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Moratinos: Desaparecimento de Sharon abre "nova etapa"

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Moratinos: Desaparecimento de Sharon abre "nova etapa"

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Miguel Ángel Moratinos conhece bem as negociações israelo-palestinianas. Durante sete anos foi o enviado especial da União Europeia para o Médio Oriente. Viveu os altos e baixos do processo de paz e negociou cara a cara com os principais protagonistas.

euronews: “Fazer um balanço de uma personagem tão controversa como Ariel Sharon é difícil mas gostaria de perguntar-lhe o seguinte: até que ponto as decisões de Sharon, tanto no campo de batalha como na arena política, influenciaram Israel?

Miguel Ángel Moratinos: “É uma personagem controversa, como diz, e como a história o dirá, com períodos sombrios: Sabra e Chatila. Ninguém esquecerá o massacre nos campos palestinianos em setembro de 1982. Ele nem sempre foi favorável às negociações iniciadas após os acordos de Oslo, procurou sempre expandir as colónias teve atitudes provocatórias como a visita à Esplanada das Mesquitas, desencadeando a segunda Intifada. Mas quando assumiu responsabilidades governativas e foi primeiro-ministro, evolui positivamente na direção dos acordos de paz”.

euronews: A morte de Sharon marca o fim de uma era? De uma geração de líderes israelitas forjados na guerra?

Miguel Ángel Moratinos: “Espero que sim. Até agora praticamente todos os primeiro-ministros tinham de ter passado pelas forças armadas de Israel. Havia o sentimento de que a segurança era a coisa mais importante e isso ainda predomina. Com o desaparecimento de Sharon creio que se inicia uma nova etapa.

euronews: Como era Sharon na mesa das negociações?

Miguel Ángel Moratinos: “Tinha uma dupla personalidade. Quando o conheci foi simpático, lembro-me que me recebeu de forma muito cordial na quinta dele perto de Gaza, num ambiente descontraído e cortês. Era um homem com muita energia e tomava decisões duras que tinham consequências importantes nalguns casos”.

euronews: Sharon é considerado como o fundador dos movimentos de colonização nos territórios palestinianos ocupados. Mas como primeiro-ministro, como disse, alterou a posição de forma surpreendente, demonstrou que a colonização não é um processo irreversível, ao ordenar a retirada de Gaza. Terá sido a sua maior contradição ou uma postura estratégica?

Miguel Ángel Moratinos: “Aconteceu com muitas personalidades e políticos israelitas. Quando assumem responsabilidades, como foi o caso de Rabin, de Golda Mier ou de Ben Gurion, surge a necessidade de procurar soluções e Sharon procurou soluções. É verdade que não o fez da melhor maneira porque sempre se negou a dar a mão ao presidente Arafat e essa recusa de comprometer-se de chegar a acordo, de negociar fez com que decisões positivas como a retirada de Gaza fossem tomadas de forma unilateral. Não houve acordo com a Autoridade Nacional Palestiniana e por isso ficou sempre a dúvida, será que ele queria mesmo um acordo definitivo e um Estado palestiniano em paz com Israel”.