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Pobreza infantil em Portugal

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Pobreza infantil em Portugal

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A austeridade como resposta a crise é um dos temas incontornáveis das eleições europeias pelos sérios impactos sociais que teve nos paises resgatados pela troika. É o caso de Portugal, onde estamos para falar de pobreza infantil. Será que além da geração perdida de jovens desempregados, a crise também hipotecou a vida de milhões de crianças?

Mais de um terço das crianças portuguesas (28,6%) já estava em risco de pobreza quando o país foi resgatado pela troika em 2011.

Desde essa altura, a austeridade teve um forte impacto na vida dos mais novos: cerca de 500 mil ficaram sem abono de família e 120 mil dependem de ajuda alimentar para escapar à fome.

No Porto, a instituição “Qualificar para Incluir” trabalha com 480 famílias desfavorecidas. Os adultos aprendem a cozinhar, as refeições são servidas a 50 crianças que também têm apoio escolar.

Suade Fati é uma das crianças que recebe ajuda desta instituição. Aos 12 anos, Suade explica que “a mãe só pode comprar um tipo de comida, mas às vezes queremos mais coisas mas a minha mãe não pode comprar. O meu tio ajuda a minha mãe a comprar roupas para nós.”

A menina de doze anos vive com a mãe e o irmão mais novo. Bana Fati tem problemas de saúde, não pode trabalhar. Recebe 215 euros do Rendimenso Social de Inserção e 150 de abono. Mas só de renda paga 300 euros.

Bana garante que “é muito difícil pagar a renda. Muito difícil mesmo e fico com pouco dinheiro para a comida. Se não pagar a renda sou despejada. E para onde vou viver com os meus filhos? Pagar a renda é a minha maior preocupação.”

Entre 2010 e 2012, o governo cortou o Rendimento Social de Inserção a cerca de 50 mil famílias.

Há 65 anos a trabalhar como comerciante, José Marques Junior é testemunha do desespero de muitas pessoas. José diz mesmo que “as famílias novas têm dificuldades. Os empregos não são seguros. Trabalham alguns meses e ficam de novo desempregados.”

Para além dos cortes nos apoios sociais, também o desemprego dos adultos afeta as crianças. Cerca de 800 mil portugueses não têm trabalho, 17% da população ativa. E mais de 85% destes desempregados têm filhos.
Há quem já nem sequer tenha subsídio de desemprego nem Rendimento Social de Inserção.

É o caso da família de Rúben Malhadinha. Aos doze anos já tem propostas a fazer ao governo: “As coisas são caras e deviam baixar de preço. Outras coisas deviam aumentar como o salário mínimo e o Rendimento Social de Inserção.”

Rúben e a irmã de cinco anos vivem com a mãe solteira, desempregada e que recebe 146 euros de apoio escolar e 70 euros de abono. Sobrevivem com a ajuda da avó, que faz limpezas e tenta, com alguma criatividade, pagar as contas e ajudar a família. Elvira Malhadinhas explica: “Num mês pago a luz mas no mês seguinte fico à espera do aviso de corte e paga o serviço de televisão. Às vezes peço dinheiro emprestado à minha irmã para pagar a renda até receber o meu salário no final do mês. Depois pago mas faço este ‘cambaleio’ de um mês para o outro.”

A diretora da instituição “Qualificar para Incluir” defende que Portugal têm de inverter este padrão de empobrecimento nas próximas gerações.
Cidália Queiroz acredita que a política de habitação é um dos fatores desta pobreza: “Há formas de habitação social que são, na minha perspectiva, autênticos atentados contra a humanidade. Há crianças que vivem em lugares onde não é possível crescer, não é possível aprender valores positivos, onde se aprende a ser desviante e onde se aprende a considerar a subcultura desviante como uma coisa normal.”

Nos próximos sete anos Portugal vai receber 1600 milhões de euros do Fundo Social Europeu. Dinheiro que deve ser usado em programas de luta contra a pobreza. Mas esta é apenas uma gota no oceano das necessidades das crianças do país.

“A austeridade conduz a uma negação ou violação dos direitos das crianças”. Esta é a principal conclusão de um relatório da Convenção dos Direitos das Crianças em Portugal do início deste ano. O documento foi elaborado pela a Comissão Portuguesa da UNICEF e nove organizações não governamentais do país.

A euronews entrevistou Madalena Marçal Grilo, diretora da UNICEF Portugal.

Madalena Marçal Grilo, Unicef Portugal:
“Há um fator muito importante e com grande impacto sobre as crianças que é o desemprego. O desemprego é um fator que tem um peso enorme, primeiro pela privação enorme que isso representa para as famílias na diminuição dos rendimentos. Mas também na menor disponibilidade que os pais têm porque estão preocupados, porque têm muitas vezes de procurar formas alternativas e procurar algumas atividades que lhes possam dar algum rendimento.”

Isabel Marques da Silva, euronews:
“Pode estabelecer-se a relação entre o aumento da pobreza em Portugal e este programa de austeridade que o país sofreu nos últimos três anos?”

Madalena Marçal Grilo, Unicef Portugal:
“Digamos que há pobreza material, porque as famílias agora têm menos rendimento disponível, os acessos a prestações sociais também diminuiram como, por exemplo, o abono de família, a ação social escolar, porque se tornaram mais restritos.”

Isabel Marques da Silva, euronews:
“De que maneira é que esta situação têm impacto no futuro das crianças?”

Madalena Marçal Grilo, Unicef Portugal:
“O impacto da pobreza hoje e da diminuição de oportunidades vai refletir-se também no futuro das crianças: na qualidade da educação, na sua capacidade de socialização, de aprendizagem e mais tarde na sua capacidade de produtividade.”