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Turquia: Selahattin Demirtaş, o "outsider" curdo

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Turquia: Selahattin Demirtaş, o "outsider" curdo

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Os turcos preparam-se para eleger, pela primeira vez na história da República, um presidente através de voto popular. No escrutínio de agosto Selahattin Demirtaş é um dos três candidatos. Vai medir forças com o diplomata e islamita moderado Ekmeleddin Ihsanoglu. Este último é o principal rival de Tayyip Erdogan.

Selahattin Demirtaş é o candidato do pró-curdo Partido do Povo. Apela a uma “nova vida na Turquia”: “Chegámos a um ponto em que podemos começar a construir uma vida nova. Com a minha candidatura ofereço não só um novo presidente como também um novo modo de vida na Turquia.”

Em nome das minorias promete lutar contra todas as discriminações, sejam de natureza étnica, religiosa, social ou sexual.

Licenciado em Direito, em entrevista à Euronews, Demirtaş fez questão de lembrar que começar a carreira política foi mais uma “obrigação” moral do que uma escolha: “Interessei-me por política e pela luta pela democracia desde a minha juventude. À semelhança de muitos jovens curdos juntei-me à luta pela democracia muito cedo, em nome da preservação dos direitos negados aos curdos, da identidade étnica, contra a opressão. Estou na política ativa há quase 25 anos. Ao longo dos últimos 8 anos atuo como membro do parlamento e copresidente de um partido político. Fui advogado voluntário em matéria de direitos humanos. Durante todos estes anos, a todo o instante, luto pelo cumprimento dos princípios em que acredito e tudo o que esteja com isso relacionado. Ao ser candidato presidencial continuo a luta. Por isso, sou um candidato presidencial que cresceu na história da luta pela democracia na Turquia.”

Foi na cidade de Diyarbakir que Selahattin Demirtaş deu o pontapé-de-saída na vida política. Os problemas que teve com algumas instituições estatais conduziram-no à presidência de uma Associação de Defesa dos Direitos Humanos.

Inclusivo e determinado, tem poucas hipóteses de vencer o escrutínio. Poderá, no entanto, ser uma peça chave para os outros candidatos numa eventual segunda ronda. Aconteça o que acontecer no escrutínio Demirtaş negou já ter acordado apoiar Tayyip Erdogan no caso desse cenário se colocar.

“Ele pode seguir políticas bastante sensatas. Para dizer a verdade pode unir toda a gente. Mas julgo que não pode ter mais do que 10% dos votos. O eleitorado encontra-se na região sudeste do país. Para os curdos é ótimo ter um candidato assim. O mais importante para nós é que nas eleições ganhe a fraternidade, a unidade e a paz”, diz Vahit Yilmaz, um habitante de Diyarbakir.

Os rivais demarcam-se de Demirtaş. No fogo cruzado dos argumentos, o candidato do Partido do Povo diz que nestas eleições estão em jogo conceitos como liberdade e democracia: “O primeiro-ministro Erdogan governa a Turquia há mais de 12 anos. Seguiu uma política que lhe confere poder, que fortaleceu o poder autocrático, mas não a democracia. Nas mensagens que pronuncia deixa entender que se for eleito presidente irá fortalecer ainda mais esta linha. Pensamos que a via do outro candidato representa o passado. A Turquia precisa de um novo rumo, que esteja ao lado dos pobres, dos trabalhadores e que se adeque à sociedade pluralista da Turquia para o futuro.”

Em 2010, Demirtaş foi condenado a dez meses de prisão por sugerir que Abdullah Ocalan, líder da milícia do Partido dos Trabalhadores do Curdistão, o PKK, tivera um papel na solução da questão curda.

Agora é parte integrante do processo de paz que começou em 2012, justamente depois do Governo decidir falar com Ocalan.

“A minha candidatura à presidência é também um apelo para construir o conteúdo das negociações. Se for eleito, as hipóteses destas negociações se tornarem em paz permanente serão maiores. Julgo que a Turquia se libertará das preocupações levantadas pelo processo de paz e haverá uma melhor compreensão do diálogo”, explica Selahattin Demirtaş.