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"Se os turcos mudassem a tática, podia diminuir a violência no Iraque"

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"Se os turcos mudassem a tática, podia diminuir a violência no Iraque"

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O Iraque está a viver, de novo, sob terror. Os ataques aumentam, Fallujah está nas mãos dos jihadistas do grupo “ Estado Islâmico do Iraque e do Levante “, EIIL com inspiração na Al Qaida, apesar de não estar ligado à rede.
Apertam o controlo da região Al Anbar e de uma parte de Ramadi. A ofensiva foi lançada no início de janeiro. O governo é incapaz de lidar com ela.

Ramadi e Fallujah, são os antigos bastiões da insurgência, a seguir à invasão liderada pelos EUA, em 2003.
Esta é a primeira vez que um grupo jihadista assume o controle de áreas urbanas no país. Galvanizado pelas vitórias na Síria e no Líbano, onde a Al Qaida e outros grupos radicais islâmicos estão a ganhar terreno, o EIIL desafia as forças do governo. A algumas dezenas de quilómetros de Bagdad, já não há garantias de nada. Foram enviados reforços para o local, mas não foi levada a cabo qualquer operação.

Se foi difícil as forças norte-americanas conquistarem Fallujah, em 2004, a missão parece ser impissível, atualmente, para o exército iraquiano. Uma coisa é certa: haverá um enorme número de vítimas e o aumentará sentimento de hostilidade contra o governo nesta região predominantemente sunita.

O primeiro-ministro iraquiano Nuri Al -Maliki tenta a oratória: “Não queremos, de todo, que a cidade sofra. não usaremos a força se as tribos estiverem prontas para lutar contra a Al Aida e expulsar os terroristas.”

No fundo, passou a responsabilidade para terceiros, mas ficou sem resposta. Os combatentes tribais, descontentes com o governo, ajudaram os membros do EIIL a tomar Fallujah. Alguns chegam a ameaçar de represálias quem tentar seguir as orientações do governo. Mas serão uma minoria, considera o especialista em segurança do Iraque, Ahmed Al Sheriyeffi:

“ Não estamos a ver as tribos locais abrirem a porta para receber um grupo extremista ou ajudá-lo. No entanto essas tribos, em Anbar, têm divergências com o governo iraquiano, mas não atingiram o ponto de precisarem de aliados terroristas. “

Os terroristas estão organizados, fortemente armados, habituados ao combate de rua e são profundamente extremistas. Aterrorizam a população. Herdaram os métodos da Al Qaida da Mesopotâmia, que Al Zarkaoui criou em 2003. O comando central dissociou-se deste grupo de Estado Islâmico, mas os combates continuam até ao objetivo de criar ali um califado gerido pela sharia.

Para analisar a escalada de violência no Iraque, entrevistámos Firas Abi Ali, um analista do Médio Oriente.

Euronews: Em que medida a escalada de violência no Iraque se deve a uma vaga aliança de combatentes com os rebeldes da Al Qaeda ou há uma estratégia coordenada?

Firas Abi Ali: Eu penso que se trata mais de uma vaga aliança e eu penso que uma das principais características da comunidade sunita, não apenas no Iraque, mas em toda a zona, é o facto de estar profundamente dividida por diferentes regiões. Portanto, o que estamos a ver no Iraque é basicamente parte da comunidade sunita a combater do lado do Governo, sob o nome de Sahwa ou Filhos do Iraque, contra o ISIL. No entanto, há outra parte da comunidade que está a combater juntamente com o ISIL contra o Governo, porque se sentiu excluída por Nuri al Maliki. Depois, há uma parte no meio que não quer ser governada pelo ISIL, porque teve uma má experiência e que também não quer ser governada por Mailki e pelos seus aliados.

E: Quem são os membros do ISIL? Que poderes têm?

FAA: Eles têm uma ideologia muito niilista e uma interpretação do Islão que se baseia principalmente na violência, como vimos nas suas relações com outros grupos rebeldes sírios que estavam supostamente do seu lado, mas que se viraram contra eles. Eles dependem fortemente de um influxo de combatentes estrangeiros, sobretudo dos países do Médio Oriente. Houve também um pequeno número de chechenos – algumas centenas – e a sua ideologia parece consistir em impor um Estado islâmico pela força, que é extremamente medieval e muito medieval.

E: Está a dizer que a violência vai continuar por algum tempo?

FAA: Acho que sim. Não vejo nenhum sinal de que vá diminuir. Os atores que podem mudar isto são a Turquia e a Jordânia, que estão a ter imensos problemas para controlar as suas fronteiras, de forma a impedirem estes grupos de entrarem no Iraque e na Síria, mas é também bastante óbvio que, pelo menos, os turcos estão a fechar os olhos no que respeita ao movimento de grupos jihadistas no Iraque e na Síria. Se eles mudassem a sua tática, poderíamos ver uma diminuição da violência, mas sem isso é impossível.

E: Qual é a ameaça para outras áreas e regiões?

FAA: Já estamos a ver a militância sunita estender-se ao Líbano. Isto aconteceu antes da guerra civil síria, mas acentuou-se com o conflito e agora há bombardeamentos a atingir os civis xiitas no Líbano e houve também o ataque à embaixada iraniana em novembro. A relação entre os grupos jihadistas e o Governo jordano são bastante más e vão, provavelmente, piorar. Penso que se o conflito na Síria começar a perder vapor, e isso vai ter que acontecer nos próximos anos, vamos ver alguns dos europeus que estão a combater na Síria regressar com as suas ideias. Alguns tunisianos estão a começar a deixar a Síria e a regressar ao país natal, causando um problema às forças de segurança.