Última hora

Última hora

Será que a caneta e papel se vão tornar objetos de museu?

Em leitura:

Será que a caneta e papel se vão tornar objetos de museu?

Tamanho do texto Aa Aa

A escrita tem sido um dos pilares do ensino. Mas esta tecnologia de comunicação parece perder terreno face aos novos dispositivos eletrónicos.

Muitos investigadores acreditam que a comunicação manuscrita se vai tornar num gesto obsoleto.

Os grandes culpados são os teclados e os tabletes. Nos últimos anos as vendas de dispositivos eletrónicos dispararam: entre 2010 e 2014 o crescimento foi exponencial.

Muitas escolas aderiram às novas tecnologias e começam a por em causa a centralidade da escrita.

Na região de Genebra, o Colégio Leman, uma escola privada de língua inglesa, gastou 800 mil euros para equipar todas as salas de aula com tabletes.

Cada aluno tem um tablete equipado com programas pedagógicos específicos.

A professora dá aulas com um tablete na mão. Em vez do tradicional quadro negro com giz branco, há um projetor vídeo na sala.

“É preciso ter em conta as competências necessárias no século XXI, aquelas de que as crianças precisarão na vida profissional. Ao mesmo tempo, o facto de escrever permite ligar entre elas zonas do cérebro diferentes das que usamos quando escrevemos no teclado”, sublinha Evelyne Viret, professora no Colégio Leman.

Claire Clivaz faz parte do laboratório das culturas digitais da Universidade de Lausanne.

A investigadora suíça considera que o desaparecimento da caneta representa um choque civilizacional, um evento tão importante quanto a invenção da impressão por Gutenberg no século XV.

“Estamos talvez na linha da frente de uma grande mudança. Ainda temos dificuldade em admitir que vamos deixar de escrever à mão, veremos, mas penso que somos capazes de nos adaptar e de trirar partido das novas formas de escrita. No iphone e no ipad escrevemos à mão. o que se perde é o contacto com o papel. Essa mudança de relação entre o corpo, a escrita e o papel
é uma mudança de civilização importante. O filósofo Jacques Derrida falava numa nova fase histórica geradora de angústia. Vou observar com atenção a nova cultura que se vai desenvolver com os dispositivos eletrónicos. O lugar da escrita altera-se e avançamos para um cultura ‘texto-imagem-som’. A imagem e o som tornam-se mais importantes do que o texto”, considera Claire Clivaz.

Sabe-se que a aprendizagem da escrita influencia o desenvolvimento cognitivo das crianças. Mas, por enquanto, não há provas de que o uso de um teclado seja melhor ou pior para o desenvolvimento cerebral.

“Há certamente uma diferença entre a execução de um gesto estrutural como copiar uma carta e um gesto estrutural como escrever no teclado. Mas não há estudos suficientes que provem que a escrita tradicional terá maior influência no desenvolvimento da criança do que outro tipo de escrita”, sublinha Michele Kaufmann.

Uma coisa é certa. A esferográfica perde terreno. Segundo o Instituto Euromonitor, as vendas de canetas nos países ocidentais têm vindo a diminuir. Só a gama alta escapa à tendência e continua em progressão. No futuro próximo, a escrita poderá tornar-se uma forma de arte, como a caligrafia, que junta de forma harmoniosa técnica e estética.