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A resposta dos muçulmanos britânicos ao terror no século 21

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A resposta dos muçulmanos britânicos ao terror no século 21

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Chegou o momento da oração de sexta-feira numa mesquita situada nos arredores de Londres. A comunidade muçulmana local não esconde o choque pelo que está a acontecer. O envolvimento de jihadistas britânicos na decapitação de reféns do autoproclamado Estado Islâmico, entre os quais um trabalhador humanitário também britânico, provocou o sobressalto. Ainda mais porque surgiram acusações de passividade perante os atos de quem se apropriou da bandeira religiosa.

Shaukat Warraich decidiu mudar isso e criou vídeos onde os imãs britânicos condenam os que estão a matar pelo Islão. “A comunidade muçulmana tem divulgado internamente mensagens contra o extremismo. Mas aquilo que tem de fazer é transmitir essas mensagens para lá da comunidade. Esta é uma guerra sem limites. Nunca houve nenhum conflito assim. As partes envolvidas sempre tiveram propaganda e veiculos de comunicação. Mas não há precedentes para este conceito de transmitir as mensagens às pessoas sem qualquer filtro, mensagens que vão parar diretamente aos telemóveis”, declara.

Até que ponto podem os muçulmanos britânicos e não só fazer face à propaganda de um grupo que utiliza as redes sociais para globalizar filmagens que vão desde o recrutamento de novos combatentes às execuções? Alguns dos vídeos produzidos pelo autodenominado Estado Islâmico atingiram um nível de produção assinalável. Mas Jamie Bartlett, autor do livro “O Lado Negro da Net”, salienta que não são precisos assim tantos recursos para os fazer: “Graças aos media sociais, os custos de produção e distribuição de conteúdos de alta qualidade são muitos reduzidos. Sai muito barato fazê-lo. Mais: muitas das pessoas que se envolvem na comunicação do grupo do Estado Islâmico são rapazes, jovens europeus para quem é muito fácil fazer conteúdos de boa qualidade e gerir uma campanha nas redes sociais. A única diferença é que fomos surpreendidos por se tratar de um grupo islâmico.”

A jihad que se propaga online – é a questão estudada por Erin Saltman, que realça a contradição de um movimento que recorre à tecnologia do século 21 para criar um califado tal como existiam há 1300 anos. Segundo Saltman, “em cada vídeo que produzem, mudam a montagem e a forma como se retratam, de acordo com as reações internacionais aos conteúdos anteriores. Nos últimos tempos, deixaram de mostrar execuções porque perceberam que os media internacionais estavam a virar isso contra eles, prejudicando a propaganda e o recrutamento. Daí não haver decapitações nos últimos vídeos. Eles utilizam as vítimas para aprofundar a narrativa que estão a construir.”

Tom Keatinge dedica-se ao estudo dos métodos de financiamento das organizações terroristas. Ele explica que o movimento radical começou por controlar pequenas áreas no Iraque, onde implementou a extorsão para recolher dinheiro. Mas há um fator crucial que explica a sustentabilidade financeira destes extremistas: aprenderam com os erros cometidos pela Al-Qaeda. Nas suas palavras, “aos olhos dos media, o Estado Islâmico veio do nada. Mas é preciso ter em conta que esta organização começou a formar-se há dez, quinze anos e que teve muito tempo para perceber como se podia financiar, como construir uma base sólida. Uma das lições que aprendeu foi que é preciso arranjar uma fonte financeira viável antes de avançar para uma causa. Essa foi uma das razões que derrubou a Al-Qaeda no Iraque. De certa forma, aprenderam a organizar-se em torno das noções de gestão empresarial. Se uma pequena empresa quiser conquistar uma grande, tem de procurar uma que tenha muito dinheiro disponível e depois ataca-a. É exatamente esse o método do Estado Islâmico. Procuraram alvos que são atraentes financeiramente – desde cidades a campos petrolíferos – e tomaram o controlo.”

Estima-se que a riqueza daquele movimento ascenda agora aos 1,5 mil milhões de euros. Afzal Ashraf é um antigo militar britânico que participou em missões no Iraque e que acredita que os extremistas aprenderam outra lição: em vez de atacar o Ocidente, o foco passou a centrar-se no alvo mais próximo. “Eles tomaram o lugar da Al-Qaeda porque alcançaram aquilo que a Al-Qaeda não conseguiu atingir. Conseguiram consolidar o controlo territorial. Atacaram o Iraque e conquistaram mais território, não por causa do poderio militar, mas porque o exército iraquiano não se conseguiu defender eficazmente. Por isso, exploraram o vazio político e militar que existia para assumir o controlo do terreno e declarar um Estado Islâmico, um califado islâmico mesmo”, considera Azraf.

Até há muito pouco tempo, o nome do centro juvenil Active Change Foundation, em Londres, não era propriamente conhecido fora do Reino Unido. Até que jovens muçulmanos, como Mo Simba, criaram uma campanha: “‘Not in My Name’ (‘Não em meu nome’) significa que sou eu que me represento a mim próprio, a minha cultura, as minhas crenças. Estou a dizer-lhes que eles não estão a lutar em meu nome, estão a fazê-lo por eles.”

Erin Saltman salienta que “é da sociedade civil que vai surgir a reação com mais poder contra o Estado Islâmico. Os governos são um pouco como os pais que dizem aos filhos para não consumir drogas. A mensagem mais relevante virá dos líderes religiosos, dos imãs, dos ativistas locais. Quanto mais diversos forem os quadrantes, mais poderosa se torna a contrarresposta. Porque os extremistas também estão a recorrer a vários quadrantes. Também contam com os imãs radicais, com as mulheres que foram ter com eles e que ajudam na comunicação em várias línguas. Por isso, temos de recolher o maior número possível de vozes.”

A luta contra o extremismo do grupo Estado Islâmico, seja virtualmente ou no terreno, está a ganhar forma. Mas há já quem avise que este é um conflito sem fim à vista.