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Ivanovka: Um retrato do passado

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Ivanovka: Um retrato do passado

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Foi em 1834 que as primeiras casas russas foram construídas neste local. As famílias dos cristãos Molokans estabeleceram-se aqui depois de terem sido expulsos da Rússia. Estes dissidentes decidiram desobedecer às regras da Igreja Ortodoxa Russa. Os seus sucessores, ainda hoje, falam russo e mantêm as tradições dos antepassados.

Ivanovka é conhecida como a aldeia russa e famosa em todo o Azerbaijão. Os habitantes falam azerbaijanês mas mantêm, como língua materna, o russo. As crianças aprendem, desde cedo, a história do seu povo. Sabem que foi Catarina a Grande que os expulsou da Rússia e que depois de muito vaguearem chegaram a este local, que consideraram o Éden na Terra.

“Eles não aceitavam a ideia de ícones, pois rezavam, diretamente, a Deus. Catarina ordenou o exílio dos cristãos molokans da Rússia. Foi assim que tudo começou. Foram para muitos sítios”, explica o ancião Matvei Ermolov.

Sem ícones, velas, padres ou decoração ostensiva… É assim uma casa de oração dos molokans de Ivanovka.

Os crentes cantam hinos e os anciãos ficam no centro. Este grupo é chamado de “mor” e uma pessoa não se pode aproximar muito. Os anciãos cuidam da vida espiritual da aldeia. Tentam evitar os divórcios e explicam aos jovens por que é que beber álcool é muito mau.

Ermolov, explica que “os anciãos ficam sentados à frente. Se há alguma questão que é preciso resolver nós, os homens, ficamos depois da cerimónia e pensamos como poderemos solucionar o problema.”

Quase todas as casas de Ivanovka estão equipadas com um forno tradicional, estilo russo. Já não é utilizado quotidianamente, como antes, só em ocasiões especiais. Hoje é o aniversário de Valentina e por isso confeciona o prato mais famoso de Ivanovka, trazido pelos molokan, o “lapsha”, que significa massa.

“Na Páscoa, nos casamentos ou mesmo nos funerais, a nossa massa tem de estar na mesa. Sem a massa, significa que não é uma verdadeira festa,” assegura Velentina Serebryannikova.

Ivanovka é a única aldeia, no Azerbaijão, que mantém a prática de “kolkhozes”, as cooperativas agrícolas soviéticas. A população pediu às autoridades do país para manterem a prática. Na época da União Soviética esta era uma das áreas mais ricas. Os habitantes de Ivanovka não conseguem imaginar que toda esta terra possa ser privatizada e dividida.

Ivan Novoseltsev trabalhou, toda a vida, no “kolkhoz”. Depois da reforma dedicou-se à produção de mel. O ancião afirma que as flores locais são únicas e é por isso que o mel é tão saudável e saboroso. “Todas estas terras pertencem a Ivanovka. Quando os nossos antepassados ​​vieram para aqui havia árvores em toda a parte, que eles arrancaram com as próprias mãos. O que vemos agora é o fruto do trabalho dos nossos pais e avós”, assegura.

Ivanovka está recetiva a novas pessoas. John Howarth é da Grã-Bretanha e passou por aqui, um dia, em visita e decidiu ficar. John e a mulher, Tatiana, abriram uma hospedaria. Estão prontos para a nova temporada turística. Todos os alimentos utilizados na confeção dos pratos provêm do próprio quintal ou do dos vizinhos.

O britânico assegura que recebem “muitas pessoas provenientes da Europa ou do Oriente, por causa da Rota da Seda. Quando passam por Ivanovka, passam todos pela nossa casa, por isso temos todas as nacionalidades, aqui.”

Vizinhos de John, Anastasia e Vasili Polovtsev, adoram conhecer novas pessoas. Ficaram muito felizes em mostrar à euronews como vivem. Ao entrarmos na casa, o relógio anda para trás e é como se voltássemos ao tempo dos primeiros molokans de Ivanovka.

“Esta é a minha mala do enxoval, de quando nos casámos, em 1955, e contém o meu dote. Tinha 17 anos quando fiz este bordado e depois tornei-me uma esposa”, conta a anciã.

O casal continua a manter as tradições como rezar antes das refeições, trabalhar nos “Kolkhozes” e manter viva a sua fé. Anastasia e Vasili comemoraram o 58° aniversário de casamento e esperam que Ivanovka se mantenha inalterada.