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Coreia do Norte: e agora?

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Coreia do Norte: e agora?

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O governo norte-coreano anunciou esta sexta-feira a execução do tio do líder Kim Jong Un, classificando-o como traidor.

Jang Song Thaek, de 67 anos de idade, foi em tempos considerado o número dois do regime ocupando uma posição de liderança no ministério da defesa. O tio do atual líder teria sido detido no domingo passado em público, julgado e executado poucos dias depois.

A China já reagiu afirmando esperar que o país alcance agora mais estabilidade. Por seu lado, os Estados Unidos dizem que estão a acompanhar a situação de perto.

Os observadores afirmam que se trata do maior desenvolvimento ocorrido no país desde a morte de Kim Jong-Il, pai do atual líder.

A Euronews entrevistou académico britânico Aidan Foster-Carter que estuda e acompanha os desenvolvimentos no estado norte-coreano há mais de 40 anos.

Euronews: Neste caso, não houve qualquer pré-aviso e o que aconteceu foi descrito como uma ação brutal. Trata-se de uma mensagem brutal aos norte-coreanos, não é verdade ?

Aidan Foster-Carter – Trata-se de facto de uma mensagem extraordinária e de certa forma sem precedentes. É claro que se trata de um regime estalinista. Purgas como esta não são novidade mas normalmente são feitas de forma mais discreta. As pessoas deixam de aparecer e se são idosas então o desaparecimento é justificado por uma doença. O que é incrível neste caso é que se tratou de algo público. Jang Song-thaek é tio por casamento do atual líder e da lista de acusações constam tentativas de golpe militar, informações a que agora todos os norte-coreanos têm acesso. Normalmente nunca se viria a saber nada disto.

Euronews: Pode dar-nos uma ideia sobre os riscos associados a esta purga?

AFC: Penso que se trata de algo arriscado. Existem dois pontos de vista e não vai demorar até termos uma ideia mais clara. Um dos pontos de vista, que eu não defendo, é que esta ação mostra como Kim Jong-Un é forte, que não o podemos subestimar. Apesar dos seus 30 anos ele agora sente-se suficientemente forte para liderar sem a ajuda do seu tio e mentor. Neste sentido, a mensagem é muito forte… talvez… mas eu não concordo! O facto de ele ter conduzido tudo de forma pública é um factor de risco. Sugere que o que se pensava ter sido uma transição estável ao longo dos últimos anos, desde a morte de Kim Jong-Il, afinal resultou em divisões internas. Pensava-se que o partido estaria no centro da atividade política com o líder e o defunto tio a tentarem conter os militares que obtiveram muitos privilégios no regime anterior. Agora, pelo contrário, sabemos que o partidarismo se espalhou por toda a máquina partidária e Jang Song-thaek poderá não ser o último. Há quem deva estar à espera com receio do que possa vir a acontecer.

Euronews: O que é que o resto do mundo pode fazer?

AFC: Muito pouco. A China é fundamental e eles assumiram uma posição estratégica há algum tempo. Apesar de não gostarem da Coreia do Norte, eles receiam o caos que o colapso do país poderia provocar. Armas nucleares e tudo o resto. Por isso, a China vai ter que continuar a tolerar a situação e a tentar mudar a Coreia do Norte através do comércio e desenvolvimento. Trata-se de uma política que poderá dar resultados a longo prazo mas contraria as sanções impostas pela ONU. Esta semana ficámos a saber que mais uma localidade fronteriça na Coreia do Norte assinou um acordo com vista a atrair investimentos da China. Isso aconteceu desde o desaparecimento de Jang Song-thaek embora se pensasse que ele era o responsável por essas questões. Para eles pode ser algo normal mas para nós trata-se de algo desagradável de ver e não há nada a fazer.