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Serhiy Taruta, governador de Donetsk: "Intervenção russa seria realmente perigosa"

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Serhiy Taruta, governador de Donetsk: "Intervenção russa seria realmente perigosa"

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Serhiy Taruta é o novo homem forte da província de Donetsk, na região de Donbass, no leste da Ucrânia. Multimilionário do setor industrial, é o 16.° oligarca mais rico do país e, entre vários cargos de responsabilidade, é também, curiosamente, presidente do clube FC Metalurh Donetsk, onde alinha um trio de futebolistas brasileiros: Júnior Moraes, Alexandre e Daniel.

Foi nomeado para o cargo a 2 de março, pelo novo governo interino da Ucrânia. Uma boa parte dos ucranianos que lutaram pelo novo governo torceu, contudo, o nariz, por ver um oligarca ser nomeado para um cargo de responsabilidade política. Foi também contra o poder dos oligarcas que eles tinham lutado.

Mas o novo governador é um homem influente e um gestor de reconhecidos méritos. É também um dos principais investidores na região e no fomento do emprego no leste da Ucrânia. Taruta será, à partida, um dos mais interessados em que a região não mergulhe no caos em que caiu, por exemplo, aparentemente a Crimeia.

No dia em que se votou na região autónoma da Crimeia um alegado referendo popular que aprovou a anexação na Federação russa sem sequer colocar a hipótese da permanência como parte da Ucrânia, em várias cidades do leste do país eclodiram manifestações antigoverno, nas quais dominavam as bandeiras russas. Em várias cidades do leste, exigia-se também um referendo como o da Crimeia. Donetsk assistiu ainda à invasão de vários edifícios públicos, incluindo o Parlamento regional.

Serhiy Taruta interveio. O governador ordenou a expulsão dos invasores e a prisão do cabecilha do grupo, Pavel Gubarev. Taruta repôs a tranquilidade na cidade e, em especial, nos edifícios públicos que haviam sido invadidos.

A acompanhar de muito perto tudo o que se tem passado na Ucrânia, desde que a revolta popular começou no final de novembro, a euronews foi ao encontro de Serhiy Taruta. A nossa correspondente, Angelina Kariakina, quis saber se Donetsk está em risco de se tornar na próxima Crimeia.

Angelina Kariakina, euronews: O que é que está a acontecer neste momento em Donbass, no leste da Ucrânia? Há muitas manifestações de apoio a um referendo de anexação da região à Rússia?
Serhiy Taruta, Governador da região de Donetsk: Essa é a retórica usada para desestabilizar a situação aqui. Eu percebo que seja um cenário criado para a Crimeia. Era a posição mais forte ali. Mas não é o que a região de Donbass precisa. As pessoas aqui exigem mais autoridade e querem o poder descentralizado. O Partido das Regiões e o Presidente Ianukovich ganharam muito apoio exatamente porque a descentralização foi prometida. Ele prometeu muitas outras coisas, mas infelizmente não as cumpriu. As pessoas desejam construir uma vida de felicidade com as próprias mãos. Isto é óbvio, e eu acredito, mas temos de agir de acordo com as leis e a lei diz que fazer um referendo é uma decisão que deve ser tomada ao nível do Estado.

euronews: Acredita que a Rússia pode vir a intervir no leste e no sul da Ucrânia?
Serhiy Taruta: Não acredito nesse cenário. Acredito em bom senso e inteligência. Isto não é a Crimeia. 97 a 98 por cento dos residentes aqui sabem que qualquer intervenção russa seria realmente perigosa e iria desestabilizar a vida da região. Iria levar-nos a um longo conflito. O lado russo também está ciente disso. Acredito, também, que estes cenários de manifestação representam um género de ataque psicológico para provocar as pessoas. Não vejo nenhuma ameaça, mas de acordo com as informações de que disponho, temos os meios suficientes para proteger a nossa região.

euronews: Qual é o sentimento no seio da polícia local? Existe algum indício de que possam vir a passar para o lado dos manifestantes?
Serhiy Taruta: A polícia, hoje em dia, sofre do chamado “síndrome pós-Maidan”. Eles receiam vir a ser criticados e condenados, tal como foram durante os protestos na Maidan de Kiev por terem recorrido a vários meios contra os manifestantes. O que conseguimos durante os primeiros dias em exercício foi mudar as chefias da polícia e dos serviços de segurança de Donetsk. Sentimos a diferença de imediato. Agora, a polícia é mais eficaz. Mas ainda temos muito por fazer e por mudar. Esperamos que as próximas semanas venham a ser completamente diferentes.