Última hora

Última hora

Brasil: O mundial da emigração

Em leitura:

Brasil: O mundial da emigração

Tamanho do texto Aa Aa

Todas as manhãs, Manuel e Cristina desafiam o trânsito e a poluição de São Paulo, para irem para o trabalho. A capital económica do Brasil foi a cidade de eleição. Deixaram a crise em Portugal, para encontrar um novo impulso.

Trouxeram todos os conhecimentos para esta empresa de engenharia civil; dizem que aqui o trabalho nunca para. Cristina e Manuel foram recrutados por um compatriota, que se instalou no Brasil há 40 anos. Existe uma forte procura por engenheiros europeus. O casal está determinado a ficar no Brasil, enquanto os ventos forem favoráveis. Mas as incertezas permanecem.

Outros dependem do mercado de serviços, onde ainda há muito a ser inventado no Brasil. Donato Garcia deixou Espanha, onde geria uma empresa no setor da construção, devastado pela crise. Estabeleceu-se no Brasil, depois de conhecer Marina por lá. Ambos apaixonados pelas viagens, há uns meses abriram uma agência de intercâmbio linguístico. Mas enfrentam alguns problemas: “É complicado. Porque pedem-nos coisas que não temos. Uma nova empresa que ainda não começou a funcionar, não tem contas ou movimentos bancários. E se não tivermos isso, o banco não abre uma conta empresarial.”

Assim que ultrapassou todos os obstáculos, a empresa não demorou muito a crescer. O casal criou duas filiais na Europa e uma no Canadá e tencionam tornar-se líderes do setor no Brasil. Um mercado no qual estão confiantes diz Donato: “O Brasil tem uma economia interna muito forte. Não pode acontecer aqui o que nos aconteceu na Europa subitamente, por causa da economia dos EUA, a europeia viu-se num impasse. Aqui, a economia pode estar a abrandar, mas se cair vai recuperar novamente.”

Nossa próxima paragem foi na Baccio di Latte; uma empresa formada por uma dupla italo-escocesa. Desde a criação da primeira gelataria italiana em São Paulo há quatro anos, abriram uma dúzia de outros estabelecimentos. Para prevalecer num mercado que não existia no Brasil, mas também enfrentaram obstáculos.

Nick Johnston é um dos donos: “Há uma frase que diz que o Brasil não é para principiantes e eu posso garantir que é verdade. Desde licenças ao tempo que uma construção pode ser adiada… No papel, parece tudo fantástico, o planeamento perfeito e o preço correto. A realidade é que ninguém trabalha, está atrasado, não acontece a tempo e, enquanto isso, gasta-se o orçamento.”

Os esforços dos dois sócios estão a ser recompensados. Agora empregam cerca de 200 pessoas nos vários pontos de venda e planeiam abrir novas lojas em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Edoardo Tonolli, um outro sócio: “Os brasileiros, em comparação com os europeus, têm muito mais sede de inovação, de coisas novas, coisas diferentes. Os Europeus, sejam eles italianos, Ingleses, Franceses, ou Escoceses são muito mais tradicionalistas”.

Nick Johnston conclui: “Se compararmos o Brasil e a Europa a duas pessoas, o europeu teria 70 anos, com uma vida muito espetacular, muitas experiências incríveis, mas sem muito futuro. Brasil é o jovem de 15 anos, que tem toda a vida pela frente, pode cometer grandes erros, mas há espaço de crescimento para algo melhor.”

Mas a vida não sorri a todos os que vêm tentar a sorte no Brasil. Luis deixou Barcelona pelo Rio de Janeiro há um ano. Lançou uma empresa de consultoria aos serviço de futuros imigrantes europeus. Por falta de preparação e de vistos, muitos encontram-se de mãos vazias e ilegais: “Há estrangeiros que vêm para aqui sem emprego, sem um sítio para morar e com poucos recursos. Vêm para aqui a pensar que vão viver em Copacabana, num dos edifícios que basta abrir a janela para ver o mar. E apercebem-se que não, que não é assim. Vão viver numa favela, na periferia, onde há insegurança, tráfico de droga… É isso que encontram”.

Desde a denominada política de pacificação, as favelas do Rio também assistem a cada vez mais estrangeiros a investir no sector do turismo. Na favela do Vidigal, encontrámos Marco, vindo de Itália. As rendas proibitivas no Rio levaram-no a estabelecer-se aqui. Conseguiu abrir uma pequena pizzaria com a namorada. Adoram viver aqui; mas nem sempre é fácil: “É difícil viver numa favela como esta. Há problemas relativos aos transportes e à habitação. Por causa do Mundial e depois com a chegada dos Jogos Olímpicos, as rendas triplicaram em apenas alguns meses. Paga-se muito para viver numa zona onde quase não existem serviços”.

Outros beneficiam do efeito do Mundial. No coração do Rio, Olivier e os dois sócios franceses criaram o primeiro campo de futebol urbano aqui; um nicho promissor numa cidade onde o espaço é escasso: “Estamos realmente no país do consumo, por isso funciona… Embora os brasileiros estivessem um pouco hesitantes no início, na prática continua a ser futebol e é muito conveniente. Perto do local de trabalho, perto de casa. Por isso vieram jogar…”

Os três sócios também tiveram os seus momentos de desânimo: “O Brasil não é um El Dorado, quem pensou assim acabou sempre por ter uma grande desilusão… Resistimos porque éramos 3. Mas, honestamente, acho que 99% das pessoas que conheci durante estes quatro anos voltaram para casa.. “, diz Olivier.