Última hora

Última hora

Mohamed Ould Abdel Aziz: "Espero que África se converta na locomotiva da UE"

Em leitura:

Mohamed Ould Abdel Aziz: "Espero que África se converta na locomotiva da UE"

Tamanho do texto Aa Aa

A quarta cimeira União Europeia – África reuniu 40 chefes de Estado e de Governo africanos juntamente com os homólogos europeus, no início de abril, em Bruxelas.

Na agenda, assuntos como a crise na República Centro Africana ou a prosperidade no continente.

A União Europeia, com mais de metade do total dos investimentos, continua a ser uma base para apoiar este desenvolvimento. Os 28 comprometeram-se a financiar em 800 milhões de euros um plano para a paz e estabilidade colocado em marcha pela União Africana, cujo Presidente é atualmente o chefe de Estado da Mauritânia. Mohamed Ould Abdel Aziz esteve à conversa com a Euronews.

François Chignac, Euronews: Nos próximos anos avizinham-se taxas de crescimento que são mais positivas no continente africano. A média global no continente cifra-se em 5%. Neste contexto, no século XXI, é preciso por em marcha novas relações com a União Europeia.

Mohamed Ould Abdel Aziz, Presidente da Mauritânia: As relações devem continuar, mas devemos melhorá-las e colocá-las num contexto em que ambas as parte saiam vencedoras. Julgo que é útil para os dois continentes. Acredito que continuamos a precisar um do outro. Somos continentes complementares.

Francois Chignac, Euronews: A União Europeia e o resto do mundo compreenderam que se verifica verdadeiramente uma emergência de África, uma emergência económica?

Mohamed Ould Abdel Aziz, Presidente da Mauritânia: Acredito que sim, estão prestes a compreendê-lo porque é visível. Julgo que uma taxa de crescimento com uma média de 5% é visível. Devemos acompanhar, um pouco, a evolução deste mundo. E estamos prestes a fazê-lo. Pode até ser lentamente, mas fazemos de certeza.

Francois Chignac, Euronews: É preciso passar verdadeiramente aos fatos.

Mohamed Ould Abdel Aziz, Presidente da Mauritânia: Durante esta década, registaram-se muitos problemas, na Europa e em África. Problemas de instabilidade, de insegurança, problemas de crises económicas, de calamidades naturais, e que por vezes ou com bastante frequência, não deixaram aos dirigentes a escolha para colocar em prática as decisões tomadas. De toda a forma, a vontade está lá.

Francois Chignac, Euronews: A questão Centro Africana é muito delicada. Julga que a União Europeia deve aumentar o número de tropas no terreno ou acha que a União Africana e os próprios africanos devem assegurar e restabelecer a ordem neste país.

Mohamed Ould Abdel Aziz, Presidente da Mauritânia: Os africanos devem assumir esta missão. É verdade que é a nossa missão. A África está prestes a preparar-se para colocar forças especiais no terreno. Alguns países voluntariaram-se.

Francois Chignac, Euronews: Que países?

Mohamed Ould Abdel Aziz, Presidente da Mauritânia: Uma dezena de países.

Francois Chignac, Euronews: A segurança é, verdadeiramente, uma das questões mais importantes que tem a tratar, enquanto Presidente da União Africana, e nas relações com a União Europeia.

Mohamed Ould Abdel Aziz, Presidente da Mauritânia: Julgo que não podemos falar de desenvolvimento sem falar de segurança. Não podemos investir numa zona onde existe insegurança. É verdade que, especificamente na nossa zona, o Sahel, conhecemos muitos problemas de insegurança. Não tem apenas alguns meses, verifica-se praticamente há mais de uma década. Esta insegurança deve-se ao facto de que há uma presença massiva de terroristas que se desenvolveram na região e que continuam a mover-se impunemente. O terrorismo não conhece fronteiras.

Francois Chignac, Euronews: Em África, a cada ano, chegam ao mercado de trabalho 11 milhões de jovens. Não encontram emprego e frequentemente este problema radicaliza-os e empurra-os para uma forma de extremismo.

Mohamed Ould Abdel Aziz, Presidente da Mauritânia: Os ingredientes estão todos lá, efetivamente, para empurrar os jovens para o extremismo, desolação. É isso.

Francois Chignac, Euronews: Durante o seu mandato à frente da presidência da União Africana pensa insistir sobre estas questões?

Mohamed Ould Abdel Aziz, Presidente da Mauritânia: Já insisti neste ponto. O melhor meio para evitar que a juventude caia no terrorismo é evitar que seja continuamente excluída do desenvolvimento em África. É preciso qualificar os jovens, por isso é preciso que o sistema educativo possa responder a estas necessidades. E África tem muitas possibilidades. Exportamos, por exemplo, muitas matérias-primas, que transformadas em África, nos permitirão criar empregos, desenvolver, ganhar mais e inserir estes jovens.

Francois Chignac, Euronews: A União Europeia pediu muitas vezes aos países africanos, aos líderes africanos, para assumir e assegurar uma boa governação.

Mohamed Ould Abdel Aziz, Presidente da Mauritânia: Julgo que não cabe à União Europeia pedir a África para assegurar uma boa governação. Os africanos estão conscientes disso. Estão conscientes que um país não se pode desenvolver sem uma democracia e sem uma boa governação. Também sem o respeito e a integração de todos. Não podemos desenvolver um país enquanto existirem excluídos. Julgo que não compete à União Europeia ditar-nos, julgo que é uma escolha que devemos fazer nós mesmos.

Francois Chignac, Euronews: Em matéria de governação, certas pessoas colocaram em causa a sua ascensão ao poder. O que tem a dizer sobre isso?

Mohamed Ould Abdel Aziz, Presidente da Mauritânia: Havia dez candidatos e a Mauritânia só podia eleger um. Por isso os nove candidatos que não tiveram oportunidade sentiram-se frustrados e disseram que as eleições não decorreram de forma transparente. Mas é sempre assim. Não estão satisfeitos, mas estão à porta – as próximas eleições em junho – cabe-lhes apresentarem-se ao escrutínio que será transparente como nas eleições passadas.

Francois Chignac, Euronews: Então está otimista face às eleições do próximo mês de junho no país?

Mohamed Ould Abdel Aziz, Presidente da Mauritânia: Estou otimista pelo meu país. No meu país, a democracia está a ancorar-se no espírito das pessoas e na nação.

Francois Chignac, Euronews: Ouvimos por parte da União Africana, antes do senhor assumir o cargo na presidência, mas também por parte de alguns países africanos, críticas face ao Tribunal Penal Internacional.

Mohamed Ould Abdel Aziz, Presidente da Mauritânia: É uma perceção que os africanos têm porque as pessoas na barra dos tribunais são, grande parte, africanos. É isso que leva os africanos a pensar que se trata de um tribunal especializado apenas no julgamento de africanos. Estamos prestes a debater este problema. É desejável que, como em relação à segurança, os africanos se possam encarregar das coisas eles mesmos.

Francois Chignac, Euronews: Defende, então, um Tribunal Penal Africano.

Mohamed Ould Abdel Aziz, Presidente da Mauritânia: Defendo um Tribunal. Não vejo porque enviaremos pessoas para serem julgadas no exterior. Podemos julgá-los, podemos prender, é o mínimo. Temos magistrados muito competentes que podem fazer esse trabalho.”

Francois Chignac, Euronews: Veremos um Tribunal Penal Africano?

Mohamed Ould Abdel Aziz, Presidente da Mauritânia: É esse o meu maior desejo.

Francois Chignac, Euronews: É um desejo partilhado por outros países da União Africana?

Mohamed Ould Abdel Aziz, Presidente da Mauritânia: Efetivamente.

Francois Chignac, Euronews: Acredita que África se tornou na locomotiva da União Europeia ou que se poderá vir a tornar?

Mohamed Ould Abdel Aziz, Presidente da Mauritânia: Acredito e desejo isso mesmo. Temos os meios e a ambição. Julgo que é principalmente a ambição que conta.

Francois Chignac, Euronews: Se tivesse de resumir as suas esperanças sobre o continente africano para os próximos anos, o que diria?

Mohamed Ould Abdel Aziz, Presidente da Mauritânia: Para mim, o futuro de África será próspero, estável, seguro. Uma África unida.

Francois Chignac, Euronews: E veremos isso?

Mohamed Ould Abdel Aziz, Presidente da Mauritânia: Uma África que acompanha o desenvolvimento no mundo na arena internacional, tendo também um papel político e de segurança a jogar.