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Sochi: Política e desporto em competição

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Sochi: Política e desporto em competição

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Sochi, a Estância Russa no Mar Negro e o local dos Jogos Olímpicos de inverno de 2014. Faz-se a contagem decrescente até ao dia 7 de fevereiro onde 5500 atletas de 80 países vão começar a competir pelo ouro em 98 eventos desportivos.

Com Sochi cada vez mais no centro das atenções, existe uma pergunta inevitável: qual o preço a pagar? Estes jogos já são apelidados como os mais caros e talvez mais controversos na história olímpica.

Segundo os voluntários russos presentes na organização do evento: “Não acho que o dinheiro seja importante. O mais importante é que a Rússia vai mostrar-se como um país europeu moderno que pode receber este tipo de evento. Agora só se fala do dinheiro que foi gasto. Mas depois vão dizer que o dinheiro não foi um desperdício. Tal como os nossos pais nos falaram dos Jogos de Moscovo em 1980, vamos poder contar aos nossos filhos sobre Sochi.”

A próxima geração russa vai então ouvir falar dos 37 mil milhões de euros para encenar estas Olimpíadas. Uma fasquia muito mais elevada do que outros jogos de inverno, como os Turim ou de Vancouver. Mesmo Pequim e Londres, ambos jogos de verão ocupam o segundo e terceiro lugares na tabela de custos.

Para Dimitryi Babich, analista político, as críticas ao país anfitrião são quase uma tradição olímpica: “Nunca nenhum país conseguiu manter os custos dos jogos no valor inicialmente planeado. Foi assim em Londres. Foi assim em Pequim. A Rússia não é exceção. Mas esperamos que a imagem da Rússia melhore durante os jogos.”

Melhorar a imagem de um país, mas especialmente dos políticos russos e das autoridades locais, já que existem muitas alegações de fraude e suborno. A oposição e os ativistas afirmam que mais de metade do orçamento olímpico foi engolido pela corrupção.

Vladimir Kimaev é ativista ambiental que afirma que o ambiente de Sochi também é vítima desta corrupção. Mostra depósitos de lixo ilegais fala de infraestruturas que causaram deslizamentos de terra e da contaminação dos rios e do solo: “A situação que foi criada em Sochi, as Olimpíadas, a preparação para os jogos, a construção das instalações olímpicas são, na sua essência, um espelho da Rússia: o sistema político, o sistema económico, o sistema social, o meio ambiente e por aí fora . São levantadas questões complexas em relação a vários projetos, especialmente nos Jogos Olímpicos.”

Andrey Martynov é um dos dois mil proprietários de Sochi desalojados devido às construções para os Jogos Olímpicos. A sua casa foi destruída para abrir caminho ao Estádio Olímpico. Nos últimos três anos, este quarto tem sido o seu lar e o da mulher Nataliya. O filho vive com amigos: “Aqui estão os papéis para casa e da comunicação entre nós, o Ministério Público e a administração e os presidentes. Estes papeis pedem a ajuda da administração. A comissão veio e declarou que todas as construções como a nossa eram ilegais. Em vez de nos ajudar, emitiram uma ordem do tribunal para destruir a nossa casa. Quando era novo, joguei hóquei e ganhei campeonatos. Hoje,o hóquei e os jogos olímpicos levaram tudo. Desalojaram a minha família.”

As recentes leis anti-gay na Rússia chamaram a atenção internacional ao mais alto nível.

Levantaram-se questões sobre o abuso dos direitos humanos contra a comunidade homossexual. O que levou a que os EUA e muitos chefes de Estado europeus não participem na cerimónia de abertura Sochi.

Mas para Semyon Simonov, ativista de direitos humanos, ficar longe de Sochi não é a resposta. Tem lidado com abusos dos direitos humanos para com alguns dos cerca de 70 mil trabalhadores estrangeiros que trabalham na construção das infraestruturas dos jogos: “Acho que os países europeus e os EUA devem preocupar-se com o problema das violações dos direitos humanos na Rússia. Muitos decidiram boicotar os Jogos Olímpicos e não acho que seja uma boa estratégia, porque podiam aproveitar a visita para destacar as violações destes direitos e, assim, forçar as autoridades a respeitá-los”.

Este clube noturno tem atraído a atenção mediática. É o único clube gay em Sochi onde os heterossexuais são, naturalmente, bem-vindos. Todas as noites há espetáculos onde os drag queens também sobem ao palco.

Andrey Tanichev, dono do clube noturno Mayak: “Toda a gente ganha com a chegada dos turistas, independentemente da sua orientação sexual. Por exemplo, se um residente de Sochi quer alugar um apartamento a dois homens, ninguém lhes vai perguntar se são um casal gay ou não. Alugam-lhe o quarto sem ir mais longe. É por isso que acho que depois dos Jogos vai ficar um legado positivo como em Moscovo na década de oitenta.”

Para Sergey Baklyko, Drag Queen: “Desporto é desporto e política é política” Não se devem misturar as duas coisas. Por exemplo, nas Olimpíadas chinesas: a China não é uma sociedade aberta para com os gays, mas estas questões não foram levantadas na altura. Estamos a concentrar-nos nas coisas erradas. Acho que os atletas da Rússia ou de outros países devem pensar na vitória em primeiro lugar. Precisamos de alcançar bons resultados, ser amigos e conhecermo-nos uns aos outros.”

Separar o desporto da política nunca foi fácil, principalmente para Vladimir Putin. A pretensão de transformar Sochi num resort mundial para uma nova Rússia e para o resto do mundo entrou em conflito com o aumento da repressão aos dissidentes e com as leis anti-gay.

Com a cerimónia de abertura a aproximar-se as expectativas são altas, tanto políticas como financeiras. As questões em torno da segurança também geram algum receio. Ainda existem certa de 300 mil bilhetes disponíveis para os Jogos Olímpicos de Sochi.