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Tour 2014, Vincenzo Nibali: "Trabalhei duro para este triunfo"

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Tour 2014, Vincenzo Nibali: "Trabalhei duro para este triunfo"

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No último domingo, nos Campos Elísios, de Paris, um novo nome foi inscrito nos vencedores da mítica Volta a França em bicicleta. Vincenzo Nibali foi o sétimo italiano a conquistar o “Tour” e o sexto ciclista da história a ganhar as três maiores corridas por etapas: França, Itália e Espanha.

Em Paris, o “tubarão” da Sicília, como também e conhecido este italiano de 29 anos, concedeu uma entrevista exclusiva à euronews e explicou-nos todos os segredos por trás deste importante triunfo, na 101.a edição da Volta a França em bicicleta.


Juan-Antonio Aldeondo, euronews: Sendo a Itália um país com uma grande tradição ciclista, porque foi preciso esperarmos 16 anos para voltarmos a ver um italiano com a camisola amarela em Paris?
Vincenzo Nibali: O “Tour” é uma corrida muito importante. Há uma participação internacional muito grande e é realmente difícil vencer. Antes da vitória do Marco Pantani, há 16 anos, a anterior havia sido 33 anos antes, pelo Felice Grimondi. Muitos anos passaram até que um italiano conseguisse ganhar a Volta a França em bicicleta. É uma competição de alto nível e muito importante. Por isso, é tão difícil conquista-la.

Tinha a Volta a França na cabeça e, por mais do que uma vez, disse que um dia havia de a ganhar. Tornou-se, o “Tour”, uma obsessão?
Nada disso. Pelo contrário. Tentei olhar para o “Tour” sem pressão e corre-lo com serenidade, descontraído. No ano passado, também participei na “Vuelta” (a Espanha) e perdia-a na última semana, acabando em segundo. No final, temos de saber aceitar a derrota, aceitar sermos também segundos ou terceiros. É assim e isto é ciclismo.

O que significa para si ser um dos seis ciclistas da história a ter ganho as três grandes voltas a bicicleta?
É algo de especial e particular porque há apenas algumas pessoas que o conseguiram. A Volta a Espanha (2010) foi a primeira grande vitória e deu-me realmente muito. Depois, comecei a trabalhar duro para o “Giro d’Italia” porque para um italiano essa é uma corrida muito importante. Acabei no pódio (2011) e pude tocar ao de leve no sucesso, acaricia-lo e apaixonar-me por ele. Finalmente, no ano passado, ganhei a Volta a Itália e, para mim, foi uma grande emoção porque o “Giro” é a corrida com que sempre sonhei e que costumava ver pela TV. Via grandes campeões como o Induraín ou o Pantani, sempre a correr o “Giro”. A Volta a França é também uma corrida espetacular e quando cheguei, em 2012, ao último degrau deste pódio, disse para mim próprio: “Quem sabe, um dia, eu também a posso vencer”. Sabia que não seria fácil de todo, mas trabalhei no duro para tentar conseguir este triunfo. Não foi fácil, mas, agora, já posso dizer: ‘Já está, já o consegui.’


O que é gostaria de dizer àqueles que pensam que apenas ganhou porque o Froome e o Contador tiveram de desistir?
Infelizmente, isso também é ciclismo. É um desporto feito de quedas, feito de boas e más coisas. É parte do jogo. Posso dizer a essas pessoas, contudo, que fui forte. Desde o início até ao fim. Venci em Inglaterra, na etapa York-Sheffield. Depois venci em La Planche de Belles Files, nos Alpes e nos Pirenéus. Logo, estive sempre em ótimas condições. Fiz, seguramente, um “Tour” de grande nível.

Olhando para a classificação, há uma grande diferença entre o Nibali e o resto do pelotão…
Esta diferença surge do facto de que, na minha cabeça, o objetivo principal era lutar com o Alberto Contador e com o Chris Froome, com os quais já tinha competido na “Critérium du Dauphiné” (8-15 de junho deste ano). Sabia que tinha de continuar a trabalhar para alcançar um nível mais alto e cheguei aqui, ao “Tour”, bem preparado. Talvez, com o Froome e o Contador em prova, a diferença tivesse sido um pouco mais curta. Mas já no ano passado , no “Giro d’Italia”, venci com um grande avanço.

As expetativas eram enormes. A Astana apostou muito em si e os resultados, esta época, não estavam a aparecer. A equipa começou a perder alguma paciência, mas o Nibali pareceu-nos descontraído no meio do pelotão. Sentia-se seguro com a sua preparação?
É normal. No ano passado, fiz uma temporada de “top”. Desde o início até ao final. Consegui boas classificações em duas grandes corridas de etapas e isso não é fácil. Quase ganhei duas grandes Voltas no mesmo ano. Depois, participei no Campeonato do Mundo e é normal que, durante o inverno, me liberte um pouco. Em fevereiro, nasceu a minha filha e eu dediquei-me igualmente à família. Ganhei algum peso, mas cheguei a julho com a energia certa. Apenas demorei um pouco mais e fiquei pronto um pouco mais tarde.


Agora, é o mais requisitado ciclista do pelotão e vai receber, certamente, muitas ofertas. Vamos poder continuar a vê-lo com as cores da Astana até 2016, quando termina o contrato?
Ainda tenho dois anos de contrato e continuo aqui. A Astana construiu uma equipa só para mim, por isso vou continuar com eles ate 2016.

No próximo ano, a aposta será voltar a ganhar o “Tour”. Terá também o desejo de mostrar que é capaz de vencer Froome e Contador, Quintana e todos os outros?
A minha ambição é tentar equiparar-me a eles. Sempre. Como é óbvio, temos de preparar bem as corridas, quer dizer, as grandes corridas por etapas, que para mim são as mais importantes. Temos de estar na melhor condição possível. No ano passado também enfrentei muitas vezes o Contador e o Froome, e consegui bate-los. Depois, claro, há anos em que vencemos e outros em que perdemos. É normal, isto é desporto.


Uma boa imagem para a Astana

Por trás de um campeão de ciclismo, numa prova de etapas, há sempre uma grande equipa. No caso de Vincenzo Nibali, falamos da Astana, a equipa do Cazaquistão dirigida pelo antigo ciclista cazaque Alexandr Vinokúrov, que também acedeu a responder a algumas questões colocadas pela euronews.


Juan-Antonio Aldeondo, euronews: A pressão era alta apos as desistências de Froome e Contador. Apesar de tudo, a Astana não facilitou. Quando foi preciso assumir riscos – sem medo de quedas, por exemplo – a equipa assumi-os.
Alexandr Vinokúrov: Isso faz parte de uma corrida. Estivemos sempre focados, mantendo sempre a liderança. Qualquer um pode sofrer um acidente a qualquer momento e, claro, tenho pena pelo Froome e pelo Contador, mas isto é parte do jogo. Não penso, contudo, que isto possa tirar o mérito da vitória do Nibali.
Penso que mesmo com o Froome e o Contador em prova, o Vincenzo seria capaz de vencer. Ele estava ali, nas etapas de montanha. Ganhou quatro etapas, conseguiu uma boa prestação e para o nosso país (Cazaquistão) foi uma bela imagem. A equipa andou sempre na frente, pronta a defender a camisola amarela.


Com o Froome e o Contador em prova, o que teria mudado na vossa estratégia?
Tentámos ser competitivos durante toda a corrida, procurando sempre alargar a vantagem para os outros ciclistas e se surgisse a possibilidade de ganhar uma etapa, atacávamos. Em especial, queríamos a última etapa dos Pirenéus para provar que o Nibali era o melhor do “Tour” e para deixarmos a nossa marca. Já estavam todos de rastos, mas eles deram o melhor até à última.

Vendo de fora, parecia que o Nibali pedalava como o Vinokúrov quando corria. Sente a sua influência na equipa?
Sente-se, por certo, mas o Nibali, como campeão, tem uma mentalidade fácil de gerir. A estratégia da equipa é a motivação. Podemos dizer que o Nibali pedala um pouco ao meu estilo, mas ele é o Vincenzo Nibali. Eu nunca ganhei uma Volta a França, nunca vivi esta experiência e o facto de ele ter ganho com a nossa equipa, bem, isto é o que de mais belo que podia ter acontecido.