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Egito: Terrorismo coloca transição pacífica em risco

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Egito: Terrorismo coloca transição pacífica em risco

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As esperanças de uma transição pacífica estão a cair por terra no Egito. Na sequência dos ataques registados no país na véspera de Natal, a maioria deles falhados, o atual governo de transição de cariz militar decretou a Irmandade Muçulmana uma organização terrorista.

A decisão empurra o partido islâmico para a clandestinidade e o receio é que, apesar de o partido do presidente eleito e já deposto ter garantido estar comprometido com uma resistência pacífica, possa surgir nos próximos tempos uma liderança mais extremista na fação que conduza a Irmandade a uma resposta mais violenta ao carimbo de terrorista que lhe foi agora colocado. A decisão do governo colhe, contudo, apoio entre muitos egípcios.

Depois dos ataques registados na véspera de Natal, o atual governo militar decretou a Irmandade Muçulmana uma organização terrorista. A decisão empurra o partido islâmico para a clandestinidade e foi recebida com agrado por muitos egípcios. É caso de Adel Mahmoud el-Hefnawy, que se diz “totalmente de acordo com o governo, embora”, acrescenta, “esta decisão surja um pouco tarde”. “Há oitenta anos que a Irmandade Muçulmana é uma organização terrorista. Sempre sobreviveu a matar e nada mais”, acusou El-Hefnawy.

Mais jovem, Isalm Ata concorda que a decisão “é boa, mas vem tarde”. “É o castigo mais apropriado para eles porque nos deixaram em estado de guerra”, defende.

Com a decisão que a considera uma organização terrorista, a Irmandade Muçulmana deverá tornar-se mais discreta e, quem sabe, voltar mesmo a esconder-se e a operar em secretismo. Foi, aliás, desta forma obscura que o grupo cresceu e ganhou força durante o regime de Hosni Mubarak. Nos últimos anos do antigo presidente, a Irmandade apenas conseguiu participar em atos eleitorais através de falsos candidatos independentes.

A organização cresceu de tal forma que, nas primeiras eleições livres do Egito após a destituição de Mubarak, a Irmandade Muçulmana conseguiu mesmo eleger Mohammed Morsi como presidente do país, com uma votação esmagadora sobre a concorrência, mas onde, ainda assim, a elevada abstenção foi nota dominante.

A presidência de Morsi, contudo, não foi consensual e a crescente influência islâmica nos destinos do país levaram os militares a provocar a queda do presidente eleito, chegando mesmo a prendê-lo. O sucessor de Hosni Mubarak e outros líderes da Irmandade Muçulmana foram acusados de terrorismo e podem vir a enfrentar a pena de morte. Os apoiantes islâmicos estão, claro, contra o atual regime e pedem a queda do governo militar de transição, cujos planos de paz para o Egito podem, afinal, sair furados.

Para meados de janeiro está previsto um referendo sobre a nova constituição egípcia. Mas antes mesmo dos acontecimentos violentos desta semana já a Irmandade Muçulmana, através da Aliança Nacional, havia anunciado o boicote islâmico a esse referendo, que Amr Farouk considera “sem validade”. “É um referendo que foi conduzido pelos responsáveis do sangrento golpe fascista que derrubou o presidente”, alegou este responsável da Aliança Nacional pela legitimidade no Egito e um dos atuais líderes da Irmandade Muçulmana.

A oposição ao referendo e a terminologia usada para se referirem ao atual governo de transição no Egito servem de sinais para o que pode estar a ser “cozinhado” pelo grupo islâmico. O receio dos egípcios é que os membros mais extremistas da organização ganhem força e assumam a liderança do movimento, conduzindo-o a uma resposta ainda mais violenta contra o regime em vigor no Egito.