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Argentina: O que mudou em 13 anos?

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Argentina: O que mudou em 13 anos?

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Há muitos fatores que diferenciam os incumprimentos argentinos de 2001 e de 2014. Um dos mais importantes é que o governo assegura agora ter liquidez para fazer face às obrigações perante os atuais credores. Mas o ministro da Economia, Alex Kicillof, também assegura que não vai ceder ao que chama de “tentativa de extorsão” por parte dos fundos especulativos que exigem receber de volta o dinheiro que ajudou a colmatar a crise de há 13 anos. Isto apesar de mais de 90% dos outros credores aceitarem renegociar as condições dos pagamentos.

A Alemanha é o principal detentor individual de dívida argentina e anunciou esperar que o país “continue a respeitar os seus compromissos”, até porque, há apenas dois dias, foi saldada uma tranche de 650 milhões de dólares.

Sem o cenário de incumprimento, a Argentina apresenta um recuo económico de quase 1,5% e uma inflação de 34,5%; instalando-se o default, Buenos Aires arrisca uma contração de 3,5% e uma inflação que pode ultrapassar os 40%. No passado dia 23 de junho, o gabinete de estatísticas argentino tinha anunciado oficialmente a entrada em recessão.

O colapso entre os anos de 2001 e 2002 lançou milhões de argentinos no desemprego, provocando o caos e uma derrocada social inédita.

A Associação Internacional de Swaps e Derivados está a avaliar se, de facto, o incumprimento se deve puramente a um contexto legal ou se corresponde a um problema efetivo de crédito. Se for este o caso, os atuais credores da Argentina podem reclamar o dinheiro com efeitos imediatos.

O jornalista da euronews Vicenç Batalla entrevistou o economista Rafael Di Giorno, que foi analista no Banco Central da Argentina e vice-presidente, em Nova Iorque, do Deutsche Bank para a América Latina.

euronews: As notícias não são as melhores para a Argentina, não tendo chegado a acordo com os fundos abutre americanos antes da data limite. O governo diz que não está em incumprimento… Qual é a situação real?

Rafael Di Giorno: Para as agências de notação, a realidade é que se trata dum incumprimento, na medida em que os detentores das obrigações não receberam os pagamentos. Mas não é um incumprimento “típico”, porque a verdade é que a Argentina tem capacidade para pagar. O dinheiro foi enviado para os bancos em questão, mas há um bloqueio judicial que impede que ele chegue às mãos dos credores.

euronews: Especula-se que os bancos privados argentinos poderão comprar a dívida aos fundos especulativos. Seria uma operação apoiada pelo governo ou uma iniciativa independente?

RDG: A versão oficial é que o governo não pode negociar diretamente com os fundos especulativos. Daí que tome as precauções necessárias para não ser mencionado nestes processos. Este plano surge como uma iniciativa do setor privado, da ADEBA, que é a câmara que reúne os bancos argentinos. Foram eles que propuseram um acordo com os fundos especulativos, sugerindo colocar um montante como garantia até ao final deste ano, quando expiram as cláusulas que impedem a Argentina de negociar com os fundos abutre. Se estes aceitarem, pode haver uma solução. E aí sim, a Argentina pode negociar diretamente com estes fundos.

euronews: Vão os investidores fugir da Argentina? Vai a recessão agravar-se e atingir a população como durante a bancarrota de 2001?

RDG: Não, a bancarrota de 2001 aconteceu num contexto gravíssimo motivado por outros fatores. Nessa altura, o PIB argentino caiu cerca de 11%, uma queda brutal. Este ano, as estimativas indicam um cenário de recessão, mas na ordem dos 1 a 2%. É um contexto muito mais benigno, é um default mais técnico. A Argentina tem capacidade de pagamento, apesar de haver uma questão legal que a impede de o fazer. A verdade é que é preciso regularizar todas as dívidas de 2001 para seguir em frente. No entanto, não vai haver uma grande fuga de capitais. Nos últimos anos, não tem havido uma grande entrada de capitais. Vai haver, sim, problemas no financiamento de grandes projetos como o de Vaca Muerta, da petrolífera YPF, que necessita de capitais externos.

euronews: Não vai haver consequências na América, nem na Europa?

RDG: Não acredito que haja contágio a outros países, porque não se trata de um incumprimento por causa da balança de pagamentos ou por não haver dólares nas reservas. Aí, poderia haver mais contágio devido ao impacto sobre a moeda. Mas não creio que seja o caso.