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O dever de honrar a memória de 800 mil pessoas mortas no Ruanda


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O dever de honrar a memória de 800 mil pessoas mortas no Ruanda

Nasceram em 1994, no ano do genocídio. Transportam a chama da memória por todo o país. No Ruanda, em 100 dias do ano, foram assassinadas 800 mil pessoas. A primeira reportagem é da France 2.
A passagem da chama por todo o país, dá sempre aso a grandes reuniões a que todos os aldeãos devem assistipara ouvir os testemunhos dos sobreviventes do massacre e dos seus carrascos.
Théopiste é uma das abençoadas que, na altura, tinha 18 anos. O papel dela é testemunhar:
“Dois homens armados levaram-me para uma fossa onde já estavam reunidas uma vintena de pessoas. Foram todas mortas à minha frente. O carrasco chamava-se Toubouyé e comportava-se como um animal, executava um a um.”
Theopiste acompanha-nos e mostra onde as vítimas foram enterradas, quando a fossa ficou cheia.: “Foi para aqui que me trouxeram. É um milagre não ter sido morta e atirada para a fossa com os outros. Quando a minha vez chegou, o carrasco reconheceu-me por lhe ter dado, um dia, um cigarro. E disse que eu podia ir embora”.
Mas os sobreviventes não são os únicos a testemunhar aqunado a passagem da chama. Os carrascos também confessam ao público os seus crimes. É o caso de Xavier que, há alguns meses, também participou os seus atos no genocídio, quando tinha 31 anos:
“Matávamos tutsis com lanças, machetes e matracas. Eu matei seis num só dia, uma mulher e os quatro filhos, assim como uma criança de outra família.”
Xavier fez 9 anos de prisão e depois pediu perdão às famílias, famílias que conhecia no momento dos crimes, mas que disse rever ainda, pois vivem na mesma aldeia.
Perante o nosso ceticismo, fomos ver a tia das crianças que executou, Laurence, por quem passa diariamente, como se fosse uma coisa normal, banal. O diálogo é elucidativo:

- Eu perdoei-lhe sinceramente.

- De certeza?

- Sim, no meu coração já não há rancor.

Durante três meses passou-se no Ruanda o inimaginável, perante os olhos de todos. Um massacre levado a cabo por extremistas hutus , drogados e manipulados, contra tutsis e hutus moderados. A vaga de violência provocou a fuga de milhares. A SF1 filmou locais e sobreviventes:
Sente-se a tensão na colina da aldeia onde viviam hutus, de um lado, e tutsis, do outro. O passado está na memória de todos. Um sobrevivente tutsi, pai de família, mostra a cicatriz na cabeça:
“Tinha 14 anos, cortaram-me o crâneo e deram-me uma golpada nos joelhos para cair por terra”.
Centenas de milhares de pessoas não sobreviveram.
Tudo começou com o atentado contra o avião do presidente hutu.
Em reação, os milicianos hutus começaram a mar os vizinhos tutsis em todo o lado, nas ruas, nos campos, no local de trabalho, nas escolas, nas igrejas.
Um padre belga lembra:
“Muitos tutsis procuraram refúgio perto de nós, mas os hutus, fortemente armados chegaram e executaram homens, mulheres, crianças e mesmo bebés.”
Atualmente, vítimas e carrascos, vivem pertos uns dos outros neste país tão pequeno. É preciso ter uma grande coragem para chegar ao perdão.
Este casal é um bom exemplo. Ele é hutu e ela tutsi.
A mulher explica:
“No princípio, nem me atrevia a contar à família. Eles pensariam que o meu marido se ia vingar”.
Não o fez mas as memórias continuam a magoar, principalmente nestes dias….
Muitos não conseguem ultrapassar o drama, 20 anos depois. Para eles, o país é desolador, tem apenas um hospital psiquiátrico. Estão condenados a perdoar o imperdoável. Reportagem da TSR:
Mathias e Jacqueline, dois destinos opostos, dois olhares que mal se enfrentam. 20 anos depois do genocídio, ainda procuram palavras para o definir.
Sem receios, este condenado, já em liberdade, assume:
“Em 1994 matei várias pessoas. O Estado deu-nos adagas e espingardas. Matámos, demolimos as casas dos tutsis, destruímos tudo. Quando chegaram os homens do atual presidente, pensei que ia morrer, mas eles só me condenaram a 9 anos e meio de prisão”.
Uma das sobreviventes conta: “Eu tive sorte. Era uma menina quando os assassinos chegaram, às 11 da manhã. Um pouco antes, o meu pai tinha-nos pedido para ir buscar leite. Quando chegámos, encontrámos cadáveres por todo o lado. Os esquadrões já tinham partido, por isso corremos uns quilómetros até casa do nosso tio e fugimos todos para o Burundi.”
Jacqueline e Mathias são vizinhos. Os filhos brincam juntos, não por escolha, mas por imposição das autoridades. No Ruanda, 20 anos depois do genocídio, oficialmente deixou de haver hutus e tutsis; apenas ruandeses (mesmo no bilhete de identidade).
O chefe de família afirma: “o presidente agraciou-me, com a condição de eu me arrepender e pedir perdão, o que eu fiz, nomeadamente ao Estado e aos ruandeses. Quando saí da prisão não tinha mais nada. Participei na construção da aldeia e fabriquei tijolos. Hoje vivo numa destas casas.”
“Perdoei com o coração porque não tinha alternativa se quisesse continuar a viver. O que foi feito foi feito. Havia um país para reconstruir e tento contribuir como posso”, sublinha a sobrevivente.
Para terminar estas perspetivas, apresentamos o trabalho da televisão italiana da Suíça, RSI, que focou o papel da Igreja Católica, durante o genocídio, nomeadamente o silêncio que foi denunciado pelas autoridades de Kigali. Mas as matanças tambem se deram no interior das igrejas, e morreram padres que defenderam os que lá se abrigavam:
Não faltam pedras e tijolos para duas mil sepulturas . Estamos em Niange, no Ruanda. No dia de 16 de abril de 1994 a igreja estava cheia de fieis quando os buldozers a arrazaram.
Algumas colinas mais longe, é Kbuye., onde a Igreja foi restaurada. Entre muros, naquele ano, morreram duas mil pessoas.
“Tornámo-nos selvagens. Assassinos que deixaram de pensar em Deus. Como bestas. Não restou em nós nada de humano”, assume um dos envolvidos nas execuções em massa.
No Ruanda, em cada colina milhares de igrejas lembram a loucura do genocídio As pessoas tentaram refugiar-se, encontrar proteção divina, dos padres… mas os esquadrões armados de machetes investiram contra as igrejas.
Apesar de tudo, 20 anos depois, os domingos são normais. As igrejas católicas enchem para a missa. Mesmo que alguns critiquem a postura de muitos padres católicos da altura.
“Talvez nós, os homens da Igreja, tivéssemos feito melhor em nos tornarmos mártires, sair e enfrentar as milícias, para sermos mortos primeiro. A seguir eles teriam morto os cristãos ao lado. É que todas as ações de solidariedade saldaram-se pela morte imediata que quem quis proteger”, alega um padre.
Uma legenda local conta que, durante o dia, Deus percorre o mundo, mas à noite, dorme nas colinas do Ruanda. Duante os 100 dias de genocídio, Deus perdeu-se no caminho.
Por isso não colocam Deus em causa: “Deus nunca nos abandonou, Deus continua a vir ao Ruanda para dormir”.
“Durante o genocídio, se tivéssemos tido fé, não nos teríamos dizimado como selvagens. Deus não aceita que matemos quem Ele criou”, diz um outro.
“O genocídio não é um problema de Deus, que nunca esquece quem criou. Foi a ignorância que provocou o genocídio, a ignorância do nosso povo”, conclui o mais ajuizado de todos.

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