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Suíça: Braço de ferro com a UE pela livre circulação de trabalhadores

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Suíça: Braço de ferro com a UE pela livre circulação de trabalhadores

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Vitória inesperada do “sim” em referendo sobre a contenção da imigração perspetiva braço de ferro entre a Suíça e a União Europeia pela livre circulação no país de trabalhadores europeus. A proposta intitulada “Contra a Imigração em Massa” partiu do Partido do Povo Suíço (SVP) ou União Democrática do Centro (UDC), uma coligação de forças nacionalistas e eurocéticas da direita helvética, e encontrou eco na população, vencendo nas casas decimais (50,3 por cento) aqueles que ainda acreditam na livre circulação de pessoas e mercadorias pelo espaço Schengen. O triunfo do “sim” na maioria dos 26 cantões helvéticos confirma a aplicação da contenção da entrada de estrangeiros no país.

A derrota do “não” à limitação da entrada de imigrantes na Suíça é mais um sinal do crescimento na Europa dos ideais mais habituais à extrema-direita. Com uma das maiores participações de sempre num referendo (56,6 por cento), a Suíça aprovou a reintrodução de quotas para imigrantes, independentemente do passaporte, o que vai contra as regras assinadas com a UE em 2002 e que abrangem todos os países integrantes do espaço Schengen.

O conselheiro das comunidades portuguesas na Suíça disse à Agência Lusa que o resultado do referendo “não coloca unicamente em causa o acordo de livre circulação de pessoas entre a União Europeia e a Suíça”. “É também um momento de grande preocupação quanto ao futuro das comunidades emigrantes assim como da própria economia suíça, tão dependente deste fluxo de mão-de-obra”, avisou Manuel Beja.

Marília Mendes, responsável dos associados portugueses do sindicato suíço UNIA, ficou “dececionada mas não surpreendida”, avisando que “as consequências não serão imediatas, mas existirão”. “Os portugueses perderão muitos dos direitos adquiridos com a entrada em vigor dos acordos com a União Europeia”, acrescentou.

O próprio presidente do SVP confessou, contudo, admiração pela vitória. “Foi uma grande surpresa e, antes de mais, é algo para o Conselho Federal suíço refletir. As pessoas não acreditam que o governo seja capaz de resolver este problema da imigração e, por isso, agora temos uma tarefa clara: daqui para a frente, os suíços querem regular por si só a questão da imigração”, afirmou Toni Brunner.

Bruxelas não demorou a reagir ao resultado no referendo. Martin Schulz acusou “as pessoas que venceram o referendo” de não argumentarem “de forma racional, mas sim apelando aos instintos mais rasteiros”. “Nós devemos manter um nível elevado. Mas uma coisa é clara: não se pode beneficiar das vantagens de um mercado interno livre mas ao mesmo tempo ficar de fora noutras questões”, avisou o presidente do Parlamento Europeu, deixando antever o braço de ferro para breve: “É isto que agora vamos ter de discutir com o governo suíço.”

Um dos destinos preferidos dos emigrantes portugueses – quase 240 mil portugueses formam a terceira maior comunidade estrangeira atrás de italianos e alemães -, a Suíça desenvolveu a ideia de que é dos imigrantes a responsabilidade pela alegada descida do valor dos salários e aumento do desemprego, que ronda os 3 por cento. Da proposta agora aprovada em referendo faz parte também um princípio de preferência pelos trabalhadores helvéticos sobre os estrangeiros.

O braço de ferro com a União Europeia promete.