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Charles Péguy, uma mente brilhante que se extinguiu na Grande Guerra

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Charles Péguy, uma mente brilhante que se extinguiu na Grande Guerra

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Durante a guerra de 1914-18, não foram apenas as armas a manifestar-se. Este conflito global foi, também, uma guerra de mentalidades, onde intelectuais franceses e alemães se enfrentaram.

Ficou famosa a carta, em 1914, onde 93 intelectuais alemães denunciam as críticas que visam o seu país.

No campo de batalha, muitos escritores, artistas, pintores, lutaram, por vezes, até ao sacrifício final.

Como, por exemplo, os britânicos Wilfred Owen ou Rupert Brooke, ou o alemão Ernst Jünger. No centro dos combates, o americano Ernest Hemingway e o britânico JRR Tolkien, autor de “O Senhor dos Anéis”, sobreviveram à guerra, ao contrário dos franceses Guillaume Apollinaire e Alain Fournier. No total, mais de 450 escritores franceses deram a vida por um ideal.

O professor de literatura, Geraldi Leroy, acredita que “todos estes homens acreditavam, sinceramente, que o país estava sob ataque, que aquele compromisso merecia todos os sacrifícios. Eles tinham de defender o bem mais precioso, que era a pátria.”

Entre os franceses envolvidos na guerra está o poeta Charles Péguy. O exemplo mais marcante deste patriotismo fervoroso. Viemos a Orleães, a cidade natal. Charles Péguy morreu há um século, logo nos primeiros dias da guerra. Ironicamente, aquando da Segunda Guerra Mundial, um estilhaço atingiu a estátua no local exato da lesão que custou a vida de Charles Péguy, a 5 de setembro de 1914.

A uma hora, a sul, de Paris, na cidade de Joana d’Arc, Charles Péguy cresceu no seio de uma família humilde. Filho de uma empalhadora de cadeiras, nada fazia crer que se iria tornar num escritor famoso.

No local onde ficava a casa onde nasceu, apenas uma placa evocativa, mas Orleães consagrou um museu a este conterrâneo de múltiplas facetas.

“Escritor, jornalista, editor polémico, poeta… Penso que se ele tivesse vivido depois da primeira guerra, tinha-se tornado num grande filósofo”, defende a curadora, Aurelie Bonnet Chavigny.

O prolífico Charles Péguy tem uma abordagem original: criou a própria editora, a “Cahiers de la quinzaine”. O objetivo: publicar duas vezes por mês as suas obras e as dos amigos.

Chavigny explica a razão por ter colocado a frase “ Não há nada de que goste mais do que a liberdade”, em destaque: “ele não procurou por ter favores de ninguém, não procurou a fortuna. Ele disse, sempre, o que tinha a dizer”, assegura.

Fiel aos ideais socialistas, comprometido com a defesa de Alfred Dreyfus, alimentou a sua redescoberta da fé cristã … O pensamento variado de Péguy deu origem a muitas interpretações e leituras.

“Péguy morreu dizendo aos seus soldados,” atirem! Atirem, meu Deus, atirem! “. Isso foi transcrito, por alguns católicos, como: ‘atirem! Atirem em nome de Deus!’”, informa Leroy.

Aos 41 anos, nada obrigava o Tenente Péguy a partir para a frente de combate. Três semanas antes de morrer, escreveu à sua esposa: “Posso morrer… Não volto a escrever”.