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Laurence Kuhn: "China não deve abrir precedentes"

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Laurence Kuhn: "China não deve abrir precedentes"

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O governo de Hong Kong anunciou que não vai haver diálogo com os manifestantes. O encontro entre as duas partes, para tentar terminar com duas semanas de desobediência civil, estava previsto para sexta-feira, mas foi anulado.

Nas últimas horas, só se mantinham nas ruas do centro financeiro de Hong Kong, grupos de manfestantes isolados, mas as três principais organizações do Movimento, pediram aos cidadãos para regressarem até terem resposta às reivindicações: eleições livres de 2017 e demissão do governador atual.

Em 1997, quando o Reino Unido devolveu o território à China, obteve o compromisso de que haveria liberdade política e económica.
Hong Kong passou a ser uma região administrativa com um estatuto especial definido por uma lei fundamental, como uma constituição.
“Um país, dois sistemas”, prometeu Deng Xiaoping. Hong-Kong faz parte da China mas mantem uma larga autonomia, principalmente do ponto de vista económico.

Tudo funcionou bem até agosto passado, quando Pequim anunciou que os candidatos iam passar a ser “personagens patrióticas designadas por uma comissão”. Ora, o acordo de soberania estabeleceu meio século de autonomia, que só termina em 2047.
O presidente Xi Jinping quer manter o controlo direto da ilha, crucial para a economia chinesa. O exemplo serve para Taiwan, ou Formosa, onde as reivindicações duram há mais tempo.

A atitude da China, perante a recente crise em Hong Kong, levanta várias questões sobre as políticas do presidente Xi Jin-ping. A euronews entrevistou Robert Laurence Kuhn, perito em questões da China.

Niall O’Reilly, euronews – Estamos a assistir a uma abordagem mais distanciada por parte das autoridades, em relação ao que se passa em Hong kong. Muito diferente do que é hábito em Pequim. Será o reflexo de uma nova filosofia de liderança, por parte de Xi Jinping ou é excecional?

Robert Laurence Kuhn – A perspetiva do governo de Pequim, em relação ao que se está a passar em Hong Kong, não é diferente da que as autoridades locais de Hong Kong teriam. O que não quer dizer que haja uma independência de um relativamente ao outro poder. Pequim está, naturalmente, preocupada com o que se está a passar.
Nunca veríamos uma manifestação destas, com esta duração, na China continental. Isso de certeza. Mas no que toca ao deixar as autoridades de Hong Kong tratar dos assuntos que estão na sua jurisdição, isso não é novo.

Niall O’Reilly, euronews – Por que razão decidiram que seria Pequim a nomear os candidatos às eleições no território, sabendo que isso iria provocar uma resposta enfurecida?

Robert Laurence Kuhn – Não sei se concordo com a parte em que diz que se sabia que isso iria provocar uma resposta enfurecida. É preciso ver as leis básicas e a forma como a estrutura funciona. Não é muito claro. É a primeira vez na história que está a haver algo assim. Quando Hong Kong dependia da Coroa britânica, também não havia uma democracia de estilo ocidental. O território era dirigido por um governador. Este é um processo em evolução. Claramente, Pequim não vai deixar Hong Kong libertar-se do domínio chinês. No entanto, vão ter de respeitar ao máximo o princípio “um país, dois sistemas”, que até agora tem funcionado bem.

Niall O’Reilly, euronews – Fala de um processo em evolução e este braço de ferro está longe de estar resolvido. Vê alguma hipótese de Xi Jinping aceder aos pedidos dos manifestantes, nomeadamente no que toca a poderem escolher candidatos às eleições?

Robert Laurence Kuhn – A resposta, muito simples, é não. Não acho que as autoridades centrais da China possam deixar que Hong Kong, por via dos protestos, faça qualquer mudança.
Há aqui duas questões: uma é o tema fulcral da eleição do chefe do executivo e saber se essa pessoa pode ser alguém oposto às políticas de Pequim e não alguém eleito por sufrágio universal, mas escolhido entre uma lista restrita de candidatos. É aí que está a substância da questão.
Mas a forma também é importante: Não penso que a China queira abrir o precedente de deixar que os protestos de rua a façam mudar de política. Há, por isso, duas questões, e ambas têm a mesma resposta: Não.