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Paz de Qunu perto do fim em nome de Mandela

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Paz de Qunu perto do fim em nome de Mandela

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É um luto silencioso aquele que se sente em Qunu, a aldeia rural onde Mandela viveu parte da infância e onde deseja ser enterrado. Ao contrario da forma efusiva, e até celebratória, que se fazem sentir nas homenagens fúnebres ao primeiro presidente negro da África do sul noutros locais do país, como Joanesburgo, Houghton e sobretudo no Soweto, em Qunu ainda reina a serenidade.

Os semblantes estão carregados. É natural. Algumas pessoas têm depositado flores à porta da casa de Madiba e ainda é normal verem-se rebanhos de animais cruzar de forma tranquila a estrada diante daquela que promete tornar-se nos próximos dias como uma das casas mais vigiadas da África do Sul. A presença policial e militar no local já se faz sentir e deverá vir a ser progressivamente reforçada.

Um ancião de Qunu defende que Mandela “tem de fazer esta (ultima) travessia da melhor forma possível”. “Vamos deixa-lo partir. Ele já trabalhou para nós”, concretizou.

As palavras deste ancião, um dos poucos mais de 200 habitantes de Qunu, refletem o estado de espírito reinante no luto por Mandela que se faz desta aldeia, situada na província do Cabo, numa zona rural do sudeste da África do Sul.

Qunu tem vindo desde há alguns meses a ser alvo de melhoramentos por parte das autoridades sul-africanas. Medidas tomadas em consequência da deterioração da saúde do popular Madiba e do conhecimento do seu derradeiro desejo de ali ser enterrado ao lado da família.

Os acessos para os meios de transporte, por exemplo, são uma das prioridades nestes melhoramentos, em especial o aeroporto mais próximo, em Mthatha, a cerca de 30 quilómetros. Em Qunu existe apenas uma estrada de asfalto e os rebanhos continuam a fazer do centro da aldeia uma das rotas para chegarem às pastagens.

Na aldeia, por enquanto, ainda não se veem celebrações efusivas. Mas tudo deverá mudar nos próximos dias na região onde o popular Madiba foi pastor em criança, começou a frequentar a escola e onde confessou ter vivido os melhores momentos da sua vida. O que o terá levado, inclusive, a construir ali no início dos anos 90 uma moradia, que hoje em dia se distingue bem das humildes habitações dos outros residentes na zona. Seja pelos altos muros que a protegem, pela área que ocupa, pelos dois andares acima do solo ou pelas antenas de satélite.

Foi, aliás, para Qunu que o Nobel da Paz de 1993 e primeiro presidente negro da África do Sul, em 1994, se retirou após deixar a vida política ativa. Natural da aldeia vizinha de Mvezo, Nelson Mandela escolheu Qunu para ser enterrado.

Na aldeia que adotou como sua, Madiba já tem sepultada parte da família, incluindo três filhos. É para junto deles que deixou expresso o desejo de voltar. O funeral está marcado para domingo, 15 de dezembro. Até lá, a serenidade de Qunu ira certamente alterar-se e, quem sabe, talvez nunca mais regresse, devendo tornar-se local de peregrinação para sul-africanos e não só.