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I Guerra Mundial: França e Alemanha abraçados pelos mortos

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I Guerra Mundial: França e Alemanha abraçados pelos mortos

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Foi com emoção e num clima de fraternidade que o presidente de França, François Holande, e o homólogo alemão, Joachim Gauck, assinalaram este domingo, em Wattweiler, na região do Alto Reno do nordeste gaulês, os 100 anos sobre a declaração de guerra da Alemanha à França, um dos episódios mais emblemáticos do início da Primeira Grande Guerra.

Pela primeira vez juntos por este motivo, os presidentes de França e Alemanha visitaram a cripta do memorial de Hartmannswillerkopf, onde, abraçados, dedicaram um “ruidoso” minuto de silêncio pelos milhões de mortos de uma guerra que ambos consideraram baseada em “errados nacionalismos extremistas”. O peso deste inédito minuto de silêncio franco-alemão ecoou pelas paredes de cripta.



Depois, Holande e Gauck depositaram uma coroa de flores no memorial também conhecido, em francês, como Vieil Armand e que se situa num dos topos rochosos da montanha de Vosges, na Alsácia. Toda esta zona foi um sangrento campo de batalha durante os quatro anos que durou a Grande Guerra, título que viria, infelizmente, décadas depois a ganhar o numeral “primeira” quando estalou o segundo conflito à escala mundial.


Sempre muito próximos durante toda a cerimonia, que arrancou pelas 10h30 locais (menos uma hora em Lisboa), por vezes até de mãos dadas, Hollande e Gauck tiveram oportunidade de discursar. O presidente francês aproveitou para deixar um recado dirigido ao atual conflito sangrento na Faixa de Gaza.

“Para aqueles que desesperam pelo processo de paz no Médio Oriente, que melhor mensagem podemos enviar-lhes do que esta. A história de França e Alemanha mostra que a vontade pode vencer sempre a fatalidade e que as pessoas que eram vistas como habituais inimigas podem após alguns anos reconciliar-se”, afirmou Holande, referindo-se também a outros conflitos que marcam a atualidade como o da Ucrânia ou o da Nigéria.

Das palavras do Presidente alemão, por seu lado, destacamos a referência aos legados familiares. “Os nossos avós, que lutaram um contra o outro, jamais poderiam imaginar o que aqui hoje se passa. Para eles, seria um sonho. Mas esta é a nossa realidade. Depois de tanto sangue derramado, as pessoas conseguem aproximar-se e juntar-se como aqui estamos hoje”, sublinhou Gauck.

Os dois chefes de Estado prestaram, assim, sentida homenagem aos franceses e alemães que há 100 anos davam neste monte início a uma matança de parte a parte que, no global dos quatro anos de guerra, fez por todo o Mundo cerca de 10 milhões de mortos e 20 milhões de feridos.

Por fim, Holande e Gauck depositaram a primeira pedra naquele que virá a ser edifício do museu franco-alemão sobre a Primeira Grande Guerra – uma primeira colaboração do género entre os dois antigos arqui-inimigos -, que será construído próximo de Hartmannswillerkopf/ Vieil Armand, em Wattwiller.

A imagem de dois países outrora inimigos e agora a trabalhar juntos pela liberdade, progresso e direitos humanos na Europa é uma das mensagens mais fortes que vai certamente perdurar da cerimónia realizada este domingo no nordeste de França, onde há 100 anos teve início a Primeira Guerra Mundial, na qual Portugal teve também parte ativa e não só na defesa das antigas colónias em África face ao avanço alemão também naquele continente.

Às operações no Atlântico da marinha portuguesa, que ajudaram a reduzir a força naval alemã e proteger a armada britânica, juntaram-se quase 200 mil homens, que reforçaram os exércitos aliados no centro da Europa. Cerca de 10 mil portugueses morreram nas comissões europeias. Os últimos terão sido a maior parte dos tripulantes do barco Augusto de Castilho, que, sob as ordens do capitão Carvalho de Araújo, se lançou à morte contra um submarino alemão para permitir a fuga do navio a vapore São Miguel.

Até os alemães viriam a enaltecer a bravura do capitão português. Mas estas são outras estórias da história da Primeira Grande Guerra para lá da declaração de guerra da Alemanha à França, cujo centenário se assinala este 3 de julho.