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Cavaco defende-se em vésperas do Dia de Oração por Mandela

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Cavaco defende-se em vésperas do Dia de Oração por Mandela

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Cumpre-se a terceira noite de vigília na África do Sul, em memória de Nelson Mandela. Este domingo, entretanto, o país une-se naquele que poderá ser visto como o dia do primeiro evento oficial das cerimónias fúnebres do antigo presidente, que morreu quinta-feira à noite em Joanesburgo após luta inglória contra uma doença pulmonar prolongada. No programa preparado e anunciado sexta-feira pelo Governo sul-africano, este 8 de dezembro foi decretado como Dia Nacional de Oração e Reflexão pelo popular Madiba.

O presidente Jacob Zuma apelou a todas as pessoas, em todas as igrejas, mesquitas, templos ou sinagogas, para que parassem um pouco e, em memória do herói da democracia na África do Sul, fizessem uma oração e uma reflexão sobre a vida e a contribuição do Nobel da Paz de 1993, não só em relação ao próprio país, mas pela mensagem que espalhou por todo o Mundo.

Cavaco Silva, por sua vez, aproveitou este sábado para se defender dos ataques de quem tem vindo a ser alvo, em especial nas redes sociais, por ter feito parte, então como primeiro-ministro de Portugal, da decisão de votar contra na ONU, em 1987, pela então libertação incondicional de Nelson Mandela. “O nosso embaixador seguiu aquilo que era a prática portuguesa: recusar a luta armada, tendo presentes os 400 mil portugueses que estavam na África do Sul, a guerra civil em Angola, a guerra civil em Moçambique e o que seria o incendiar de guerras por toda a África Austral”, afirmou o Presidente da República, em Viseu.

O chefe de Estado, que vai representar Portugal nas cerimónias fúnebres de Mandela, aproveitou ainda para criticar aqueles que “falam de cátedra, mas que nunca conheceram Mandela”. “Alguns nunca mexeram uma palha para tentar mudar a situação da África do sul”, acusou, lembrando uma carta que terá feito chegar, via durão Barroso, ao então presidente sul-africano, à qual Pieter Botha terá reagido “muito mal”, criando, recordou ainda Cavaco Silva, “uma certa tensão entre os dois governos”. “Não foi nada simpática a sua resposta”, acrescentou.

Um ano depois da votação na ONU, em 1988, Cavaco recebeu a visita em Portugal do presidente sul-africano e, garantiu, teve com ele uma reunião que “correu muito mal”. “Precisamente, porque Portugal insistia muito na libertação de Mandela e de outros presos”, recordou.

Família Mandela reage
Este sábado marcou também a primeira comunicação pública da família de Mandela. Surgiu através através de um porta-voz, o general Themba Matanzima. “Partiu o pilar da família. Aquele que nos guiava a todos. Mas ele permanecerá para sempre nos nossos corações e nas nossas almas. Para nós, ele era como uma baobá (n.: árvore de grande porte conhecida em Angola e Moçambique como embondeiro). Dava-nos uma sombra reconfortante e garantia-nos segurança e proteção”, disse a família, no comunicado lido pelo porta-voz.

Logo depois da comunicação, um dos netos do antigo presidente deixou-se ver junto do povo, no exterior da última residência de Mandela, a recolher algumas flores. Foi uma das primeiras imagens de um membro da família do Prémio Nobel de 1993 desde que foi conhecida a sua morte na quinta-feira à noite.

Em Joanesburgo, entretanto, o arcebispo emérito anglicano Desmond Tutu voltou a conduzir nova missa em memória do amigo e companheiro de tantas histórias. “Deus, obrigado pelo presente que nos Deste na pessoa de Madiba”, afirmou o igualmente Nobel da Paz, mas de 1984, numa oração onde voltou a levar às lágrimas alguns sul-africanos.

Em Qunu, por fim, na aldeia onde Nelson Mandela confessou ter passado os melhores momentos da sua vida e onde irá ser enterrado no próximo dia 15 de dezembro, foi acesa este sábado uma chama no museu que tem o nome do antigo presidente sul africano.

“A chama simboliza uma multiplicidade de coisas como o caráter de Mandela, o comportamento, a liderança, os seus valores e princípios. Significa também um género de mensagem dele, de que não podemos parar agora só porque ele partiu. Temos de continuar a iluminar esta nação, a fazer as coisas que temos vindo a fazer, a reforçarmo-nos e a motivarmo-nos”, afirmou Nozuko Yokwana, a diretora do Museu Nelson Mandela, em Qunu, no decorrer de uma cerimónia que, à imagem do que tem acontecido por toda a África do sul, terminou com o povo a cantar em memória do primeiro presidente negro do país e um dos maiores símbolos internacionais da liberdade, tolerância e democracia.