Última hora

Última hora

Dennis Ross: Sharon assumia compromissos

Em leitura:

Dennis Ross: Sharon assumia compromissos

Tamanho do texto Aa Aa

Um político pragmático, com ideias próprias e que se obrigava a cumprir os compromissos assumidos – um retrato de Ariel Sharon traçado por um dos mais experientes diplomatas norte-americanos nos assuntos do Médio Oriente, o embaixador Dennis Ross, em entrevista à euronews.

euronews: Temos connosco Dennis Ross, um dos mais experimentados diplomatas norte-americanos no Médio Oriente, especialista do Instituto de Washington para as Políticas do Médio Oriente. Senhor embaixador, na sua carreira política, ocupou posições de topo durante os governos de George Bush, Clinton e Obama, mas o que nos interessa em particular é que encontrou Ariel Sharon em várias oportunidades. Quem era Sharon como pessoa, como homem?

Dennis Ross:Sharon era alguém de grande envolvimento humano. Quando se trabalhava com ele, víamo-lo adotar várias nuances de personalidade, conseguia ser envolvente, conseguia ser muito resistente – ou seja, conseguia ser muito determinado, podia ser insistente, reativo. Era como se abarcasse várias personalidades, adaptadas às circunstâncias e também de acordo com a função que assumia. Como Primeiro-Ministro, Ariel Sharon era muito diferente do Ariel Sharon responsável pela diplomacia israelita, como ministro da Habitação ou líder da oposição.

euronews: Sharon era um verdadeiro fenómeno político. Por um lado, havia ali o bulldozer anti-palestiniano, mas era ele também quem conseguia ter a coragem de ousar colocar um fim ao conflito com os palestinianos. Qual era a visão de Sharon para a política no Médio Oriente?

Dennis Ross:Essa é uma questão interessante, porque eu descrevo-o como alguém que era muito pragmático, mas ele era igualmente um homem que não confiava – disse-me, em determinado momento: “Eu não confio neles – compreendo a necessidade de dignidade, compreendo que devemos ir ao encontro das necessidades que têm, mas (na verdade) não acredito que tenham de facto mudado”. Estava convencido que continuava a existir um abismo, não só entre judeus e palestinianos, mas entre judeus e árabes. Ou seja, ele não tinha o sentimento de que estaria a acontecer uma grande mudança. Ao mesmo tempo foi ele quem disse: “a Jordânia é Palestina”. E mais tarde tornou-se um dos maiores apoiantes das relações israelo-jordanas, procurando vias de consolidar cooperação.

euronews: Os atuais líderes israelitas têm alguma coisa a aprender com Ariel Sharon?

Dennis Ross:Sharon sabia traçar linhas claras de divisão! Ele era assim. E sabíamos que, se ele dizia que não faria alguma coisa, é porque de facto não o faria. Um dia perguntaram-me qual a diferença entre Sharon e Arafat, e respondi: é fácil – Arafat faz facilmente promessas, mas não está a pensar cumpri-las. Com Sharon, é muito difícil obter uma promessa, pois quando se compromete acredita que vai ter de cumprir. Ele era assim.

euronews: Historicamente, Israel produziu alguns líderes políticos de grande força: Ben Gurion, Golda Meir, Moshe Dayan, Rabin, Peres. Se lhe pedissem uma galeria dos políticos israelitas mais famosos, em que lugar colocaria Ariel Sharon?

Dennis Ross: Eis uma boa questão. Fazer um ranking é difícil. Eu daria provavelmente o primeiro lugar a Ben Gurion e a Rabin o segundo, mas Sharon ficaria com o terceiro.