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Diplomacia americana revê relações com a Rússia

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Diplomacia americana revê relações com a Rússia

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Aproveitando a surpresa e inércia dos países ocidentais, eis que Vladimir Putin conseguiu, com o apoio de bandos armados encapuçados, realizar o golpe sonhado – anexar o territõrio ucraniano da Crimeia.

É num cenário imperial, que o ex-tenente-coronel da KGB reafirma o seu poder e rejeita lições do ocidente:
“Os nossos parceiro ocidentais, encabeçados pelos Estados Unidos, preferem, nas suas práticas políticas, guiar-se, não pelo direito internacional, mas pela lei do mais forte. Eles acreditam ter sido escolhidos e serem especiais, consideram ter a autoridade de decidir dos destinos do mundo e que são os únicos a ter razão. Agem como querem, aplicam o poder contra a soberania dos Estados, um pouco por todo o lado, constroem coligações baseadas no princípio ‘quem não está connosco, está contra nós’.”

Em apenas alguns dias, o objetivo estava alcançado: referendo, assinatura do tratado para incorporar a região da Crimeia, votação no parlamento.
Uns poucos dias durante os quais Kiev, Bruxelas e Washington estiveram paralisados.

Enquanto na Praça Vermelha os apoiantes desta demonstração de força aclamam a anexação da Crimeia, os ocidentais condenam a ilegalidade do processo, ameaçam com sanções. Palavras com pouco eco nos gestos. Há que se render à evidência: é demasiado tarde e é pouco provável a inversão dos acontecimentos.

Entretanto, os discursos são mais pesados. Barack Obama reitera que os ucranianos têm o direito de escolher o seu destino:
“A verdade é que a ação de Putin é um sinal de fraqueza e não de força. Não vamos envolver-nos numa intervenção militar na Ucrânia. O que vamos fazer é mobilizar todos os nossos recursos diplomáticos para garantir que temos uma forte coligação internacional que envia uma mensagem clara: que deve ser a Ucrânia a decidir do seu destino.”

É difícil prevêr o impacto da crise ucraniana nas relações entre os Estados Unidos e a Rússia. Para já, os contactos diplomáticos estão num impasse.

A agressão de Moscovo contra a Ucrânia deixou os responsáveis pela política externa em Washington consternados, mas não inteiramente confundidos.
Numa conferência realizada no Centro de Estudos Estratégicos (CSIS), os ex-conselheiros de segurança da Casa Branca, Zbigniew Brzezinski e Brent Scowcroft, analisaram a ação de Putin e o seu discurso de terça-feira no Kremlin. Os dois especialistas consideram que a anexação decidida por Putin pôs fim a um quarto de século de relações tensas, apesar de também construtivas, entre os Estados Unidos e a Rússia.

Segundo Zbigniew Brzezinski, as declarações de Putin lembram as de Hitler e a sua estratégia está a colocar em dificuldade a segurança europeia: “Temos de fazer sentir aos russos que as palavras ditas por Putin evocam teríveis memórias daquilo que Hitler dizia da Áustria antes da “Anschluss”, a que se seguiu a anexação dos Sudetas, e conhecemos bem o resto da história. E isto poderia revelar-se muito grave para a Europa, quer permaneçamos passivos face a esta tremenda explosão, ou se repita o que aconteceu na Crimeia e a Ucrânia se desmorone.”

Brent Scowcroft vê, na atitude do líder russo, sinais de um ressentimento saudosista da União Soviética:
“Putin é alguém muito diferente de Gorbatchev ou mesmo de Kruchtchev, ele tem também a perspetiva de alguém que estava na KGB e viu o colapso da União Soviética. Ele é uma pessoa cheia de ressentimento, pois acha que este colapso foi aproveitado pelos Estados Unidos para humilhar a Rússia.”

O certo é que uma nova era de insegurança começou na Europa, mesmo se nenhum destes estadistas evocaram um regresso à Guerra Fria.

Para o ex-conselheiro de segurança americano de origem polaca, “Putin tem de pesar bem as decisões”. Brzezinski pergunta se a Rússia está em condições de conduzir uma guerra no coração da Europa, “visto o estado da sua economia, que é muito mau, e o estado retardo do seu poder militar, que só agora começa a ser modernizado”. E acrescenta que “Se o tivesse feito há dez anos atrás, estaria em muito melhor situação. Neste momento, não me parece que Putin deseje iniciar um conflito sério nesta parte da Europa”.
De acordo com Brzezinski, o presidente russo “gostaria de ter um efeito rápido, a queda da Ucrânia ou tumultos no país”, e o ocidente tem agora “de o fazer entender, de forma construtiva, que isso é improvável, que temos também os nossos interesses.”

Para Brent Scowcroft, a ação de Vladimir Putin poderia ter sido prevista, se o ocidente tivesse tido em conta a situação económica da Ucrânia, mas tanto os Estados Unidos como a Europa foram demasiado lentos, neste processo.:
“A União Europeia propos à Ucrânia um estreitamento de relações. Era um pouco disto e um pouco daquilo, mais um pouco de outra coisa – não levou a nada… Putin continuou a rondar e propos um empréstimo de quinze mil milhões de dólares.O que os Estados Unidos poderiam ter feito naquele momento, e que penso deveriam ter feito, teria sido dizer: a economia ucraniana está em péssimo estado, é preciso que nós, Estados Unidos, a União Europeia e a Rússia, coloquemos à disposição da Ucrânia um programa de assistência financeira.”

A euronews perguntou a Zbigniew Brzezinski se considera que as sanções até agora impostas à Rússia são suficientes. O ex-conselheiro de segurança salientou que “Estas sanções são como a entrada num jantar, apenas a fase preliminar, nada de muito significativo”, acrescentando que espera que se sigam mais sanções.

Os responsáveis pela política externa em Washington estão profundamente consternados face à ação de Putin e à resposta europeia. A questão agora é saber se o Presidente Obama e os aliados europeus vão querer definir, na cimeira da Europa da próxima semana, uma resposta mais musculada.