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UKIP lidera luta para tirar Reino Unido da UE

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UKIP lidera luta para tirar Reino Unido da UE

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O primeiro-ministro britânico, David Cameron, apelidou os membros do Partido da Independência do Reino Unido (UKIP) de “doidos, malucos e racistas envergonhados”.

Mas, agora, as sondagens indicam que pode vencer as eleições europeias. Afinal quem são os membros do UKIP e quem é que vota nele?

Será só uma espécie de “Partido Conservador no Exílio” ou está a atrair também eleitores trabalhistas, desiludidos com a viragem do seu partido para o centro?

Nigel Farage, líder do UKIP, promete um terremoto político nas eleições europeias. O eurodeputado deste partido ultraconservador e eurocético está a viajar por todo o Reino Unido parar criar o que chama de “Exército do Povo”.

Defende um combate cerrado contra a imigração e quer mesmo que o país abandone a União Europeia, à qual aderiu há 40 anos.

Com mais votos garantidos no sul do país, o UKIP tenta convencer os eleitores de outras regiões como Manchester, terceira maior cidade da Grã-Bretanha, onde também esteve o enviado especial da euronews.

No antigo coração da revolução industrial, há muito que fecharam as portas das fábricas.

A cidade tornou-se mais cosmopolita, com apartamentos de luxo, escritórios caros e bares sofisticados. Contudo, desemprego ronda os 8%.

O UKIP conseguiu ficar em segundo lugar numa eleição municipal intercalar e acredita que pode conquistar mais apoiantes entre a classe média trabalhadora, mais afetada pela crise.

O enviado da euronews falou com vários habitantes e recebeu reações mistas.

“Não deveríamos ser governados por gente de Bruxelas. Devemos ser nós a decidir sobre o nosso país. E a imigração, bem, penso que já está para lá do razoável”, disse um taxista. “Há jovens neste país que precisam de empregos. É tão simples como isso, não acha? Não me importo que entrem alguns imigrantes, mas não quero uma invasão”, disse outro habitante.

“Penso que o UKIP é muito fascista no que se refere aos trabalhadores que vêm para este país. Falo com experiência de causa porque trabalhei em plantações de flores, etc, e vi que muitos europeus que para cá vêm geralmente arranjam emprego nas áreas em que os britânicos já não querem trabalhar”, é a opinião contrária de um jovem.

“Penso que ele é demasiado de extrema-direita para o meu gosto. Tem um discurso inflamatório e acho que diz coisas perigosas. Basicamente não gosto da pessoa”, disse outra residente.

Os “políticos de carreira”

John Bickley já votou nos trabalhistas e depois nos conservadores, mas aderiu ao UKIP, tendo concorrido à recente eleição intercalar numa das localidades da região de Manchester. O ex-produtor musical argumenta que as pessoas já não se revêem nos chamados “políticos de carreira” .

“Olho para as bancadas parlamentares dos partidos Trabalhista, Conservador e Liberal e penso: “Será que algum deles já teve um emprego a sério? Saberão mesmo o que é ter de pagar as contas no final do mês? Aquelas pessoas simplesmente não conseguem, na maioria dos casos, compreender realmente os eleitores”, afirma John Bickley.

Para saber até que ponto o UKIP pode atrair os votos da classe média, que tradicionalmente são dados os partidos do centro-direita e do centro esquerda, dois académicos realizaram um estudo com 100 mil entrevistas.

Rob Ford, da Universidade de Manchester, explica que, de facto, “é sobretudo uma revolta da classe trabalhadora. São sobretudo homens, brancos e da classe trabalhadora. Tendem a mostrar-se muito descontentes com a política, a serem anti-UE e também anti-imigração”.

“Os apoiantes do UKIP realmente tendem a ser conservadores que estão descontentes e se os entrevistar ou for aos comícios acaba a pensar: “isto parece o Partido Conservador no exílio. Mas os que colocam a cruz no UKIP no boletim de voto pertencem a um grupo diferente”, acrescenta.

Os partidos britânicos tradicionais costumavam desdenhar do UKIP, mas muitos analistas dizem que já moldam o seu próprio discurso para não perderem tantos chamados votos do descontentamento.

O enviado especial da euronews tentou entrar em contacto com oito políticos trabalhistas na área de Manchester, mas apenas o candidato Afzal Khan aceitou o convite.

“Pode falar quanto quiser de sondagens e estudos académicos, mas a questão de fundo é que, há não muito tempo, tivemos uma eleição num município em Manchester e conseguimos reforçar a nossa votação, enquanto que o UKIP ficou num muito distante segundo lugar. Somos os únicos que fornecem soluções, sabemos que o governo conservador está a desiludir a população do noroeste e que UKIP também não tem qualquer solução que se veja”, disse Afzal Khan.

Uma aliança de populistas?

Mas um sinal de que o UKIP não pode ser menosprezado é a onda eurocética que se propaga pelo Reino Unido. Afinal, o atual primeiro-ministro tem como principal promessa para as próximas legislativas realizar um referendo sobre a permanência do país na UE.

De volta à conversa com Rob Ford, o enviado da euronews questionou até que ponto o UKIP faz parte da tendência anti-sistema que se vê por toda a Europa.

“Diria que faz parte da nova onda da direita radical que se está a espalhar pela Europa há duas décadas, de que são exemplo pessoas como Geert Wilders, Marine Le Pen e partidos populistas como os da Suíça e da Áustria. São partidos muito semelhantes ao UKIP. Há de facto esta tendência numa parte do eleitorado que se sente excluída, deixada para trás devido às mudanças das últimas décadas e que se transfere para os partidos anti-sistema”.

Marine Le Pen e Geert Wilders já convidaram Nigel Farage para uma aliança no Parlamento Europeu. O jornalista da euronews perguntou ao professor de Política a se isso é positivo ou negativo para o UKIP.

“Seria mau para o UKIP. Na verdade, esses convites são muito úteis porque o partido continua publicamente a rejeitá-los. Dessa forma, pode continuar a dizer que não é como a Frente Nacional ou como o partido de Geert Wilders. Que não é um partido ligado ao racismo e às questões de identidade, mas um partido moderado ao qual outros se querem associar. Como que a dizer que poderiam beneficiar da aliança, mas que não querem ter nada a ver com esse tipo de políticas. Internamente é vantajoso porque contesta a acusação de ser um movimento extremista”.