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Armas químicas não sabem nadar

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Armas químicas não sabem nadar

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A subsistência vinda da pesca tem um custo cada vez maior para a saúde. Os pescadores da costa italiana de Molfetta estão expostos aos perigos das armas químicas despejadas nos mares da Europa.

Giovanni de Candia adianta:“Tivemos problemas de respiração, depois de quatro horas, era difícil respirar. Os olhos ardiam e depois tivemos problemas nos dedos das mãos, especialmente a ponta dos dedos que usamos para trabalhar, aqui e no corpo, apareceram manchas vermelhas, como cogumelos. Depois secaram e desapareceram”.

Organizações ambientais do governo têm feito testes aos pescadores. Mas ainda estão à espera dos resultados. No entanto, Michele conhece a causa dos problemas: o gás mostarda.

O pescador acrescenta: “Estas bombas à nossa volta, com o tempo, os recipientes de metal ficam corroído e o gás mostarda sai e move-se com a água. Fica nas redes. E quando as puxamos ardem-nos os olhos e as mãos. O meu pai pescava com pesos, puxava armas lançadas ao mar pelos alemães, pelos ingleses em toda a costa, despejadas por todo o lado, dependendo do tempo. Se o tempo estava mau, atiravam-nas mesmo à saída do porto. Aqui há muitas: bombas convencionais e não-convencionais, incluindo gás mostarda.”

As munições afundadas em Itália remontam a a dezembro de 1943, quando aviões alemães bombardearam os navios aliados no porto de Bari.

Um dos navios atingidos, o norte americano John Harvey, carregava uma carga secreta de gás mostarda para ser usado como retaliação se a Alemanha usasse armas químicas em Itália

O gás mostarda derramado contaminou e até matou soldados e civis, especialmente aqueles que limparam o porto depois da guerra. As munições foram atiradas ao mar, incluindo arsenais químicos que Mussolini construíu durante o regime fascista.

Os cientistas marinhos estimam que há cerca de 90 mil armas convencionais espalhadas pelo litoral fora de Bari. Ainda assim há uma pequena percentagem de armas químicas.

Nicola Ungaro está ligada a uma organização ambiental e acredita que os riscos de as retirar são muito maiores do que se forem deixadas no mar: “A opção de remover as armas químicas do mar seria a melhor coisa, porque dessa forma evitaríamos mais problemas. Mas o problema seria o que iria acontecer, quando as bombas estivessem em terra. A zona onde seriam eliminadas. Movê-las pode provocar um cenário pior com fugas de substâncias e isso podia ser pior do que as deixar onde estão.”

Para evitar o contacto com estas substâncias tóxicas, existem algumas zonas interditas à pesca e os pescadores receberam indicações sobre como lidar com as munições que possam encontrar.

O engenheiro ambiental Massimiliano Piscitelli vai mais longe. Diz que também existem bombas de fragmentação com urânio empobrecido lançadas por aviões da NATO depois do conflito no Kosovo em 1999: “A operação de limpeza das bombas, próximas da costa é extremamente cara e exige muito tempo e muitas pessoas. Também é perigoso, mas é a única opção, já que essas bombas foram despejadas apenas a uns 100 metros da praia, onde as pessoas nadam ou mesmo nos portos onde os pescadores estão ancorados”.

Itália não é o único país confrontado com um legado tóxico. Do Báltico até ao Mar do Norte existem milhões de munições químicas não detonadas que assombram as profundezas marinhas europeias.

A cerca de 500 metros ao largo da costa da Bélgica, existem 35 mil toneladas de munições químicas da Primeira Guerra Mundial. A pesca e a natação são proibidas. Os cientistas marinhos dizem que as munições estão enterradas de forma segura e a melhor opção é vigiá-las.

Jan Mees está à frente do Instituto Marinho de Flandres: “Deixaram-nos com toneladas e toneladas de munições. Principalmente alemãs, mas também outras. Muita ogivas químicas foram deixadas nos campos de Flandres. A zona estava repleta. Tiveram que se livrar delas de alguma forma. O governo da altura tomou uma decisão muito rápida e fácil, encontraram um areal onde as bombas foram enterradas, não muito longe da costa para que as possamos levar sem necessidade de grandes transportes marítimos. Todos os dias, durante seis meses um navio cheio de ogivas químicas descarregava nesse local.”

Jan Savelkoels trabalha numa empresa belga especializada na limpeza de munições submarinas. Demonstra que, com o tempo, a tampa de proteção do dispositivo fica corroída. Adverte ainda que algumas das munições químicas despejadas nos mares até ao início dos anos 90 vão começar a vazar e devem ser vigiadas, algo que exige muito dinheiro: “Temos de envolver as autoridades políticas neste problema e é exatamente o que a IDUM tenta fazer especialmente nos estados bálticos. Tentam explicar do ponto de vista da segurança, qual é o problema das munições não detonadas colocadas no fundo do mar. Estamos a falar do mar Báltico de 1,6 mil milhões de toneladas de munições. No Mar do Norte, estamos a falar de cerca de 1,3 mil milhões de toneladas.”

Matteo D’Ingeo é ativista ambiental e defende o seguinte: “Ficámos preocupados quando soubemos que as armas químicas seriam trazidas para cá e desmontadas ao largo da costa italiana. É preciso que nos expliquem o procedimento: este denominado sistema de hidrólise, se é seguro. Ainda não nos disseram onde vão eliminar os recipientes com os resíduos. Será no mar, e onde? Por vezes falam no Mediterrâneo, depois no oceano, mas, independentemente de onde vão ser armazenadas, isso vai ser um problema”.

Entretanto Michele e Giovanni também estão à espera de respostas. Do porquê de ainda não terem recebido os resultados dos testes: “Disseram aos pescadores para colocarem um fato e uma máscara anti-gás. E eu perguntei: onde é que eu trabalho? No mar ou numa fábrica de produtos químicos?

A profundidade deste legado nas profundezas marinhas é maior do que se possa imaginar, apesar da maior transparência dos governos sobre a localização destes depósitos de armas químicas.