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Mundial no Brasil: Prostitutas fora das quatro linhas

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Mundial no Brasil: Prostitutas fora das quatro linhas

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Thiago e os amigos encontraram uma salvação longe dos estádios que, em breve, vão receber o Mundial do Brasil. O futebol é uma das muitas atividades que a associação Barraca da Amizade oferece. Atividades alternativas às ruas, para jovens de bairros desfavorecidos de Fortaleza, capital da região do Ceará, no Nordeste do Brasil.

Para Thiago Emanuel da Silva Bandeira o futebol:” representa muita coisa, representa a minha vida! O futebol foi permitiu que Tiago saísse da espiral em que muitos adolescentes daqui mergulham, por falta de oportunidades.

Rita de Cassia é mãe de Thiago:“Ficam nas esquinas porque não têm nada para fazer, caem na droga, há muita criminalidade aqui…”

Os esforços das associações não são suficientes para resolver os muitos problemas sociais de bairros como este.

Ivannia Andrade é Assistente Social da
Barraca da Amizade: “As políticas públicas são frágeis, os recursos são escassos. Quando se vem para estas comunidades, não nos apercebemos das dificuldades. A realidade aqui é muito diferente da da beira-mar, onde também existem muitas situações de exploração sexual escondidas. Muitas crianças e adolescentes entram lá na prostituição, nas zonas mais movimentadas.”

Quando a noite cai nas praias que fazem fronteira com o centro da cidade… Começa a atividade das prostitutas na rua e nos bares noturnos. Não é preciso muito tempo para descobrir a origem da má reputação de: a capital brasileira do turismo sexual com uma forte exploração de menores. A presença de mais de 3 milhões e meio de visitantes brasileiros e estrangeiros, nas cidades que vão receber o Mundial, só vai aumentar o problema.

É o receio do diretora do Centro de Apoio à Juventude do Ministério Público do Ceará, Antonia Lima: “A exploração sexual é um crime muito complexo. Envolve uma rede enorme, com muitos elementos envolvidos. No setor do turismo: a indústria hoteleira, as empresa de táxis… Os agentes do Estado também estão envolvidos nas forças policiais, assim como funcionários do serviço público, os melhores funcionários públicos.”

Foram dadas ordens para proibir o acesso das prostitutas à volta do novo estádio, na periferia da cidade. Foi onde encontrámos Daiana, de 17 anos. Segundo ela… Há muitos menores por aqui: “Há muitos polícias, que muitas vezes, vêm atrás de nós. Querem o nosso dinheiro, ou abusar de nós. Obrigam as raparigas a prestar serviços em troca de as deixarem ficar aqui.”

Os motéis que florescem na cidade, muitas vezes, fecham os olhos quando os clientes entram acompanhados por menores. Mas as redes de tráfico sexual são cada vez mais difíceis de identificar, diz
a coordenadora da associação Barraca da Amizade, Brigitte Louchez: “os estrangeiros que vêm aqui para encontrar menores já não vão para hotéis. Compram o que o denominado “pacote”, com uma casa na praia, e “convidados” a gosto, tudo incluído no preço. Vão para uma praia, têm uma casa e os chamados clientes em casa à espera deles. Portanto, é muito difícil detetar este tipo de situações.”

A propósito do Mundial foi lançada uma campanha de sensibilização internacional, parcialmente financiada pela União Europeia.
É implementada pelo Serviço Social da Indústria Brasileira, o SESI. Através da sua associação VIRA VIDA, o SESI também supervisiona um programa de reinserção de âmbito nacional para retirar a juventude das redes de prostituição. Se exploração de menores for denunciada, muitas vezes a impunidade sai a ganhar. É esta a opinião da coordenadora do programa local, Ana Isabel Cabral.

De acordo com dados da Polícia Federal, cerca de 250 mil crianças estão expostas à prostituição no Brasil. A pobreza e a droga são as principais causas do flagelo.

Elaine é prostrituta há três anos: “caí no mundo da droga; e como eu não conseguia alimentar o meu vício virei prostituta. Sim já tive clientes estrangeiros… Mas já chega de falar…”

Brigitte Louchez acrescenta: “Vai ser um desastre aqui. Porque o estádio está localizado num local onde já existe uma guerra pelo domínio do tráfico de droga. O tráfico de droga a exploração sexual estão intimamente ligados, isso vai influenciar a situação. Para além disso, a maior parte dos rapazes e raparigas que se prostituem nas avenidas à volta do estádio, têm o sonho americano, em relação aos europeus. Pensam que vão conhecer um estrangeiro, que se vai casar com elas e levá-los embora. O sonho é mudar de vida.

Daiana espero que o Mundial possa ajudar todas as raparigas: “gostaria de encontrar um homem para me ajudar, que fique só comigo. De encontrar uma forma de ter dinheiro para alimentar a minha filha sem ter de trabalhar nesta avenida.

Há 4 anos que a rua é o universo de Daiana.
Permite que fiquemos a conhecer a sua casa, numa favela vizinha ao estádio. Assim conseguimos compreendemos melhor. Neste dia, a irmã de 16 anos, acabava de regressar da maternidade, com um bébé de dois dias ao colo… O seu terceiro filho. Aos 17 anos, Daiana cuida agora de 8 pessoas: para além da irmã e dos filhos, mantém os outros três irmãos e a sua própria filha de um ano. Vivem todos em duas assoalhadas. Todos os meses faz dinheiro suficiente para cobrir apenas as necessidades básicas da família. E para pagar a escola dos mais velhos. O seu sonho é conseguir dar aos filhos uma vida melhor que a sua: “Eu não sei… Tudo o que Deus me disser para fazer, eu faço. Para sair desta vida. Qualquer proposta de trabalho que apareça, eu aceito. Desde que possa ter comida para minha filha e para os meus irmãos, pronto…”