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"Cortina de ferro" na UE divide muito ricos dos muito pobres

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"Cortina de ferro" na UE divide muito ricos dos muito pobres

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Após vários anos de expansão da União Europeia (UE), o continente parece estar mais unido, mas na realidade existe uma “cortina de ferro” que divide o Leste do Ocidente.

A nossa equipa visitou o estado-membro mais rico (Luxemburgo) e o mais pobre (Bulgária) da UE para perceber o que está por detrás dessa assimetria e o que poderia Bruxelas fazer para combater a pobreza.

A maior rua comercial de Sófia, capital da Bulgária, não nos dá muitos sinais de que este é o mais pobre dos 28 países da UE.

Mas a poucos quilómetros do cento surge Fakulteta, um bairro com 30 mil pessoas, na maioria de etnia cigana, muito marcado pelo desemprego e pobreza, como contam os próprios moradores.

“Mesmo sem um emprego, temos de nos sustentar, mas ninguém nos ajuda”, diz um dos habitantes. “Algumas pessoas são honestas, mas outras só roubam e vivem de esquemas. A polícia às vezes finge fazer alguma coisa”, diz outra.

Graças à assistência prestada pela Fundação para a Saúde e o Desenvolvimento Social, as coisas começam a mudar lentamente.

A trabalhar com a comunidade há 15 anos, Elena Kabakchieva já vê alguns resultados: “A idade em que os jovens se casam passou dos 14/16 anos para os 18/20 anos, em média. O abandono escolar é agora muito menor do que costumava ser antes de terem acesso aos nossos serviços”.

A fundação gere um jardim de infância e dá apoio às famílias. Os projetos são co-financiados pela UE, mas Elena Kabakchieva diz que é preciso uma abordagem mais ambiciosa.

“Todos os especialistas nesta área estão convictos de que são necessárias medidas a longo prazo”, refere.

O “cancro” da corrupção

Com a queda do regime comunista, há 25 anos, a economia entrou em colapso e ainda não recuperou. O rendimento médio mensal per capita é de pouco mais de 300 euros.

Contudo, desde a adesão em 2007, o país recebe da UE muitos milhões de fundos comunitários.

O jornalista Assen Yordanov diz que “a corrupção na Bulgária é como um cancro que mina toda a sociedade”.

Os projetos de desenvolvimento em zonas turísticas do Mar Negro são o exemplo dado por Assen Yordanov. Áreas protegidas foram desclassificadas para serem vendidas a investidores que depois as revenderam por um preço 100 vezes mais elevado.

“Apostar na construção civil não é a melhor forma de desenvolver o país e o seu turismo. É antes a oportunidade para que algumas estruturas de oligarcas e mafiosas possam encher os bolsos”, diz o jornalista.

O deputado Ivalo Kalfin, de centro-esquerda, reconhece que o padrão de vida na Bulgária está longe do que seria desejável ao fim de sete anos na UE.

“Os cidadãos esperavam muito mais a nível social, o que não aconteceu. Já os jovens, os empresários ou os cientistas estão mais apetrechados para aproveitar o que vem da UE”, explica.

Podemos ver esse otimismo em Maria Angelova, de 26 anos, editora num sítio da Internet dedicado a viagens.

“Agora consigo ver muitas coisas a mudar e muitos dinheiro europeu é investido em bons projetos. Acho que, passo a passo, muito lentamente, as coisas vão melhorar”, diz a jovem.

“Qual problema? Não há problemas aqui!”

Em contraste com Bulgária, o Grão Ducado do Luxemburgo é o país mais rico da UE, com um rendimento médio per capita de 3200 euros.

O pequeno país, com meio milhão de habitantes, apostou nos setores bancário e de comunicação.

A euronews teve dificuldade em encontrar quem esteja descontente com a qualidade de vida, quando o repórter perguntou “qual é o maior problema no Luxemburgo?”

“O maior problema? Na verdade vivo aqui há já vários anos e gosto muito. Não vejo que haja qualquer problema”, disse uma residente. “O maior problema? Não vejo nenhum problema, é tudo tranquilo, bem organizado. É um prazer viver e trabalhar neste país”, respondeu outro.

O enviado da euronews, Sandor Zsiros falou com Harlan Koff, professor na Universidade de Luxemburgo, sobre as assimetrias sociais na UE, que começou por explicar o sucesso do Luxemburgo.

Harlan Koff/professor de Ciências Sociais da Universidade de Luxemburgo (HK/professor): “Em primeiro lugar, o país encontrou um nicho a nível económico, que é o setor bancário. Em segundo lugar, o Luxemburgo dá muita importância à estabilidade e não apenas ao crescimento. Isso significa que há uma classe média forte no Luxemburgo. “

Sandor Zsiros/euronews (SZ/euronews): “O que explica a extrema pobreza que vemos nalgumas regiões da Europa?”

HK/professor: “Nessas regiões da Europa a que se refere, a classe média está a sofrer de forma muito significativa. Está a ficar para trás e a encolher. São regiões que a nível económico estão dependentes das fábricas, construção civil, indústria e por isso estão a ficar para trás. Esses são os setores onde o desemprego está a aumentar mais na União Europeia.”

SZ/euronews: “Pensa que a corrupção é um fator que também explica a pobreza?”

HK/professor: “Penso que a corrupção é um fator, mas não é simplesmente uma questão de subornos. Quando falamos de corrupção, também falamos das redes de pressão informais que influenciam a forma como os líderes fazem a legislação. A falta de regulamentação põe em causa a confiança no Estado, cria desconexões entre o estado, por um lado, e o mercado, por outro, criando um sistema paralelo. Quando os cidadãos trabalham no sistema paralelo ficam em risco, vulneráveis e isso leva à pobreza”.

SZ/euronews: “Pensa que a União Europeia foi bem sucedida na luta contra as assimetrias sociais na Europa?”

HK/professor: “A UE investiu muito em infra-estruturas. Agora o problema é que, depois de terem criado as infra-estruturas, não têm sido capazes de resolver alguns problemas mais estruturais em diversas regiões, como o da economia paralela”.

SZ/euronews: “O que mais deve fazer a UE no futuro nesta área em concreto?”

HK/professor: “A chave para enfrentar a pobreza – se encarada do ponto de vista estrutural – está no reforço da classe média. Isso significa apostar num desenvolvimento equitativo. Mas, por exemplo, 52 milhões de europeus não têm sequer acesso a uma conta bancária. A UE começou agora a abordar essa questão do direito a ter uma conta bancária. É impossível sair da pobreza ou criar uma classe média forte quando os serviços bancários não são acessíveis seja para abrir conta, obter um empréstimo ou um cartão de crédito.”