norte-americanos, Edward Snowden divide a opinião pública de cada lado da antiga cortina de ferro, depois de Moscovo ter aceite conceder-lhe um refúgio temporário.

Se Washington continua a exigir a captura do denunciante, as informações que revela a conta-gotas tornaram-no num homem quase intocável, apesar do limbo legal em que se encontra.

A sua presença em Moscovo estava, até hoje, oficialmente condicionada ao silêncio, mas o The Guardian, o primeiro jornal a publicar as fugas de informação, realizou esta semana uma nova revelação: a Agência Nacional de Segurança (NSA) dos EUA teria colocado os telefones de 35 líderes mundiais sob escuta.

O documento, datado de 2006, não refere nomes, mas detalha a forma como a NSA norte-americana teria incitado vários responsáveis da administração a partilhar os seus contactos telefónicos com a agência. Um alto responsável teria fornecido mais de 200 números de telefone da sua agenda pessoal.

Um escândalo da era Bush que afeta agora a nova era da política antiterrorista norte-americana iniciada por Obama, quando tenta encerrar os dossiês da guerra do Afeganistão e da prisão de Guantanamo.

Entre os números espiados, estaria o telefone pessoal da chanceler alemã Angela Merkel. A diplomacia norte-americana, assolada já pelas queixas de vários países da América Latina, como o Brasil e o México, vê agora as revelações abalarem um dos seus principais aliados, a Europa.

Espanha, Itália, França e Berlim pedem explicações, mas ao mesmo tempo, tentam relativizar o impacto das informações com o anúncio, feito por Paris e Berlim, do reforço da colaboração dos serviços secretos nacionais com Washington.

Os Estados Unidos que não confirmam nem desmentem as acusações, ripostaram ontem, lembrando que, entre as dezenas de milhares de documentos na posse de Snowden, encontram-se também informações partilhadas com os aliados sobre a China, Irão e Rússia.

Uma forma de conter a fuga de informação que, entre o apoio de Moscovo e o repúdio de Washington, volta a mostrar como o limbo de Snowden se transforma num novo purgatório para as relações diplomáticas internacionais, depois das revelações do sítio Wikileaks.

Para analisar as consequências do escândalo das escutas nas relações transatlânticas, ouvimos Annette Heuser, em Washington. Diretora executiva da Fundação Bertelsmann, Heuser é especialista em Direito, Ciência Política e Sociologia.

Annette Heuser:

“A questão, agora, já não é a do telefone da chanceler ter sido posto sob escuta ou não… ou se o governo alemão foi espiado. O que é preciso deixar claro é se este tipo de conduta se tolera entre supostos amigos e aliados. E a resposta é: não. Contundentemente, não. A administração de Obama aflorou o tema candidamente, prometendo que não voltaria a fazê-lo, o que não é suficiente. Estamos a assistir ao começo de um tsunami diplomático que, sem dúvida, vai influir, durante algum tempo, na política exterior europeia e nas relações transatlânticas.

Apesar da “obamamania” desencadeada na Europa, depois da eleição do primeiro presidente negro dos Estados Unidos, as relações entre os dois lados do Atlântico avançaram pouco nos últimos anos. De facto, a prioridade de Washington não é a Europa, mas a Ásia.

Annette Heuser:

“Acho que nos Estados Unidos, nomeadamente na administração Obama, ninguém toma a sério a Europa. Aliás, a tendência até é retirar importância aos escândalos e aos problemas que possam surgir com os europeus, o que é um erro. A administração Obama é a que menos atenção prestou aos parceiros transatlânticos, desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Não entende os europeus, o que é um problema. Até agora, havia uma sólida confiança entre os europeus e os norte-americanos, principalmente entre os alemães e os norte-americanos. Mas este escândalo está a corroer essa confiança, como se não fosse uma parte essencial das relações entre ambas as potências”.

Em junho de 2011, o presidente Obama honrou a chanceler alemã, como jamais tinha sido feito relativamente a um dirigente europeu, ao convidar Merkel para um jantar de Estado na Casa Branca. Foi uma manobra política para ultrapassar os desentendimentos do passado, entre Bush e Schroeder.

Annette Heuser:

“Acho que o escândalo da espionagem terá consequências graves para o futuro das relações transatlânticas. Até agora sempre dissemos que o pior momento das relações, especialmente entre a Alemanha e os Estados Unidos, aconteceu durante a guerra do Iraque, em 2003, o facto de invadir militarmente aquele país. O governo alemão da época, liderado por Gerhard Shroeder, opôs-se à intervenção armada. Mas tratava-se meramente de uma questão de estratégia militar. A fratura atual é bem mais profunda, porque estamos a falar de quebra de confiança mútua. A confiança está a evaporar-se e só dentro de algumas décadas poderá ser reconstruída.”

“Yes we scan”, criticaram os berlinenses nos cartazes para mostrar o ressentimento com Obama durante a visita que fez em junho. Nessa altura, Merkel reagiu com complacência.
A ex-RDA teve uma história de “Big Brother” tão pesada, que os alemães ficaram traumatizados. Mas a UE só deve apresentar conclusões sobre a espionagem na Cimeira do Verão de 2014.

Annette Heuser:

“Acredito que, no futuro, vamos assistir a um maior debate sobre o grau de cooperação dos nossos serviços secretos com as agências de informação norte-americanas. Há que delinear bem o papel dos serviços secretos europeus e alemães e redefinir-se os limites das operações de espionagem, para não chocarem com as liberdades e garantias dos cidadãos”.