Última hora

Última hora

"Colina da morte" na Alsácia é um dos marcos da Grande Guerra

Em leitura:

"Colina da morte" na Alsácia é um dos marcos da Grande Guerra

Tamanho do texto Aa Aa

“Em Hartmann lutou-se “olho por olho, dente por dente”. É um local muito carregado do ponto de vista emocional. Não quero nem imaginar os seus gritos. Atacavam e feriam com espadas, lutavam com metralhadoras e com gás. A única coisa que não conseguiram levar até ao cimo da colina foram tanques”, explica à euronews Gerd Krumeich, especialista sobre a Primeira Guerra Mundial, que começou há cem anos.

Para os alemães é Hartmann e para os franceses é Vieil Armand, mas este campo de batalha, situado no que é agora o lado francês da região da Alsácia, é conhecido por muitos como a “colina da morte”.

O historiador alemão refere que “as batalhas que ali ocorreram tiveram no início uma importância muito grande, mas depois podemos dizer que guerra se mudou para outras paragens. Mas continuou a combater-se ali até 1918 e, portanto, atingiu uma dimensão absurda tendo em conta todo o sofrimento e todas as perdas, pelo menos do meu ponto de vista”.



As batalhas mais sangrentas decorreram em 1915 e continuam no local muitos vestígios, incluindo trincheiras, abrigos, casernas, fortificações e galerias subterrâneas.

Estima-se que 30 mil soldados franceses e alemães perderam a vida, tendo muitos ficado sepultados no cemitério aí construído; mas os monumentos erguidos foram-no apenas em honra das tropas francesas.

Cem anos depois, os dois governos uniram-se para criar um museu e escolheram o local para cerimónias conjuntas em nome da paz e da amizade entre povos tantas vezes desavindos no passado.

Ao longo de 52 meses, a chamada Grande Guerra deixou 10 milhões mortos e 20 milhões de feridos em campos de batalha como este, e que se estenderam da costa do mar do Norte até aos desertos do Médio Oriente.

Gerd Krumeich diz que “hoje temos um melhor conhecimento do que se passou na Primeira Guerra Mundial porque a analisamos na sua dimensão global. Antigamente, a História militar não era muito considerada na História mundial”.

A Alemanha tem sido acusada, incluindo por alguns dos deputados nacionais, de se mostrar pouco interessada nas comemorações e de apenas investir um décimo do dinheiro investido pela França e pelo Reino Unido, outro país que perdeu centenas de milhares de vidas na guerra.

“Nunca fomos capazes de formar na Alemanha aquilo a que os franceses chamam de comunidade de luto, algo que tem sido preservado pelas famílias ao longo de gerações. Nunca conseguiram fazer isso na Alemanha. Entre os franceses, os acontecimentos da Primeira Guerra Mundial tornaram-se menos importante na memória coletiva à medida que os combatentes que a ela sobreviveram foram desaparecendo. Agora é algo menos melindroso. Mas a chamada Grande Guerra está absolutamente presente na consciência coletiva a nível geral, é um marco na história da França que tocou quase cada uma das famílias”.

O embaraço por continuar a ser recordado como um invasor irascível pode explicar a relutância alemã, mas Gerd Krumeich considera “não existe uma sensibilidade comum europeia”.

Contudo, o historiador realça que “a possibilidade dos soldados alemães também poderem ser honrados na cripta do monumento será uma sensação. Veremos se realmente se concretiza depois de tantos anos de polémica. Poderá vir a ser um sinal da particularidade da região da Alsácia se, a 3 de agosto, na cripta do monumento, pela primeira vez na história as vítimas alemãs e francesas forem honradas em conjunto”.

Mas do que vencedores ou vencidos, os políticos têm vindo a recordar a unidade trazida ao continente pela criação da União Europeia. Sobretudo, quando a crise económica ameaça o espírito de solidariedade e conflitos recentes ameaçam destabilizar o complexo continente europeu.