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Richard Branson: o homem que quer conquistar o Espaço

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Richard Branson: o homem que quer conquistar o Espaço

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Richard Branson é um dos empreendedores mais famosos do mundo. Ele tem aquilo com que todos sonhamos: uma família feliz, sucesso, uma ilha nas Caraíbas, mais dinheiro do que a maioria de nós poderá jamais imaginar ter. Mas a sua atenção vira-se agora, e cada vez mais, para a filantropia.

Euronews: A filantropia parece estar a tornar-se, cada vez mais, uma responsabilidade dos ricos, estão a assumir essa responsabilidade, concorda comigo?

Richard Branson: Deve ser esse o caminho. Quando se é uma pessoa bem-sucedida, uma enorme riqueza pode estar associada a esse sucesso e essa riqueza traz essa grande responsabilidade. Temos a responsabilidade de utilizar as nossas capacidades empreendedoras para ajudar a resolver os problemas do mundo e usar o nosso poder financeiro para ajudar a solucionar alguns desses problemas.

Euronews: Mas é uma nova tendência, talvez não seja nova, mas é uma tendência cada vez mais presente.

Branson: É uma tendência positiva e o capitalismo parece ser o único sistema que funciona. O capitalismo é maravilhoso, há jovens com ideias, que podem marcar a diferença na vida de outras pessoas, eles lutam por essa ideia e, se forem bem-sucedidos, essa ideia cresce e fazem algum dinheiro. Mas o problema do capitalismo é que se acaba por fazer dinheiro que é, completamente, desnecessário e, para contrapor isso, acabam por impôr-se impostos draconianos a essas pessoas. Por isso, cabe a essas pessoas devolver esse dinheiro à sociedade, de uma forma ou de outra.

Euronews: Uma questão, via Facebook de um espetador, Thomas Hiegen, ele pergunta: “Estando num dos extremos da desigualdade global, o que é que acha das críticas de que é injusto que as 85 pessoas mais ricas do planeta”, suponho que esteja entre elas, “tenham tanta riqueza como 3,5 mil milhões de pessoas?”

Branson: Acabei de almoçar com Bill Gates, que talvez seja o homem mais rico do mundo, e sessenta outros empresários, muito bem-sucedidos e todos concordaram dar a maioria da sua riqueza, ainda em vida ou depois de morrerem, não se limitarem a deixarem-na aos seus descendentes. Eu acho que é a coisa certa a fazer. A coisa boa nestas pessoas é que elas têm uma mente empreendedora, elas também veem problemas no mundo que podem ser resolvidos usando as suas capacidades empreendedoras e o seu dinheiro.

Euronews: Também se comprometeu a dar metade da sua fortuna.

Branson: Pelo menos metade, sim. Acho que os empreendedores conseguem ver os problemas de forma, ligeiramente, diferente das outras pessoas e, muitas vezes, eles conseguem… por exemplo, no mês passado, o Uganda aprovou uma lei, contra os direitos humanos, dizendo que os homossexuais seriam condenados à prisão perpétua e se não denunciássemos um homossessual seríamos condenados à mesma pena. Uma lei incrivelmente perigosa, homofóbica, horrível. Por isso, reunimos um grupo de empresários que poderiam falar com o Presidente e ele mudou de ideia e vetou a lei. Penso que os empresários têm bastante influência no mundo e se usarmos a nossa influência de forma positiva podemos tornar o mundo melhor.

Euronews: Mencionou os direitos dos homossexuais, mas há também a questão da igualdade de género, as mudanças climáticas, a resolução de conflitos. Mas não me parece que isso o preocupe demasiado. Tenho a impressão de que acredita, realmente, que podemos resolver essas questões. Defende a resolução de um problema de cada vez.

Branson: Antes de vir para aqui estive a falar, ao telefone, com uma organização chamada “Elders” que criámos – Kofi Annan é o presidente – e falámos sobre a morte de três pessoas na Ucrânia, nas ruas, e estamos a considerar se um grupo como o “Elders” poderá ir lá e tentar ajudar a resolver este conflito antes que se transforme numa nova Síria, onde centenas de milhares de pessoas estão a ser mortas. Muitas vezes, se nos conseguirmos mexer, rapidamente, no início do conflito, talvez se consiga juntar o líder da oposição e o do país e pedir-lhes que, para o bem do vosso país, entrem em acordo e não deixem que aconteça o mesmo que na Síria, que é possível resolver esse conflito. A “Elders” fez isso no Quénia, quando o país estava a desmoronar-se, há alguns anos, conseguiram que tudo se resolvesse. Acho que quando se está numa posição em que se pode marcar a diferença temos de tentar fazê-lo.

Euronews: A vida está a ser muito difícil para os jovens, neste momento, o desemprego em massa… Penso que os jovens empreendedores têm dificuldade em enfrentar os desafios crescentes da vida. Recebemos um tweet de um jovem chamado Edmund-Graham e ele pergunta: “Como é que se prospera num mundo normal, onde as oportunidades são limitadas.” Que conselhos dá aos jovens que tentam fazê-lo? Ajuda-os?

Branson: Ser empreendedor não é fácil. Há muitas pessoas que tentam fazê-lo e falham ao longo do caminho, mas os bons voltam a erguer-se e continuam a tentar até conseguirem. O que um empreendedor tem de fazer primeiro é ter uma ideia que marque uma diferença positiva na vida das pessoas. E quando se tem uma ideia dessas tem-se uma hipótese de construir um negócio. Então, é preciso reunir um bom grupo de pessoas à sua volta, que acredite naquilo que você está a tentar fazer, e então tem de dizer: “vamos em frente, vamos fazer isto! Vamos tentar”. Parece mais fácil dizer do que fazer. Quando eu comecei, com 15 anos, ficava no exterior dos concertos a tentar vender discos através de encomenda postal. E como as pessoas me enviavam dinheiro eu ia comprar os discos e enviava-os para elas. O dinheiro dava apenas para sobreviver, foi difícil construir uma empresa, mas é extremamente gratificante quando se tem sucesso. Nem todas as pessoas vão ter sucesso enquanto empreendedoras mas vale a pena tentar.

Euronews: Estaria errada se dissesse que ser divertido é muito importante na sua vida. É bastante conhecido pelas partidas que prega.

Branson: Penso que a vida é curta e, por isso, deve ser divertida. Se o presidente da empresa está a divertir-se… se vou a uma festa e tenho o cabelo solto e sou o primeiro a atirar-me para a piscina e não fico num canto da sala a bebericar xerez ou outra coisa, então todos vão rir-se e divertir-se. Se é o presidente da empresa o primeiro a dançar em cima da mesa. Ele põe toda a gente a dançar em cima da mesa. Certifique-se de que a festa é uma risota. Por isso, divirta-se à grande, trabalha da mesma forma, siga determinados princípios na vida. Ame as pessoas, certifique-se de que marca a diferença, faça algo positivo para o mundo enquanto cá está.

Euronews: Gosta de divertir as pessoas. Conte-nos uma das partidas que mais gostou de pregar.

Branson: Bem, deixe-me ver… A British Airways tem sido, desde sempre, a grande concorrente da Virgin e eles estavam a patrocinar a Roda do Millennium, que fica frente ao Parlamento e a roda estava deitada no chão e chamaram a imprensa para ver a roda ser erguida. Eu recebi um telefonema, às seis da manhã, a dizer que não conseguiam levantar a roda. Nós tínhamos uma empresa de dirigíveis, a meia hora de Londres, então liguei para lá e um dos nossos dirigíveis voou sobre a roda com um enorme cartaz a dizer: “A BA não conseguem levantá-la’‘. ​​É esse tipo de coisa, gostamos de nos divertir à custa dos nossos concorrentes… Aparecemos na primeira página de todos os jornais e na maioria dos canais de televisão.

Euronews: Também está envolvido em negócios mais empolgantes. Há a filantropia, de um lado mas não desistiu dos negócios de risco. Penso que a Virgin Galactic deve ser uma das coisas mais empolgantes a acontecer neste momento: vamos, realmente, ter um voo espacial comercial este ano?

Branson: Definitivamente que vamos. Será em meados deste ano e eu vou com os meus filhos. E vai ser ridiculamente emocionante, nós construímos uma nave-mãe, uma nave espacial, um porto espacial no Novo México… Estamos a começar a construir satélites para colocar lá em cima com a nave espacial. Vai permitir que centenas de milhares de pessoas se tornem astronautas. Os custos dos serviços de telefones, acesso à internet podem descer, drasticamente. Vamos ser capazes de chegar a dois mil milhões de pessoas. Esperamos que se possa ir de Londres à Austrália em pouco mais de uma hora.

Euronews: Como é que isso funciona?

Branson: Bem, isto só vai acontecer daqui a dez ou quinze anos, mas se podemos colocar uma nave espacial em órbita e, em seguida, deixá-la cair sobre Sydney, estaremos a viajar a 18.000 milhas por hora. Então, basicamente, o tempo da viagem vai ser…

Euronews: Então, a Terra gira e…

Branson: Se colocar qualquer coisa em órbita ela faz 18.000 milhas por hora, por isso é apenas o tempo de descolar e aterrar, quando olhar para fora da janela estará a ver a Terra e será a viagem de uma vida, por isso penso que será um serviço muito popular, um dia.

Euronews: Parece ser uma coisa imaginária, também ouvi que está a pensar construir um hotel espacial.

Branson: Claro, penso que se vamos enviar pessoas ao espaço haverá algumas que querem ficar lá uma semana ou duas. Já existe um homem maravilhoso, chamado Bigelow, que tem tudo pronto para hotéis no espaço e nós adoraríamos que a primeira série de hotéis espaciais fosse da Virgin.

Euronews: Quando será isso?

Branson: Penso que dentro de cinco anos.

Euronews: E quanto custaria um quarto por noite?

Branson: Ainda temos de trabalhar isso. Penso que, como sempre, inicialmente vai ser caro agora, com as pessoas que podem pagar por elas, conseguiremos reduzir os preços para aquelas que não podem pagar. Por isso espero que, um dia, centenas de milhares de pessoas sejam capazes de pagar e não apenas os ricos.

Euronews: Tornou-se indissociável da marca Virgin, quase que se tornou numa marca. Preocupa-o que quando você sair… deixar a Virgin…

Branson: Ia dizer quando eu morrer, diga-o…

Euronews: Ok. Quando morrer a Virgin morre consigo?

Branson: Acho que não. A Apple não morreu depois do Steve Jobs e acho que a Virgin está, gobalmente, bem estabelecida enquanto marca por isso continuará a viver. Tenho pessoas maravilhosas a trabalhar na Virgin. Tenho dois filhos adultos fantásticos e muito capazes, não acho que nenhum deles vai querer ver todo o esforço que fizemos, a construir a Virgin, desperdiçado. Queremos que a Virgin seja uma empresa de que nos possamos orgulhar, mas queremos acima de tudo que a Virgin seja uma força maior, enquanto empresa, no mundo, que marque a diferença e isso é algo de que todos os que trabalham na Virgin podem orgulhar-se.

Euronews: Mencionou os seus filhos e lembra-me o facto de que, quando fazia passeios de balão, à volta do mundo, escrevia mensagens de despedida aos seus filhos, pensava que era tão arriscado que poderia morrer na viagem. Isso significa que o seu desejo de aventura é mais forte do que…

Brandon: O meu amor pelos meus filhos?

Euronews: Não pelos seus filhos, pela vida?

Branson: É uma pergunta muito boa e ser um pai ou mãe responsáveis é, provavelmente, ficar em casa e ver televisão e não embarcar em grandes aventuras. Dito isto, os meus filhos cresceram…

Euronews: Mas eles eram jovens nessa altura…

Branson: Mas agora cresceram, escalaram o Monte Branco comigo, tentámos quebrar o recorde de navegação transatlântica, fizemos kitesurf no Canal da Mancha, vamos para o espaço, juntos. Gostar de aventura está-nos no sangue, na nossa família, e se perdemos um de nós nessa ânsia pela aventura, saberemos que estávamos a fazer algo que queríamos fazer, que é realmente um desafio, em vez de morrermos num acidente de viação ou de qualquer outra maneira.

Euronews: Razvan Zapodeanu pergunta: “tem medo de alguma coisa?”

Branson: Eu amo a vida e, portanto, quando se ama a vida não se quer partir antes do tempo. E nas viagens de balão já fui resgatado do mar, por helicópteros, cinco vezes. Por isso, tive sorte em ter sobrevivido. Obviamente, eu odiaria que os meus filhos ficassem doentes, enquanto pai o importante é eles terem saúde. Mas enquanto os meus amigos e familiares forem saudáveis​ eu tenho medo de pouca coisa.

Euronews: Esta é uma pergunta de Sana Mina: “O dinheiro fá-lo feliz ou não?

Branson: Quando comecei, não pensava em mim como um homem de negócios, mas como alguém que queria marcar a diferença no mundo, comecei uma revista para a campanha contra a guerra vietnamita, a guerra do Biafra, em África, o dinheiro era apenas um meio para obter mais dinheiro para pagar a revista para me certificar de que poderia sair todas as semanas. E desde então criei coisas que acho que podem marcar a diferença no mundo. Espero que no final de cada ano entre mais dinheiro do que sai para pagar as contas. O dinheiro é útil quando os seus filhos estão doentes, se quiser ter uma educação decente, se quiser umas férias de um ano. Existem algumas necessidades básicas. Mas quando já tomou o pequeno-almoço, o almoço, o jantar e fez todas essas coisas, o dinheiro não é tão importante. Se tem dinheiro, deve fazer o melhor possível e fazer bom uso dele, usá-lo para transformar o mundo.

Euronews: Se olhasse para 2014, se tivesse uma grande ambição para este ano, no que diz respeito a fazer o bem pelo mundo, o que é que gostaria de mudar para marcar a diferença?

Branson: Gostava que houvesse menos conflitos no mundo. E penso que os “Elders” são um grupo fantástico de pessoas. Pessoas como Mary Robinson, Kofi Annan, o arcebispo Tutu, Nelson Mandela era um deles, o filho do presidente Carter e assim por diante. Amanhã eles vão para uma região onde há um conflito, para tentar solucioná-lo. Temos pessoas na África Central a tentar resolver os conflitos. Eu adorava ver menos conflitos no mundo porque quando há um conflito não há educação, não há saúde, toda a sociedade entra em colapso. Se há uma coisa pelo que se pode rezar este ano é pelo fim do conflito sírio e para a paz voltar a toda essa região.

Euronews: No início da entrevista ficou claro que é um homem incrivelmente afortunado, tem tantas coisas na vida, vive aquela que é uma vida de sonho para muitos de nós. Mas o sucesso vem com o trabalho. Se olhar, profundamente, dentro de si, o que diria que o torna diferente das outras pessoas, que o destaca dos outros?

Branson: Eu não acho que seja tão diferente assim das outras pessoas. Tive a sorte de ter sido criado numa família cheia de amor, que procura o melhor das pessoas e consegui rodear-me de pessoas maravilhosas que também são boas a lidar com outras pessoas. E criamos coisas em que esta maravilhosa equipa de pessoas à minha volta acredita, as pessoas estão dispostas a trabalhar muito para transformá-las num sucesso, temo-nos divertido muito a fazê-lo e vamos continuar a fazê-lo enquanto for possível.