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A Ucrânia a caminho do separatismo?

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A Ucrânia a caminho do separatismo?

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Todos os olhos estão postos na Ucrânia, onde o novo governo interino recebeu, esta quinta-feira, o aval do parlamento ucraniano.

Os ativistas de Maidan continuam a seguir atentamente as evoluções da política interna, como o prova esta manifestação, em frente ao Rada, o parlamento de Kiev.

Mas a Rússia também mantém um olhar mais do que atento ao que se passa no país vizinho e já vez saber que a nova administração interina não é um executivo de “união nacional”, mas sim um “governo de vencedores” que inclui “extremistas”.

Declarações de Moscovo no mesmo dia em que a bandeira russa foi hasteada no Parlamento de Simferopol, na Crimeia, província de maioria russófona no sul da Ucrânia, na qual se centram, agora, os olhares da Nato.

Depois de três meses de crise que afastaram do poder o presidente pró-russo, Viktor Ianoukovitch, a Ucrânia tem, agora, de construir um futuro político.

Em Kiev, a capital da Ucrânia, está Piotr Smolar, em duplex com a jornalista da euronews, Anne Devineaux.

euronews:

- Piotr Smolar é jornalista do diário francês Le Monde, especialista no espaço pró-soviético. Qual é a reação de Moscovo face aos acontecimentos?

Piotr Smolar:

- É uma reação a dois tempos. De um lado, há as relações superficiais previsíveis, como por exemplo, o Kremlin ordenar a revisão às tropas para verificar o grau de preparação em caso de conflitos maiores.

Há também as declarações, esta semana, bastante vigorosas, do primeiro-ministro, Dmitri Medvedev, que considerou que as novas autoridades de Kiev não eram verdadeiramente legítimas.

Mas Vladimir Putin mantém o silêncio. Podemos dizer que os acontecimentos em curso não lhe convêm nada. Mas, de momento, há uma certa retenção nas reações, enquanto espera o que vem a seguir.

euronews:

- A Ucrânia está a enfrentar graves dificuldades económicas. Será que o país pode conceber um futuro de costas voltadas para o vizinho russo?

Piotr Smolar:

- Retomando a sua expressão, não é por se virar as costas ao vizinho que o vizinho deixa de existir. A Rússia estará sempre na fronteira da Ucrânia. As ligações económicas entre os dois países são absolutamente essenciais para a Ucrânia, nomeadamente para as regiões industriais do leste e para um certo número de oligarcas, que estão entre as personalidades mais influentes do país.

O segundo ponto: é preciso observar o que se passou nos mercados nos últimos dias, pois é um indicador. As duas moedas, o rublo e a drivna. A moeda ucraniana perdeu 18% do valor desde janeiro. Isto significa que as novas autoridades ucranianas, vindas da oposição, vão ter de enfrentar um desafio absolutamente considerável. Por um lado, precisam de satisfazer Maidan, em termos de renovação das elites e do pessoal político, e por outro, salvar uma economia completamente à deriva.

euronews:

- Tem-se evocado a subida de tom da retórica antirrussa em Kiev, é verdade?

Piotr Smolar:

- Não é algo que eu tenha sentido. É preciso não nos enganarmos no debate. Temos tendência a caricaturar a sociedade ucraniana, apresentando-a como binária, numa confrontação entre o ocidente, que seria pró-europeu e nacionalista, e o leste, que seria pró-russo.

As coisas são muito mais complicadas e sensíveis. Relativamente ao sentimento antirrusso, há uma sensibilidade do povo de Maidan, que é extremamente forte em relação a qualquer tentativa de ingerência, o que é evidente.

Há a questão dos atiradores furtivos que dispararam sobre os manifestantes mais decididos e que provocaram dezenas de mortos. O sangue jorrou na praça que se vê por trás de mim, e há um certo número de responsáveis políticos e de simples cidadãos que estão persuadidos de que a mão de Moscovo está por detrás da operação dos misteriosos snipers, que ninguém conseguiu identificar.

euronews:

- O presidente interino ucraniano evocou sinais perigosos do separatismo, nomeadamente na Crimeia. O cenário do separatismo pró-russo é realista?

Piotr Smolar:

- É uma velha ameaça, o separatismo, nomeadamente na região da Crimeia, que é uma região ligada recentemente à Ucrânia por Krutchev, em 1957.

Efetivamente, as tensões nesta região são consideráveis, mas não é preciso exagerar o cenário catastrófico.

Não é certo que uma tal ‘fuga para a frente’ da Ucrânia e a concretização desta ameaça separatista sejam realmente do interesse da Rússia. As coisas são um pouco mais complicadas do que isto no terreno.