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O descontentamento italiano

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O descontentamento italiano

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Em Itália, surgiu um movimento que queria dar voz à cólera do povo contra a ineficiência do sistema político. Agora atacam a UE por causa da austeridade. Este movimento chama-se “Cinco Estrelas” e fomos até à Sicília para observar o seu sucesso e as suas contradições.

Viagámos até Catania, no sudeste da Sicilia, onde o desemprego chega aos 25%. A classe política é acusada de não encontrar respostas para a crise económica.

O movimento “Cinco Estrelas foi criado neste clima de protesto. Este movimento de cidadãos venceu as eleições regionais na Sicilia em 2012, antes do sucesso nas eleições nacionais de 2013.

Massimo Violetta perdeu o trabalho porque causa de uma investigação das relações entre a mafia, política e negócios, que chegou mesmo a envolver o antigo presidente da região. Massimo explica que este “é o movimento político que pode devolver esperança a um Estado como o nosso, colapsado por causa dos políticos”. Levar o interesse dos cidadão ao coração das instituições europeias é a ambição deste candidato.

Simona Suriano tem 34 anos, é advogada e desde 2007 que participa no blog de Beppe Grillo, plataforma que lançou o movimento e considerado pelo jornal britânico The Guardian, um dos 50 blogs mais influentes do mundo. Simona vai bater-se para renegociar as regras europeias que impoõe a redução drástica das dívidas públicas. “A dívida não foi criada por nós, pelos cidadãos. Não sabemos porque cresceu tanto. Por isso esta dívida pode ser considerada imoral, temos de negociar porque temos muitas dificuldades e não somos capazes de pagar a dívida agora”, garante a advogada.

O movimento “Cinco Estrelas” ameaça organizar um referendo contra o euro, quer recuperar o crescimento e o emprego e a aposta nas energias renováveis ​​e tecnologias digitais.

Para discutir estas propostas e para supervisionar o trabalho dos representantes eleitos, ativistas reunem-se regularmente. Antony Rapisarda, um dos ativistas, está desempregado e garante que “pode pedir aos políticos para que prestem contas das suas ações, quando estão reunidos na praça. Podem dar-nos o microfone para que façamos perguntas aos políticos.”

De qualquer forma, a democracia direta também não é perfeita. Em Ragusa, a cerca de 150 km de distância, no ano passado, o movimento conquistou a autarquia. Mas o novo Presidente da Câmara, Frederick Piccitto, já teve de lidar com desentendimentos dentro da própria maioria, sobretudo em matéria de gestão de resíduos. Além disso, tem sido criticado pelos sindicatos por não dar respostas concretas ao desemprego.

Perguntámos-lhe se não tem medo de se tornar refém do próprio ativismo. Piccitto respondeu: “posso dizer-lhe que uma coisa é estar no governo, outra bem diferente é estar na oposição. Durante os debates temos ideias muito claras sobre o que fazer, mas quando se está a governar passamos a ter uma ideia muito clara das dificuldades reais”.

Então, quais são os pontos fracos do movimento de cinco estrelas? Professor de ciência política local, Raniolo Francis fala de uma certa inexperiência política, mas não só : “ a tensão entre os líderes do movimento com as bases, o resto do partido, é uma questão importante. Além disso, outro dilema é a chamada para a participação e o papel de controlo e segurança da “ ética do movimento” feito pelos seus líderes Grillo e Casaleggio .

Para preservar a unidade do grupo Beppe Grillo pediu aos futuros deputados que se comprometessem a pagar uma multa de 250.000 € a favor do movimento em caso de violações graves. É a maneira que encontrou de mostrar que são diferentes dos atuais políticos italianos

A enviada especial da euronews visitou um dos mais respeitados jornais italianos, La Repubblica, para analisar em maior profundidade o papel do Movimento Cinco Estrelas com Concetto Vecchio, editor de política. Começamos por perguntar se este país fundador da União, perdeu a confiança no projeto europeu.

Concetto Vecchio/jornalista: “A Europa é vista como uma madrasta má que impôs regras draconianas, restritivas num momento em que o país está esgotado. Estas restrições são vistos como prejudiciais em termos de crescimento”.

Margherita Sforza/euronews: “Até que ponto este tom autoritário do movimento vai influenciar a sua capacidade de agir a nível europeu?”

Concetto Vecchio/jornalista: “O Movimento Cinco Estrelas é definitivamente um movimento autoritário e é liderado por duas pessoas, Beppe Grillo e Gianroberto Casaleggio. A motivação democrática é apenas aparente. Ninguém pode sobressair, há regras pouco claras e quem desobedece é expulso”.

Margherita Sforza/euronews: “Há outras forças eurocépticos na Europa, que gozam de consenso alargado. Acredita que este movimento se poderá coligar com essas forças?”

Concetto Vecchio/jornalista: “Pelo vemos da atuação de Grillo na cena política este ano, deu a impressão de ser uma pessoa incompatível com outros grupos e com o conceito de aliança”.

Margherita Sforza/euronews: “Grillo e o seu movimento cívico será capaz de dar uma estocada na “Europa dos banqueiros” e reaproximar as pessoas da política europeia?”

Concetto Vecchio/jornalista: “Grillo é um grande agitador. Temos de reconhecer o ânimo e energia que o movimento criou na política italiana. Muito se tem feito por causa da ameaça que representa. Sobre a possibilidade de criar uma nova classe dominante, de criar uma nova política, mais positiva, penso que Grillo e os seus seguidores deixam muito a desejar”.