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Legado económico de Mandela preocupa África do Sul

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Legado económico de Mandela preocupa África do Sul

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A África do Sul reacendeu-se nos últimos dias, a reboque da morte de Nelson Mandela, como um exemplo de tolerância, liberdade e democracia no Mundo. A realidade do pais, porém, está um pouco longe dessa imagem sublinhada pelo simbolismo daquele que venceu o Nobel da Paz em 93 e um ano depois se tornou no primeiro presidente negro sul-africano.

À beira de completar duas décadas sobre a “morte” do Apartheid, falta à África do Sul um crescimento mais consistente. Em especial, socioeconómico.

Quando Mandela subiu ao poder a 10 de maio de 1994, o PIB sul-africano cresceu acima dos três por cento. O desenvolvimento e a redução das desigualdades entre a população foram, contudo, demasiado lentos nas últimas duas décadas e as previsões de crescimento para este ano são de pouco mais de dois por cento.

A escassez de produção de eletricidade está a prejudicar igualmente o país. A construção de uma nova central elétrica foi adiada para o próximo ano e é vista como chave para o desenvolvimento do país.

As disputas pelo fim das desigualdades no setor do emprego também não têm ajudado a África do Sul. Os “brancos” ainda parecem ser privilegiados, em especial face aos “negros”, com o desemprego a afetar apenas 6,6 por cento dos primeiros contra 28,1 por cento dos segundos.

Os dados foram revelados pelo próprio governo sul-africano, que a poucos meses de comemorar os vinte anos sobre o fim do Apartheid ainda faz, por exemplo, distinção entre “brancos”, “negros” e “mestiços”.

A economia sul-africana cresceu progressivamente, mas, como qualquer outro país, foi também apanhada pela crise de 2008. Daí para cá, as greves têm sido uma constante e tiveram o ponto crítico mais grave no episódio de violência nas minas de Marikana: Em agosto de 2012, após semanas de protesto dos mineiros, a polícia matou a tiro mais de 30 mineiros, num caso que colocou ainda mais pressão para o governo liderado por Jacob Zuma.

Aos dados de desemprego referidos para as diferentes etnias, podemos ainda juntar um outro número decisivo: cerca de 70 por cento dos jovens não têm trabalho na África do Sul.

Estes jovens desempregados, muitos nascidos já depois do fim do Apartheid, os “chamados “Born Free”, já vão poder votar nas eleições de 2014, previstas para algures entre abril e julho. Um desafio para o ANC, o partido no poder, que terá de procurar inverter a tendência de queda nas preferências registada nos últimos atos eleitorais.

A falta de perspetivas de futuro dos jovens que não saberão dar valor ao fim do Apartheid, e por conseguinte feitos de Mandela, e as crescentes críticas ao executivo de Jacob Zuma poderão conduzir a uma reviravolta política no país. A Aliança Democrática, na oposição, está a ganhar terreno e tem nas próprias eleições mais uma oportunidade de convencer os sul-africanos.

Poderá o legado de Mandela estar a chegar ao fim? Como irá reagir a economia sul-africana ao desaparecimento do símbolo maior do país e do ANC? O partido do popular Madiba poderá tentar encontrar um novo símbolo na figura de uma mulher candidata. Mamphela Ramphele, histórica ativista ao lado de Mandela e ex-companheira de Steve Biko está na calha para suceder a Zuma. A “bola” passa para o povo sul-africano.