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Hungria: Coleção privada de 230 pinturas do século XX foi agora revelada

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Hungria: Coleção privada de 230 pinturas do século XX foi agora revelada

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Pela primeira vez, a coleção Kövesi foi apresentada ao público, na Hungria. Istvan Kövesi era o dono de um talho com produtos kosher em Budapeste durante a era comunista. Entre 1960 e 1980, comprou 230 obras de artistas húngaros do século XX. A coleção ficou guardada a sete chaves e só agora foi exibida.

Kövesi fez fortuna porque era dos poucos comerciantes privados com autorização para manter as portas abertas. Apostou na arte porque era o único investimento que podia fazer sem que o Estado se apercebesse da sua riqueza. Tamas Kieselbach, comissário da exposição, explica: “É fácil compreender por que razões os colecionadores mantiveram as coleções em segredo uma vez que o dinheiro veio de negócios privados. Durante a era comunista apenas as lojas estatais e as fábricas eram autorizadas, o setor privado apenas era parcialmente aceite. As pessoas mais ricas eram os taxistas, cabeleireiras, donos de mercearias ou outras lojas que vendessem comida, como Istvan Kövesi com o talho kosher.”

O salário médio nos anos 70 na Hungria era o equivalente a cinco euros por mês. Para comprar obras-de-arte que custavam 80 vezes mais, Kövesi fazia do talho uma plataforma para um rentável mercado negro de variados produtos. O dinheiro que ganhou investiu na pintura, passando por redes alternativas aos leilões oficiais.

O historiador de arte Peter Molnos descreve: “Aqui pode ver o depósito de compra e venda. Durante o comunismo era o único local para os colecionadores comprarem de forma legal. Iam até ao café Luxor – exatamente o mesmo local onde a galeria está hoje localizada – e discutiam o que iam comprar à loja ou a privados.”

Istvan Kövesi nasceu em 1911. Frequentou apenas o ensino básico e começou logo a trabalhar com o pai num talho da cidade de Vácrátót, perto de Budapeste. A história da sua vida fez dele um sobrevivente. É o que explica Peter Molnos: “Nos anos 30, a chamada ‘lei judaica’ limitou a vida de todos os judeus na Hungria. Istvan Kövesi foi deportado para o campo de concentração de Mathausen, na Áustria, mas sobreviveu. Mais tarde conheceu uma mulher que sobreviveu a Auschwitz e casaram. Depois da Segunda Guerra Mundial, Istvan Kövesi pensou que o tempo do sofrimento tinha acabado. Só que ao regressar à Hungria, deparou-se com a casa abandonada e toda a família tinha sido assassinada durante o Holocausto.”

Mais tarde seria a vez do regime comunista confiscar todos os seus bens. Kövesi foi operário até à revolução de 1956. Foi então que pôde regressar ao trabalho no talho e transformar-se num colecionador de arte – mais por pragmatismo do que por paixão. Morreu no início dos anos 80. Os filhos conservaram a coleção até hoje.