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Eleições em França: Portugueses pesam na balança autárquica

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Eleições em França: Portugueses pesam na balança autárquica

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A França volta às urnas este fim de semana. Noventa mil candidatos vão a votos em mais de 36 mil comunas gaulesas. Com mais de 25 por cento (752), os portugueses estão em maioria nas listas de candidatos entre os estrangeiros oriundos de países da União Europeia (2743), bem à frente dos belgas (406) e dos britânicos (389). Só em Paris, há seis portugueses ou de origem portuguesa presentes nas várias listas. Em termos de eleitores inscritos e olhando também apenas à capital, a “mairie” contabilizou 14895 estrangeiros provenientes da União Europeia com poder de voto e só no 14.° “arrondissement” 301 são portugueses.

A disputa mais aguardada é, aliás, a que vai decidir o novo Presidente da Câmara da “cidade luz” para os próximos seis anos. Quase certo é que será, pela primeira vez, uma mulher a liderar a “mairie” da capital francesa. Isto porque são mulheres que estão à cabeça das duas principais listas na corrida: Hanne Hidalgo, pelo Partido Socialista (PS); e Nathalie Kosciusko-Morizet, conhecida pela sigla NKM, pela União para um Movimento Popular (UMP).

A favorita nas sondagens é Hanne Hidalgo. Nascida em Espanha há 54 anos, mudou-se para França ainda bebé, com a família, que emigrou para Lyon. Hidalgo faz parte do PS há cerca de duas décadas e desde 2001 é a vice-presidente da câmara de Paris, acumulando ainda as pastas do urbanismo e arquitetura.

Nathalie Kosciusko-Morizet é mais nova. Eleita em 2008 Presidente da Câmara na comuna de Longjumeau, 19 quilómetros a sudoeste de Paris, aos 40 anos sonha agora com a transferência para a capital francesa, de onde é natural.

NKM foi ministra do Ambiente no executivo de Sarkozy, entre novembro de 2010 e fevereiro de 2012, já foi também secretária de Estado e porta-voz do antigo Presidente da República.

Membro do Partido Socialista há pouco mais de duas décadas, Hidalgo é a favorita nas sondagens à frente de Nathalie Kosciusco-Morizet, a candidata pelo UMP, de direita, ex-ministra e porta-voz do antigo presidente Sarkozy. A experiência, contudo, não parece estar a ser-lhe favorável nas sondagens.

Mas a França não é só Paris. Um dos grandes desafios que se coloca ao país nestas eleições junta todos os candidatos no mesmo lado da barricada: a abstenção.

Em 2008, cerca de 40 por cento do eleitorado francês boicotou a segunda volta das municipais. O fantasma da desmobilização popular volta a pairar este ano sobre as urnas.

Outro dos receios, para muitos franceses, é o crescimento da extrema-direita. A Frente Nacional (FN) de Marine Le Pen – que é contra o voto de estrangeiros em França – tem os alvos bem definidos: segurar as cinco comunas que detém e alargar a influência ao máximo.

Com mais de 500 candidatos – entre eles, curiosamente, dezenas de portugueses, que poderão vir a perder, inclusive direito de voto se um dia a FN chegar ao poder -, a aposta da filha de Jean-Marie Le Pen passa por aumentar em 100 por cento o número de eleitos a partir Movimento patriótico “Bleu Marine”, que reúne várias forças da direita, por assim dizer, mais à direita. A própria Marine Le Pen, de 45 anos, espera passar de mera conselheira municipal a presidente da Câmara de Hénin Beaumont, comuna com cerca de 25 mil habitantes.

Mas é nos municípios com mais de 100 mil habitantes que os despiques vão estar mais acesos. Marselha, por exemplo, é liderada pela direita há quase vinte anos. Desde 2008, contudo, 28 das 42 cidades francesas com mais de 100 mil habitantes viraram à esquerda.

Com o PS arrastado pelas polémicas de François Hollande para os níveis mais baixos de sempre de popularidade, será que o domínio da esquerda se vai manter em França? E a extrema-direita de Marine Le Pen, será que irá continuar a crescer?

As respostas começam a ser dadas este domingo nas urnas. Procurando antever um pouco o que se vai passar em França, a euronews falou com um observador privilegiado do cenário político francês, Martial Foucault, diretor do Centro de Pesquisa do Instituto de Estudos Políticos de Paris (Science Po).

Laurence Alexandrowicz, euronews: Este domingo, os franceses têm as eleições autárquicas. Quais são os focos de maior interesse nestas eleições?
Martial Foucault: Há três pontos que se destacam. À cabeça, a fiscalidade ao nível local. O contexto orçamental francês acrescentou uma nova dimensão aos eleitores nos mais de 36 mil municípios : há uma carga fiscal a agravar-se. Em segundo, o mercado de trabalho: As taxas de desemprego local continuam a aumentar. Aliás, o mercado de trabalho continua a degradar-se em toda a França. Por fim – e este terceiro ponto é exclusivamente local -, a capacidade dos autarcas em gerirem os próprios municípios.

euronews: Mas também se fala muito da abstenção, que não tem parado de crescer. Há trinta anos era de 20 por cento. Nas últimas municipais, rondou os 40 por cento na segunda volta. Quem ganha com isto?
Martial Foucault: Para domingo, por acaso, muitas empresas de sondagens estão a prever um aumento histórico da abstenção. Algumas apontam para uma participação a roçar apenas os 40 por cento. Para compreendermos esta abstenção, há um ponto essencial que devemos realçar: a chamada abstenção diferencial. Devemos tentar perceber qual o partido que mais tem a ganhar com o aumento da abstenção. Olhando a este escrutínio local, a maior parte das cidades estão agora nas mãos de forças de esquerda. Partindo daí, para mim é evidente que quem tem mais a ganhar com a abstenção será a direita.

euronews: Será que essa abstenção também poderá ajudar a Frente Nacional? É uma previsão recorrente por estes dias.
Martial Foucault: Quando se fala em abstenção, fala-se na redução da participação dos eleitores. Isso afeta sobretudo os grandes partidos, que tem vindo a perder popularidade, tanto à esquerda como à direita. Os pequenos partidos acabam por ganhar vantagem com isso por terem eleitorados mais participativos. A Frente Nacional pode ser um desses partidos a beneficiar da abstenção, ao contrário das forças dominantes de centro esquerda e centro direita.

euronews: Em tempos de crise, não deveria haver mais interesse nas eleições municipais?
Martial Foucault: É muito difícil estabelecer uma ligação entre um contexto de crise económica e os níveis de abstenção. É verdade, no entanto, que em 2014 não se vive tanto uma crise económica, mas mais uma crise política senão mesmo democrática. Quando analisamos os diferentes barómetros de confiança dos eleitores franceses face às forças políticas, percebemos, de facto o paradoxo que é haver muito pouca confiança nos diferentes partidos, que recebem apenas oito por cento da confiança do eleitorado. Mas o Presidente da Câmara, as diversas instituições municipais, o conselho municipal, tudo isso recolhe a simpatia de mais de 60 por cento dos franceses.

euronews: Admitamos que há uma vaga de mudança à direita, com a UMP muito dividida entre tensões internas. Poderia isto convencer Nicolas Sarkozy a regressar à política?
Martial Foucault: “Penso que não vai haver qualquer onda de mudança na direita. Porquê? Porque tal como acabámos de referir, a Frente Nacional está cada vez mais presente e tem um certo número de candidatos que poderão passar à segunda volta das eleições, o que significará uma disputa a três. Pelo que temos visto em França, sabemos que quando há uma disputa tripartida e a Frente Nacional está presente, os mais prejudicados são os candidatos da direita. Eu diria antes que esta votação é tão local que os resultados não deveriam justificar o regresso de Sarkozy como se ele fosse o salvador da pátria. Isso, aliás, significaria que a direita tinha ganho estas eleições. Por outro lado, se a direita perder, então, sim, haverá condições para que Sarkozy se reapresente como alternativa à atual liderança da UMP.