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Comer maçãs polacas contra a Rússia: "É um dever patriótico!"

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Comer maçãs polacas contra a Rússia: "É um dever patriótico!"

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“Não há maçãs para Putin” – é o que está na escrito na bandeja que Tomasz carrega para, juntamente com o filho, preencher um cesto à entrada do seu restaurante, nos arredores de Varsóvia. Toda a gente pode tirar as maçãs que quiser. É com humor que Tomasz encara a séria situação da guerra de sanções entre a Rússia e a União Europeia.

Desde que o presidente russo levantou um embargo aos produtos alimentares europeus que a sociedade polaca iniciou a contra-resposta. As maçãs tornaram-se no símbolo dos excedentes agrícolas que não têm para onde ser escoados. Comer este fruto tornou-se também num ato de protesto. Há cada vez mais receitas à base de maçãs. Os slogans multiplicam-se. Um dos mais conhecidos é: “Dá uma dentada no embargo!”. Segundo Tomasz Budziszewski, trata-se de “uma ação de solidariedade que nos envolve a todos, porque temos de aumentar o consumo de maçãs para ajudar os nossos produtores.”

Varsóvia está repleta de referências a este fruto. A campanha de protesto foi buscar inspiração a um antigo cartaz da histórica plataforma sindical Solidariedade, que lutou contra o totalitarismo. O apelo é: “Comam maçãs! É o vosso dever patriótico!”. A Associação de Fruticultores Polacos, Miroslaw Maliszewski, explica a situação: “Os produtores de maçãs e legumes na Polónia vão perder, este ano, mais de 400 milhões de euros por causa do embargo russo. A União Europeia oferece 125 milhões de euros em compensações, mas está longe de chegar para todos.”

Moscovo aplicou o embargo no início de agosto, após Bruxelas ter imposto sanções sobre a banca e o setor militar russos devido às acusações de ingerência no conflito ucraniano. A Polónia é dos países mais afetados pelas limitações decididas por Putin. Visitamos a cidade de Sandomierz, onde a colheita da maçã é uma tradição secular.

Numa quinta local, cerca de 50 trabalhadores iniciaram a apanha anual. Trata-se de uma cooperativa que junta 15 produtores que partilham equipamentos. Todos os anos são recolhidas mais de 10 mil toneladas de maçãs aqui. Por causa do embargo, alguns dos produtores pensam agora em destruir parte da colheita ou dá-la a instituições de caridade. A atividade sasonal está em risco.

No ano passado, as exportações europeias para a Rússia ultrapassaram os mil milhões de euros. Muito para além de todo o braço de ferro diplomático, aqui pergunta-se se os políticos têm uma noção real das consequências. Um dos trabalhadores afirmava que “não é o Putin, nem os outros políticos, que vão sofrer com o embargo. São pessoas como nós, que trabalham no campo, que produzem e recolhem. Se o proprietário deixa de fazer dinheiro, não pode dar emprego a esta gente toda, e nós não podemos ganhar a vida.”

As maçãs mais pequenas são levadas para fazer sumo. Mas não chega. A cooperativa tenta encontrar soluções criativas para salvar a produção local. Uma delas consiste em fazer chamadas para a China, Índia, Argélia, Egito ou o Azerbeijão, como revela Zbigniew Rewera, o proprietário da quinta: “Normalmente, o mercado russo fica com 60% a 70% da produção de maçãs. Agora, com o embargo contra a União Europeia, temos de procurar outros mercados na Polónia, na Europa, na Ásia ou em África.”

Fomos procurar outras soluções junto à fronteira com a Ucrânia. Bilgoraj é um importante centro de produção de sidra. Numa das fábricas, encontram-se enormes tanques de fermentação, com capacidade para 50 mil litros. Os responsáveis estão sempre à procura de novas combinações de maçãs para produzir diferentes variedades de sidra. Aqui, o embargo russo, que provocou a desvalorização da fruta, veio estimular a atividade. O gestor Artur Dubaj declara que “em 2013, a Polónia produziu dois milhões de litros de sidra. Este ano, a perspetiva é a de chegar aos 15 milhões. E nos próximos cinco anos, estima-se que possamos atingir os 100 milhões de litros. (…) O boom da indústria de sidra polaca pode vir a absorver entre 10% a 15% da quantidade de maçãs que costumava ir para os russos.”

Perto da Bielorrússia, existe uma região conhecida pela produção de carne de porco. A fábrica de Moscibrody já perdeu cerca de um milhão de euros. A Rússia interditou a carne de porco da Polónia em fevereiro devido a alguns casos de gripe suína que terão tido origem precisamente em território russo, onde não se conseguiu controlar a disseminação. Os produtores, como Krzysztof Borkowski, pedem ajuda: “A União Europeia devia criar um ‘fundo de solidariedade’. Todos os Estados-membros deviam contribuir. Algumas das fábricas de processamento deixaram de pagar os créditos. Esse ‘fundo de solidariedade’ devia comprar produtos e exportá-los para países pobres em África ou dá-los a instituições de caridade na Ucrânia. Os nossos vizinhos enfrentam as consequências de uma guerra que está a acontecer neste momento.”

Não muito longe fica a suinicultura de Dariusz. O embargo obrigou muitos a reduzirem 40% da criação. Em 2013, as vendas europeias de carne de porco para a Rússia representavam cerca de mil milhões de euros, o que correspondia a 20% do consumo no país. Em abril, a interdição russa à carne de porco europeia fez com que Bruxelas protestasse no seio da Organização Mundial de Comércio. Dariusz também contesta os argumentos de Moscovo. “As nossas criações têm todas as condições de segurança. As inspeções veterinárias são rigorosas e ocorrem com frequência. Está tudo sob controlo. O embargo russo é político, nada mais…”, considera.

As sanções russas comportam riscos para ambos os lados. No ano passado, mais de um terço das importações alimentares russas proveio da União Europeia. À medida que os preços vão aumentando para os consumidores russos, a Europa procura outros mercados.