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Sharon: "Falcão" de Israel perde a derradeira guerra

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Sharon: "Falcão" de Israel perde a derradeira guerra

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Tinha 85 anos, morreu vítima de doença prolongada depois de oito anos em coma após um derrame cerebral. Filho de pai lituano e mãe russa, ambos judeus provenientes da agora Bielorrússia, Ariel Scheinermann, mais tarde conhecido como Sharon, nasceu a 27 de fevereiro de 1928 em Kfar Malal, na região de Sharon, centro de Israel, na altura conhecido como Mandato Britânico da Palestina.

Aos 10 anos, entrou para o movimento sionista Hassadeh e, aos 14, passou pelo Gadna, antes de se alistar na Haganá, a clandestina força paramilitar judaica que lutava pelo fim da então administração britânica da região. Em 1949, após a independência de Israel, foi promovido a comandante, aprofundando também os estudos. Em agosto de 1953, foi colocado à frente da temível Unidade 101, um dos primeiros e mais polémicos grupos de operações especiais das Forças de Defesa de Israel (IDF, na sigla em inglês).

Em 1972, com 44 anos, Sharon tem um papel primordial na guerra de Yom Kipur, liderando o cerco no Suez às tropas egípcias. Uma estratégia que teve sucesso e lhe valeu, por exemplo, o cognome de “Leão de Deus.”

Pouco depois reforma-se da vida militar e lança-se na política. Ajuda à criação do partido de direita Likud, do qual se viria a afastar nos anos 80 e a regressar nos anos 90 até se desvincular por completo em novembro de 2005 para formar uma nova força política mais centrista, o Kadima.
Entre 1975 e 76, serviu como apoio especial do primeiro-ministro Yitzhak Rabin e aí deu de facto início à carreira que lhe valeria a alcunha de “Falcão de Israel” e que dedicou à afirmação judaíca sobre as comunidades árabes vizinhas, nomeadamente a Palestina. Tornou-se um dos grandes defensores e impulsionadores dos colonatos judaicos na região.

Em 1981, depois de ter servido o governo de Telavive como ministro da Agricultura, volta ao exército mas desta vez para o cargo mais alto da hierarquia: ministro da Defesa, no executivo de Menachem Begin. Em 1982, foi um dos grandes responsáveis pela invasão do Líbano, numa operação que ficaria conhecida como “Paz na Galileia”.

Sharon prometeu uma guerra relâmpago para acabar com o alegado problema palestiniano e com Yasser Arafat. A guerra dura mais do que o previsto e as consequências, claro, agravaram-se progressivamente.

O dia 16 de Setembro de 1982 fica na história como o do massacre de Sabra e Shatila. Milicianos cristãos libaneses, ao serviço do Tzahal (a expressão hebraica que define o IDF), invadem os campos de refugiados palestinianos para exterminar alegados terroristas. O balanço oficial da Cruz Vermelha indica que morreram cerca de 450 civis palestinianos nesse ataque, outras fontes falam em mais de 3 mil vítimas. Sharon reconhece que autorizou a operação e ficará conhecido como “o carniceiro do Líbano”. Com o mundo em estado de choque e pressões internas, Sharon demite-se.

É sob o governo de Benjamin Netanyahu que Sharon regressa à política. Em 1996, é nomeado ministro das Infra-estruturas. Dois anos mais tarde, passa para os Negócios Estrangeiros para acalmar a ala mais à direita do governo.

Em 1999, a esquerda, liderado por Ehud Barak, chega ao poder. Com a derrota, o Likud é reformulado e Sharon assume a liderança do partido. Ainda sem funções oficiais, o então líder da direita israelita decide visitar a Esplanada das Mesquitas em Setembro de 2000, no que foi encarado como uma provocação pelos palestinianos e terá servido de rastilho à segunda Intifada.

Para Sharon, a paz tinha sido sempre indissociável da colonização dos territórios. Em Junho de 2002, já como pimeiro-ministro de Israel, aprova o início da construção do polémico muro que separa Israel da Cisjordânia.

Apesar do apoio da administração de George W. Bush,o então presidente dos Estados Unidos, Sharon viu-se obrigado a fazer concessões. Em 2003, assinou o Roteiro da Paz, cujo objetivo era a resolução definitiva do conflito israelo-palestiniano.

Sharon esperou, no entanto, pela morte de Arafat em novembro de 2004 para iniciar o diálogo com os palestinianos sobre a retirada de Gaza. Após 38 anos de ocupação, o chefe de governo israelita toma uma decisão histórica e Israel deixa a Faixa de Gaza.

Às lágrimas e à dor dos colonos, e de parte dos militares, junta-se a ira dos membros mais radicais do Likud, que consideram Sharon “um ditador”, “um traidor” e “um mentiroso”. Indiferente às críticas, Ariel Sharon abandona, em 2005, o partido que tinha ajudado a fundar em 1973.

Em novembro de 2005 forma o Kadima. Nas fileiras do novo movimento de centro-direita encontramos Shimon Peres, um dos arquitectos da paz em Oslo e um dos maiores rivais de Sharon durante anos. Em poucos anos, o homem que tinha como obsessão a segurança de Israel, procurou afastar-se e tentar fazer esquecer o polémico passado bélico.

Em dezembro de 2005, Ariel Sharon sofreu um ligeiro AVC, esteve internado, mas recuperou. O mesmo não aconteceria após um segundo e mais grave AVC, a 4 de janeiro de 2006, que lhe provocou um derrame cerebral e o deixou em coma.
Durante três meses a cadeira de primeiro-ministro não foi ocupada por qualquer membro do governo. Viria a ser Ehud Olmert a suceder-lhe, a partir de abril de 2006.

Em coma, Sharon foi mantido ligado à vida graças à assistência médica exigida pelos filhos. Foi ligado às máquinas que viveu os derradeiros oito anos de vida e foi dessa forma que o forte coração do antigo general resistiu até mais não poder, sucumbindo a múltiplas falhas de outros órgãos vitais do antigo primeiro ministro. Em pleno Shabat, 11 de janeiro de 2014 fica na história de Israel como dia da morte de Ariel Sharon, um herói de Israel e um inimigo eterno para uma boa parte do mundo árabe.