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Victor Ponta e a integração cigana

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Victor Ponta e a integração cigana

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Décadas depois da queda do comunismo, a Roménia ainda luta para voltar a erguer-se. A entrevista com o primeiro-ministro do país em Global Conversation.

Isabelle Kumar, euronews: Bem-vindos a Global Conversation com a Roménia no centro das atenções. Um país que parece estar muitas vezes nas manchetes pelas razões erradas, mas esta imagem que passa para o exterior é justificada? Junta-se a mim na discussão o primeiro-ministro da Roménia, Victor Ponta. Muito obrigada por estar connosco em Global Conversation.

Victor Ponta: Muito obrigado e bem-vindos a Bucareste.

euronews: Tendo em conta esta questão da má imagem, acha que é justificada?

Victor Ponta: Depende, a Roménia foi um dos antigos países comunistas que sofreram com uma ditadura muito dura até 89, tivemos uma revolução muito sangrenta, as pessoas morreram aqui pela liberdade, pela democracia. Juntamente com a Bulgária fomos os últimos a aderir à União Europeia, agora é a Croácia e espero que o alargamento continue. Foi uma transição difícil do comunismo para a democracia europeia moderna, orientada para o mercado. Diria que, não só enquanto primeiro-ministro, mas enquanto romeno, estou bastante otimista, por termos ultrapassado a crise económica, social e política, que começou em 2009 e por sermos um dos países europeus com maior crescimento.

euronews: Acolheu a Cimeira da China e da Europa de Leste, parece ser a pessoa elegida pela China, como vê a influência da China nesta parte do mundo?

Victor Ponta: Antes de mais, estou absolutamente convencido que uma Europa forte e unida é o parceiro que a China precisa. Não precisam de diferentes países com diferentes interesses. É por isso que os nossos objetivos são que a Europa seja mais unida, mais próspera, para que acabem os anos difíceis da crise financeira e económica e que seja novamente um forte elemento no campo político e económico.

euronews: Curiosamente um diplomata europeu disse que dividir para reinar faz parte da estratégia da China. Qual a sua reação?

Victor Ponta: Acho que é uma interpretação errada. A China está a investir na Europa, a comprar títulos europeus, mas também investe em infraestruturas, em projetos económicos e esta é uma situação que só traz vantagens. Vai ajudar a União Europeia como um todo, para que os novos membros tenham um desenvolvimento económico mais rápido e uma infraestrutura que vai ajudar a colmatar a lacuna que existe em relação aos países da Europa Ocidental.

euronews: Está consciente das reações que a Roménia enfrenta, particularmente na Grã-Bretanha, mas também na Alemanha e em França, sobre o levantamento de todas as restrições de trabalho, para os romenos que trabalham na UE a 1 de janeiro, ouvem-se palavras como “influxo” e “dilúvio” de romenos em direção a países como a Grã-Bretanha, é isso que esperam?

Victor Ponta: Não, não todos, mas a liberdade de circulação é um dos pilares fundamentais da União Europeia. Não podemos mudar estes pilares básicos porque, caso contrário toda a construção vai falhar. E, por muito que os britânicos possam entrar na Roménia a investir dinheiro, como fazem e são bem-vindos, para vender bens, fazer negócios, como turistas, ou parceiros políticos, não pode haver só um sentido.

euronews: Então, não acredita que esta afluência vá acontecer?

Victor Ponta: Não, e explico porquê. Agora na Roménia existe desenvolvimento económico, temos uma menor taxa de desemprego em relação à média europeia e muitas oportunidades, diria até melhores oportunidades do que os membros ocidentais da União Europeia. E as pessoas que queriam ir para o estrangeiro já lá estão e não vai haver uma mudança significativa neste aspeto.

euronews: Como reage à abordagem do primeiro-ministro britânico em relação à emigração romena…Ao corte de benefícios?

Victor Ponta: Diria, talvez para sua surpresa, que li com muita atenção o que Cameron disse e concordo. Primeiro, reiterou que a 1 de janeiro ia respeitar a data estabelecida por toda a União Europeia. Em segundo lugar, junto-me a ele e também à chanceler alemã, ou qualquer outro primeiro-ministro no interesse de todos os europeus, incluindo romenos e búlgaros, na luta contra pessoas que abusivamente usam o sistema de proteção social. Vou sempre lutar pelo direito de romenos honestos, trabalhadores, irem para o Reino Unido, França ou Alemanha, para uma vida melhor, melhor emprego, pagando impostos e sendo uma parte ativa da sociedade…

euronews: O comissário europeu Lazlo Andor reagiu dizendo que a Grã-Bretanha se estava a comportar com histeria. Discorda?

Victor Ponta: Diria que devemos ser mais razoáveis na luta contra situações complicadas. Consigo entender a pressão sobre os governos para tomarem, por vezes, posições populistas é por isso que disse, que os principais partidos são tentados a optarem pela abordagem populista, para expulsarem os estrangeiros ou fecharem as fronteiras. Perdem sempre. Ainda tenho em mente o exemplo do ex-presidente francês Sarkozy. Usou muito isso e perdeu as eleições. Acho que os únicos partidos e movimentos políticos a lucrar com esta nova abordagem nacionalista e anti-estrangeiros vão ser apenas os movimentos anti-europeus.

euronews: Sabemos talvez como os britânicos, os franceses e os alemães veem os romenos, e o outro lado?

Victor Ponta: Diria que o nosso sentimento não é de todo negativo, é bastante positivo, porque era adolescente na época comunista e para nós a Europa sempre foi o sonho, sempre foi o tipo de sociedade que gostaríamos de construir aqui na Roménia.

euronews: Aceita… Diria que a maior parte das pessoas aceita a crítica…

Victor Ponta: Não acho que responder com a mesma raiva seja a resposta certa. A resposta mais inteligente que ouvi na Roménia foi a promovida pelos meios de comunicação, que convidaram os representantes mais importantes de diferentes partes da sociedade britânica a visitar a Roménia e desde que vieram aqui mudaram de opinião. Existe muito preconceito e pré-julgamentos e acredito que a Europa tem um importante objetivo, o de fazer com que as pessoas se conheçam e que não vivam baseadas no preconceito.

euronews: Se voltarmos a esta questão da imagem. Existe uma grande minoria cigana. Isso é frequentemente citado como uma das razões pela qual os romenos têm uma má imagem no estrangeiro. Qual a sua posição?

Victor Ponta: Há uma importante minoria cigana em toda a Europa Oriental, não só na Roménia. A semelhança entre romenos e ciganos
facilita a ligação feita pelos media. Mas existem comunidades importantes na Bulgária, Hungria, Eslováquia e na Sérvia. Acho que este é um grande desafio, não só para este país, mas para a Europa como um todo. São cidadãos europeus, precisam de programas especiais para uma melhor integração e como disse em Londres ou em França, a solução a longo prazo é integrá-los melhor nos seus países. Se simplesmente dissermos que os colocamos num avião da Roménia para a Bulgária ou para França, esta é uma solução a curto prazo, que é tomada apenas alguns meses antes das eleições e nada é resolvido a longo prazo.

euronews: Se olha a longo prazo, a Amnistia Internacional é muito crítica sobre a forma como o seu governo se tem comportado em relação à minoria cigana, dizendo que há muitas vezes despejos forçados e que o governo não reagiu contra isso. Os ciganos dizem que as condições são tão más no país, que não têm outra escolha a não ser sair.

Victor Ponta: Para ser muito honesto, acho que são relatórios antigos…

euronews: São relatórios atuais…

Victor Ponta: Amnistia International?

euronews: Sim.

Victor Ponta: Diria mais uma vez que é muito mais fácil criticar do que a trabalhar em conjunto, estamos muito abertos, mudámos muito, não só a legislação, mas colocamos muitos romenos e fundos europeus em programas. Temos instituições a cuidar da implementação da estratégia. É claro que ainda há muito a fazer e trabalhar em conjunto faz com que tenhamos mais sucesso.

euronews: Outra questão fraturante para a Roménia é a da corrupção. Ao falar com a Transparência Internacional com sede na Roménia eles disseram que o problema é tão endémico, que mesmo com a melhor boa vontade do mundo é praticamente impossível de inverter…

Victor Ponta: Se identificarmos a raíz do problema o que vai a Transparência Internacional fazer? A realidade é esta: há muitas coisas antigas, que são muito mais fáceis de repetir pelos media públicos europeus porque são mais fáceis de apresentar…

euronews: São mitos desagradáveis​​, mas para a Transparência Internacional são a quarta nação com pior desempenho…

Victor Ponta: Na Europa?

euronews: Na Europa, sim. Na UE. Por isso, é um problema real.

Victor Ponta: Diria que a Roménia tem implementado, desde 2007, todas as novas instituições, os regulamentos que a Comissão Europeia nos ajudou a fazer. Os resultados têm sido impressionantes, porque muitos políticos e funcionários públicos foram sancionadas por corrupção. Temos uma grande quantidade de casos, temos instituições independentes que são muito elogiadas em todos os relatórios. Então, diria que não há mais ou menos corrupção do que a média europeia e devemos lutar contra isso e tornar tudo mais transparente.

euronews: Não mais do que a media europeia, mas se prosseguir um pouco mais com esta questão, três membros do seu gabinete, e isso é bastante invulgar, estiveram sob investigação judicial por corrupção, o ministro dos Transportes, o ministro do comércio e da indústria e o seu vice-primeiro-ministro. Dois deles pediram demissão devido à corrupção, mas o seu vice-primeiro-ministro não. Há um problema de credibilidade.

Victor Ponta: Não, porque, mais uma vez, nenhum deles foi investigado por corrupção na função pública. Como disse, as instituições de combate à corrupção foram muito ativas. Investigaram quase toda a gente e eu acho que isso é bom. São órgãos independentes. Mas não houve nenhuma acusação de corrupção desde que assumi o cargo há um ano e meio, acho que ser mais transparente e permitir que todas as instituições sejam independentes é a resposta certa.

euronews: Os denunciantes estão protegidos?

Victor Ponta: De acordo com a nossa legislação…

euronews: Na realidade…

Victor Ponta: Mesmo na realidade, é claro. Devido a todas as instituições que foram negociadas com a União Europeia. Foram impelementadas na legislação.

euronews: Um dos problemas da corrupção para si tem sido o acesso a fundos comunitários. Há dezenas de milhares de milhões de euros a que pode aceder e isso tem sido difícil para si e é algo que tem vindo a trabalhar no seu governo, quando chegou, a Roménia era o pior país no acesso a estes fundos…

Victor Ponta: Agora somos os melhores no acesso aos fundos da UE. Tínhamos, em 2012, todos os programas operacionais suspensos pela Comissão Europeia. Agora estão todos operacionais. E este é um dos melhores resultados que conseguimos num ano e meio, desbloquear todos os programas operacionais, absorver mais de três mil milhões e ter todos os programas operacionais. Estou muito satisfeito com a forma como temos trabalhado com a Comissão Europeia.

euronews: Está muito interessado em aderir ao espaço Schengen. Mais uma vez volto a esta questão da corrupção. É apenas um problema persistente para si? Porque embora tecnicamente deva conseguir aderir à zona Schengen alguns países europeus estão a resistir. Como reage a isso e qual é a data de adesão?

Victor Ponta: Não existem prazos para nós, porque eu diria e não quero ofender ninguém, isto é apenas um pretexto por razões de política interna – o facto que a Roménia e a Bulgária devem esperar e não entrar no espaço Schengen. Temos fronteiras mais seguras, isto de acordo com a Comissão Europeia e com todas as análises técnicas. Conseguimos proteger as fronteiras da União Europeia e cumprimos os critérios que a União aplica a todos. Quando se trata de uma decisão final há sempre uma eleição interna, num dos países e existe sempre motivação para adiar.

euronews: Falou sobre as eleições europeias, com essas eleições em breve, teme uma reação? Acha que pode arrastar o problema de Schengen ainda mais?

Victor Ponta: Não tenho medo de não estar em Schengen. Mais cedo ou mais tarde estaremos, porque estamos de acordo com todos os regulamentos Europeus. Preocupa-me ver que no próximo Parlamento Europeu, talvez os representantes das ideias anti-europeias, os princípios anti-europeus, os populistas, os extremistas, talvez vão aumentar em número. Devemos lutar pelos valores europeus. Se tivermos a mesma abordagem que os anti-europeus, simplesmente vamos perder e eles vão ficar a ganhar. Acho que a Europa devia estar mais unida, mais integrada, com melhor coordenação interna, mas também externa e não se deve pôr em causa os fundamentos da construção europeia, por ganhos eleitorais a curto prazo.

euronews: Falou sobre a sua economia, a Roménia viu o melhor crescimento na União Europeia. Mencionou que gostaria de aderir à zona euro…

Victor Ponta:Para a Roménia é uma decisão política clara que, ao contrário do Reino Unido ou de outros países, queremos aderir à zona euro. Mas isso não deve acontecer em breve, porque, antes precisamos de ter uma economia forte. A zona euro não precisa de outra economia fraca. Temos que ser fortes, competitivos, de acrescentar algo à zona euro, para não adicionar outro problema. Em segundo lugar e estou otimista neste sentido, a zona euro vai implementar todas as reformas com base na má experiência do passado, para evitar novas crises, como já vimos.

euronews: Pretende aderir ao euro quando a Europa tiver a casa em ordem?

Victor Ponta: Sim, diria que 2018 seria uma data realista e estou a seguir atentamente o exemplo da Polónia. A Roménia observa muito a Polónia. Temos países e economias de tamanho médio e acho que a forma como a Polónia se está a preparar é um bom exemplo para a Roménia também.

euronews: É conhecido como piloto de rali…

Victor Ponta: Era, sim.

euronews: Teve uma estrada bastante rápida e atribulada no primeiro ano de mandato. O rali ajudou-o a preparar-se para ser primeiro-ministro?

Victor Ponta: É verdade que é um dos meus hobbies e sinto falta dele desde que sou primeiro-ministro. Na verdade, eu não era um piloto de rali muito bom, era um bom copiloto. Isso significa que um país precisa de parceiros para o desenvolvimento. Sou calmo. Eu sei que ser rápido é importante mas ser seguro é ainda mais importante. Então, espero que a Europa recupere rapidamente, mas que também crie uma base sólida para o crescimento futuro e para ser novamente o elemento forte e global que o mundo precisa.